Mau, elas entraram no carro e a sua mãe foi enchendo o saco até a pousada. Ela perdeu-se em pensamentos:
"Se não bastasse ter aguentado aquele ogro o dia inteiro, agora teria que explicar por que pintou o cabelo de cor de rosa. Parecia que ser presa era mais aceitável do que ter cabelos rosas. Se ela tivesse conhecido aquele ogro antes de pintar os cabelos, teria pintado de vermelho, como a Fiona. Que pensamentos são esses, Maria Flor? — reprende ela — Desde quando você sonha com ogros no lugar de príncipes?"
Ela levou o braço até o nariz para sentir o cheiro da jaqueta dele; era um cheiro de homem muito agradável, que se diferenciava ligeiramente do Duda, que parecia mero perfume importado. O cheiro do ogro era uma mistura de natureza, liberdade e perfume caro.
Ela deseja que esse perfume tenha um bom fixador porque quer cheirar a jaqueta por um bom tempo. Ela ri, lembrando da aventura com aquele ogro/pavão. Quando um homem poderia ser tão metido? Será que ele era? Com certeza ele era rico; se o cavalo na frente da confeitaria custava 300 mil, imagina quanto custava aquele gigante negro no qual o ogro estava montado.
Mal elas entraram no chalé e sua avó se levantou preocupada.
— Florzinha, você está bem? — pergunta dona Carolina, sentindo-se aliviada por ver a neta.
— Que cabelo é esse? Essa é a nova moda dos presídios. Sulinos? — implica Vivi.
— Filha, o que aconteceu com seus cabelos? — sua avó parece chocada.
— Eu pintei.
— Quando você dormiu era loira e acordou cor de rosa! Me parece pouco usual para uma médica, você não acha, Carla? — sua mãe só assente, concordando com a cabeça.
— Pintei, vó, já que vou ser obrigada a morar aqui durante um ano. Farei coisas que jamais faria no Rio de Janeiro e esqueça que sou médica; vou ser só Maria Flor. Vou trabalhar em algo que nunca imaginei fazer. Não é para isso que serve o ano sabático?
— Só pode ser esse ar puro; nós não estamos acostumadas. No primeiro dia, você se transformou na Barbie, sofreu um acidente de trânsito e foi parar na cadeia. — sua avó fala sério, mas todas acabam rindo da situação inusitada. — Como era ele? Bonitão, feio, grosso ou educado? — indaga dona Carolina, não escondendo a curiosidade.
— Vó, ele é um ogro, bruto e mal-educado. — e lindo, mas isso ela não contaria para ninguém. — Mas a mamãe se deu bem, ficou de papinho com o advogado dele.
— Não exagere, Flor, fiquei horas na delegacia para te tirar de lá. — a mulher fica vermelha como um tomate pela mentira contada.
— Sei! Eu te conheço, Saturnina Brito! — gracejou dona Carolina.
Dez dias passaram-se desde a chegada das mulheres ao Vale das Videiras. A vida no interior era um desafio para as quatro mulheres acostumadas às facilidades da cidade grande.
Como não havia muito a fazer, elas resolveram fazer uma pequena viagem até Gramado e redondezas. Agora, estavam sendo aguardadas pelo primo Francisco, que fez as melhorias na casa.
Era unânime a decisão de odiar a casa; elas reclamavam dia e noite de algo que nem mesmo haviam visto.
O GPS indica que chegaram ao destino. Maria Flor estaciona em frente a uma casa surpreendentemente fofa e as quatro olham para o outro lado da rua, esperando encontrar a casa-monstro, mas, olhando novamente para a casa e conferindo o número, era aquela.
— Essa é a casa? — pergunta Vivi. — É retro?
— Parece que sim. Vamos descer e conferir, Carla.
Um homem lindo, com seus 45 anos, sai para recebê-las, com um sorriso que revela dentes perfeitos.
— Que gato! — sussurra Vivi.
— Uau, como tem homem bonito nessa região do país. — comenta Maria Flor.
— Não, meninas, alguma coisa tinha que ser boa nesse lugar. — desdenha dona Carolina.
— Olha a dona Carla toda se querendo.
— Mamãe está toda saidinha desde que chegamos aqui — confirma Viviane — não me surpreenderá que daqui a pouco ela anuncie um crush.
— Deixa a mãe de vocês em paz; ela não morreu — ralha dona Carolina.
— Vamos entrar. — chama o homem.
A casa, tipicamente dos anos 60 tinha a fachada muito bem conservada. O primo Francisco fez um excelente trabalho; as cores ficaram perfeitas e o jardim, bem cuidado.
Dona Carolina nem se lembrava de como era a casa. A residência era composta por quatro quartos, dois banheiros, cozinha, sala de jantar e estar. Nos fundos, ainda contava com uma meia água, quarto, sala e cozinha, que seria para Maria Flor poder montar sua academia. Era a casa onde viveu dona Carolina até os seus dezoito anos, quando se mudou para estudar arte no Rio de Janeiro e nunca mais voltou.
A primeira semana na nova casa foi um caos. Os móveis não cabiam direito no espaço, o chuveiro elétrico não dava vazão para os costumeiros banhos demorados das mulheres. Houve briga diária porque Viviane usava o chuveiro até desarmar o disjuntor.
Viviane só queria saber de internet, e a casa não tinha sinal. — Eu merecia a parte de trás, já que estou sendo a mais prejudicada com essa mudança — Vivi dá uma crise de ciúmes.
— Eu não sabia que foi você que deu a cara a tapa para trazer as nossas coisas para cá. É justo que Maria Flor fique com um espaço maior. — diz dona Carolina.
— Aí, tadinha da Vivi — Maria Flor ri da desgraça da irmã.
Carla se achava uma mulher prática e organizada, encarou a casa com um misto de horror e descrença. — Essa casa precisa de muita paciência, vou te contar. — dizia Carla enquanto tentava consertar o chuveiro. O chuveiro, que antes só pingava, começou a jorrar água com força; de repente, a casa inteira começou a inundar.
Dona Carolina, com seus dramas diários e um arsenal de chás caseiros para qualquer ocasião, alegrava a família comparando todos os problemas que surgiam com alguma série turca que assistiu. — Isso aconteceu numa série que assisti no ano passado; uma família rica perde tudo e tem que ir morar numa casa na periferia da cidade. A casa era um horror; o encanamento estava entupido e a fiação velha dava problema o tempo todo.
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Atualizado até capítulo 86
Comments
Keila Amorim
Muito bom, tô rindo até 2026😁😁😁
2025-02-09
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Telma Souza
kkkkkk Jesus já vi que vai dá namoro.
2025-03-27
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Cleidilene Silva
Não reclama meninas vcs ainda tiveram sorte por ter essa casa de herança, tem muitos que não tem nada.
2025-01-26
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