— É só pensar um tiquinho assim: quatro mulheres viajando para o interior do Brasil sozinhas com um carro feito para a cidade. É burrice se vamos para o interior.
Precisamos trocar de carro.
Para um que aguente o tranco, como uma picape com cabine estendida, para todos os tipos de terreno.
— Perturbada, a única coisa que temos de bom é o carro — retruca Vivi, com as mãos na cintura.
— Que não nos servirá de bosta nenhuma no interior, sua anta!
— Vivi, a Ceci tem razão: esse carro é ótimo aqui na cidade, mas lá no interior não atenderá às nossas necessidades.
— Então tem que ser um Toyota Hilux.
— Nossa, acho que a tinta está acabando com seu cérebro. Sabe quanto custa uma Hilux?
— Tudo culpa sua, Carla! As meninas estão brigando, minha úlcera está queimando graças à sua irresponsabilidade e inconsequência. Estamos indo para o fim do mundo, aonde jurei nunca mais voltar — geme dona Carolina.
Elas olham uma última vez para o lugar com tantas recordações. Não é fácil se despedir; foi ali que dona Carolina morou desde o dia em que se casou. Foram seus melhores momentos com o marido, chegaram com sua filha da maternidade, tantos natais, festas de aniversário. Agora precisavam partir.
— Acho que vou morrer! — Dona Carol enxuga as lágrimas.
Quatro mulheres se abraçam e lágrimas descem de seus rostos, mas a hora da partida chegou.
A viagem foi marcada pelo mau humor das viajantes.
Maria Flor dirigiu a maior parte do tempo sem reclamar.
Diante de um mar verde com toques coloridos aqui e ali, do outro lado da ponte, as plantações se estendem por quilômetros. Maria Flor dirige ao longo de um campo verde e frondoso, com grandes plantações de uva que dão um colorido verde e rosado. Roseiras em flor encantam os viajantes.
“Dobre à direita a quinhentos metros,” avisa o GPS.
— Essa é a última fazenda antes de entrarmos na cidade — gemeu dona Carol, cansada.
Uma grande placa dizia “colha e pague”, isso chamou a atenção de todas.
— Tipo pesque e pague? — Maria Flor aponta e recebe uma resposta atravessada.
— Deve ser. Quem se interessa? Todo esse ar puro está me deixando com dor de cabeça — reclama dona Carol, irritada. — Não vejo a hora de poder esticar as minhas pernas.
— Mamãe, a viagem foi tranquila — Carla tenta animá-la.
— Para quem? Estou hiper entediada, a internet pouco funcionou nas últimas nove horas — reclama Viviane, de mau humor.
— Você é muito folgada, Vivi! Não dirigiu nem um quilômetro sequer e só faz reclamações — impacientou-se Maria Flor.
— Sabe qual é a nossa diferença? Sou delicada e você, bruta — rebate Viviane, jogando os longos cabelos para trás.
— Meninas, já chega! Ninguém aguenta mais vocês duas. Estou a ponto de ter um infarto — Dona Carol aperta as têmporas com desânimo.
Um quilômetro e meio depois, Maria Flor desliga o motor em frente a uma pousada de dois andares com arquitetura tipicamente europeia.
Após destravar as portas, estende a mão para a maçaneta e desce do carro.
Os últimos raios de sol banham a construção com seu brilho alaranjado. Um perfume de jasmim toma conta do ar, fazendo Maria Flor fechar os olhos e respirar fundo.
— Tomara que tenha água bem quente. Meus músculos estão me matando — Dona Carol é ousada e charmosa, nunca sai de casa sem estar devidamente arrumada; nesse momento, ela parece ter sido atropelada por um trem.
— Casilda Bach, que viagem detestável!
Ao entrarem, elas notam que o hotel estava fervilhando.
— O que será que está acontecendo?
— Provavelmente algum evento envolvendo homens suados, vacas e bosta. Já estou com saudades do cheiro da poluição.
Elas caminham para a recepção.
