Capítulo 7

...Donatilha...

— Mãe.

Seu irmão de 10 anos pulou em cima de sua barriga. Ele costumava chamá-la de mãe quando a "verdadeira mãe" não estava por perto. A mesma cuidava dele desde que nasceu. Sua mãe tentou abortá-lo, mas não conseguiu.

— Você comeu hoje, Alfred?

— Sim, mas eu peguei comida aqui do seu quarto. Tudo bem?

— Claro que sim.

— Estou cansado de tanto comer salgadinho. Você podia cozinhar para mim, mãe.

— Claro, vamos ao mercado.

Se queriam comer comida caseira, precisavam ir ao mercado, pois a geladeira deles era separada da geladeira da mãe e do padrasto. "Ninguém come da nossa comida de graça", dizia o padrasto. Para evitar que pegassem comida, eles trancavam a geladeira e os armários com cadeados. Mesmo quando estavam abertos, ela se lembrava das surras que levava na infância por pegar comida que não era dela. Só depois de conseguir um emprego aos 14 anos, começaram a comer bem. Ela sempre comprava coisas fáceis de preparar, pois quase nunca estava em casa, e isso facilitava para o irmão.

Os dois viviam comendo porcarias. Donatilha fumava bastante e quase sempre estava sob efeito de bebida, então quase não comia. Mas, quando comia, fazia isso até vomitar. Já deixou de comer para dar ao irmão porque a mãe saía para festas e os deixava sozinhos por uma semana, com pouquíssima comida. O pior era quando ele ficava doente e ela não sabia o que fazer.

Quando Alfred nasceu, Tilha tinha quase sete anos. Ele foi fruto de um relacionamento extraconjugal, por isso a mãe não gostava do garoto. Ela se envolveu com o melhor amigo do marido, mas ele a abandonou, deixando-a grávida. A mulher tentou abortar de todas as formas, mas não conseguiu, e, quando ele nasceu, ela o desprezou.

Nunca receberam roupas novas, brinquedos ou afeto. Sempre foram o alvo. A mãe descontava o ódio dela, o padrasto dava surras em Alfred, que o deixava de cama, sem poder ir à escola.

Quando Tilha tentou cometer suicídio, foi a pior coisa para o irmão. Ela sabia que foi egoísta, mas não aguentava mais.

— Mãe, me leva ao cinema nesse fim de semana?

— Levo sim, mas só se eles saírem e deixarem um dos carros, ok?

Donatilha aprendeu a dirigir com o avô aos treze anos, por necessidade. Uma vez, Fred teve uma febre alta e não havia ninguém em casa. Por sorte, o avô chegou bem na hora, depois deste dia ele a ensinou a dirigir para emergências. Hoje em dia, essa habilidade era muito útil porque ela pegava o carro escondido.

No mercado, Tilha empurrava o carrinho enquanto Alfred escolhia os alimentos com entusiasmo. Ele era a única luz em sua vida sombria, a razão pela qual ela continuava lutando. Pegaram alguns legumes, carne e arroz. Ao chegar ao caixa, a garota contou o dinheiro cuidadosamente, certificando-se de que tinham o suficiente.

Quando chegaram em casa, ela preparou uma refeição simples, mas nutritiva, enquanto Alfred a assistia com admiração.

— Você cozinha tão bem, mãe.

Ela sorriu. Essas palavras aqueciam seu coração.

Mais tarde, enquanto seu irmão assistia a um desenho animado na pequena televisão da sala, ela se sentou ao lado dele, pensando em como sua vida havia tomado rumos inesperados. Donatilha era mãe e irmã ao mesmo tempo, e aquela responsabilidade pesava sobre seus ombros.

Naquela noite, antes de dormir, ela olhou mais uma vez para as fotos de Elena junto de seu amante. Amanhã, tudo mudaria. Ela tinha um plano.

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Comments

Kharinne Santos

Kharinne Santos

Que horror...

2024-06-25

1

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