— Boa noite, temos quatro reservas — sem esperar pela resposta — Deixa eu procurar o e-mail. Onde você está? Pronto, está aqui. Nosso quarto está pronto?
O rapaz olhava para elas como se visse quatro ETs.
— Deixa eu chamar o gerente, só um minuto. Se quiserem, podem sentar-se; as coisas estão devagar aqui hoje.
— Ai, aí só faltava não termos para onde ir.
— É melhor sentarmos.
— Prefiro ficar de pé — diz Vivi.
— O que será que está acontecendo?
E muita gente.
— Nunca ouviram falar de Rico Gaúcho, o campeão mundial de montaria? Ele é uma lenda por estas bandas — diz uma moça negra vestida a caráter, com blusa xadrez vermelha, calça jeans e bota de salto.
— Nunca ouvi falar. Você já ouviu, Florzinha?
— Nunca, vovó.
— O Vale das Videiras é uma cidade pequena, com pouco mais de cinco mil habitantes.
Mas passa dos cem mil quando tem rodeio. As quatro festas de rodeio anuais são os eventos mais aguardados por todos, inclusive eu, que sou fã de carteirinha.
— E o melhor: movimenta a economia local. Durante cinco dias, o lugar se transforma, atraindo visitantes de todas as partes do país para assistir às competições, shows, musicais e participar dos tradicionais astros do rodeio nacional. No coração dessa festa está Rico Gaúcho, o campeão mundial de montarias — diz um homem de cabelos grisalhos. — Bem-vindos! Sou Rodolfo, o gerente do hotel. Houve um equívoco com a hospedagem de vocês, mas estamos trabalhando para consertar.
— Não entendi como consertar. Fiz as reservas, recebi o e-mail da confirmação, paguei pela hospedagem. Não tem equívoco nenhum. Aqui está o e-mail de confirmação e o recibo de pagamento. O que mais precisa para liberar nossos quartos?
— Aí que tá! Não temos quartos vagos — confessou o gerente.
— Como assim não tem quartos vagos? Carla, te disse que vir para este fim de mundo não daria certo.
— Conseguimos um quarto que podemos arrumar provisoriamente para as quatro damas.
— Nós quatro juntas no mesmo quarto e um banheiro só? É homicídio na certa — todos podiam ouvir a respiração ofegante da garota.
— Olha, Vivi, se você não quiser, não precisa vir junto — grunhiu Maria Flor.
— Carla, não temos escolhas. Estou morta.
— Também acho, mamãe — choraminga Maria Flor.
— Como fica o nosso dinheiro? — pergunta Carla, desejando arrancar o pescoço do homem.
— Enquanto não resolvermos, será uma cortesia da casa.
— Muito bem, nos leve até ele.
— Vivi virou-se e começou a andar, puxando sua mala como se nada tivesse acontecido.
— Pensei que você iria ficar na recepção até segunda ordem — riu Maria Flor.
— Vá à merda — Vivi virou-se, colocando a língua para fora, recebendo em troca um puxão de cabelo que lhe arrancou um grito de dor.
Carla olha para trás. — O que é isso, meninas? Comportem-se!
O gerente as levou a um chalé nos fundos do hotel. Abriu a porta e elas foram surpreendidas com o que seus olhos viram. O cômodo era grande, com duas camas de casal, lindas cabeceiras de madeira pintadas de branco, as colchas também brancas com pequenas flores rosas, e uma lareira que era um charme à parte. Vivi corre para ver o banheiro, que era pequeno, mas lindo e organizado.
O gerente se despede, anunciando que o café é servido das sete às dez da manhã e que à noite é servida uma sopa.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 86
Comments
Telma Souza
Meu Deus. Um rebanho de mulher que não fazem nada. A melhorzinha é a flor. tá doido
2025-03-26
0
Ana Paula de Miranda
kkkkk eu juro que achei no início que seriam irmã e mãe do contra,as bruacas
2025-02-11
0
Vanessa Costa
estou rindo muito com elas🤣🤣🤣🤣
2025-02-20
0