O dia começou ensolarado. Maria Flor levantou-se espreguiçando. Sua avó roncava com seu tapa-olhos. Indo até a janela, olhou para fora e viu que a cidade fervilhava com os preparativos para os quatro dias de festa.
A chegada ao Vale foi meio caótica devido à confusão com as reservas. Sua família se amava, mas cada um precisava do seu espaço. Um banheiro só não daria certo; todas queriam tomar banho, comer e dormir ao mesmo tempo, o que gerava um conflito quase mortal.
Depois de muita briga, finalmente elas deitaram para dormir. Sua avó foi a primeira a pegar no sono, para tristeza da família; os seus roncos eram tão altos que era impossível dormir. Mas, por fim, o cansaço venceu e elas puderam finalmente pegar no sono.
Enriqueta, como sempre, Maria Flor correu para o banheiro. Numa parada na estrada, ela foi a uma farmácia comprar antiácido e viu tinta cor de rosa e pensou: por que não?
Num ato de rebeldia, pintou os cabelos de rosa. Ela estava sendo obrigada a ter um ano sabático, mas seria com estilo. Se ela estivesse no Rio de Janeiro, trabalhando como médica, jamais poderia ousar tanto; mas aqui, no meio do nada, ela poderia ser o que quisesse.
Ela preparou-se para ver o que estava acontecendo de perto. Nunca vira um rodeio; talvez fosse interessante. Optou por um vestidinho rosa e sapatilhas.
Ela estava feliz, como se algo novo e maravilhoso estivesse acontecendo. Acostumada a horas de solidão, caminhou até a picape para retirar sua amiga inseparável. “Magrela”, sentando nela, resolveu explorar seu novo mundo pelo próximo ano. Enquanto se movia pelas ruas movimentadas, avistou uma confeitaria alemã e se encantou com o cheiro vindo de lá.
— Bom dia, bem-vinda ao Vale das Videiras! — diz a mulher de cabelos grisalhos, aparentando ter uns cinquenta anos.
— Bom dia, obrigada. Quanta gente! Ontem, quando minha família chegou, a cidade não estava tão cheia assim. Hoje é quinta-feira, certo?
A mulher ri.
— As pessoas vão chegando na madrugada. A festa vai de quinta a domingo, por isso esse mundo de gente. As pessoas querem aproveitar tudo e, quem sabe, tirar uma foto com o rei.
— Rei?
— Rico gaúcho, o rei da montaria.
— Nunca ouvi falar.
— Sério? Ele é o pentacampeão mundial de montarias e é um viúvo milionário. Muitas mulheres vêm aqui tentando a sorte de conquistar seu coração — a mulher diz em tom baixo, só para ela ouvir.
— Vocês não têm local para bicicletas?
— Não, meu bem. Pode deixar aí; ninguém vai mexer.
— Tem certeza?
— Absolutamente. Olha aquele cavalo ali; vale R$ 300 mil e ninguém mexe.
— Uau, o preço de um carro zero.
— Sente-se, aproveite que essa mesa vagou.
— Já sabe o que vai pedir? — pergunta, com o bloco e a caneta à mão.
— Cuca de banana e chocolate quente, por gentileza.
— Talvez demore um pouquinho — a mulher olha para o mundaréu de gente e pisca para Maria Flor. — Mas vai chegar.
Enquanto ela observava as pessoas ao redor, fingia ler o cardápio, tentando disfarçar sua curiosidade diante de tanta agitação. As vozes ao redor pareciam felizes; famílias inteiras brindavam com uma cuia de chimarrão. Ela lembrou da última viagem antes da separação dos pais; eles um dia também foram assim, barulhentos e felizes.
Depois do café, sentindo-se satisfeita e cheia de boas energias, resolveu conhecer um pouco das redondezas e sorriu feliz.
— É magrela igual no Rio de Janeiro. Se eu te deixasse dois minutos sozinha, quando voltasse, não te veria nunca mais — disse, montando na bicicleta e saindo feliz.
O lugar era muito bem cuidado; apesar de ter muita gente, era tudo muito limpo. Flores e frutas eram plantadas nas calçadas, e casas sem muro eram um encanto à parte.
Do nada, aparece um cavalo negro gigante e Maria Flor teve que pular no meio do mato. Magrela não teve a mesma sorte; o cavalo pisoteou e amassou tudo.
O homem desce do cavalo com os punhos cerrados.
— Você viu o que fez?
— Eu fiz? Seu garanhão quase me matou.
— Não exagera — diz desdenhoso. — Você pode ter machucado meu cavalo. Sabe quanto ele vale?
— Não sei e não quero saber. Você veio correndo; como vai ficar meu prejuízo?
— Rico já vai começar. O que você continua fazendo aqui? — pergunta Léo, esbaforido.
— Essa doida entrou na frente da fúria da noite. Leve-o para o veterinário imediatamente.
Suas palavras saíram abafadas pela tensão que se acumulava em seu peito. — Seu cavalo pisoteou minha bicicleta.
— Léo, dá dois mil reais pelo transtorno da guria.
Seus olhos brilharam de pura indignação. — Você enlouqueceu? Minha bicicleta está avaliada em treze mil reais e é toda original.
Ele a fuzilou com o olhar.
— Louça é você que acha que vou ser roubado na mão grande, sua oportunista.
Maria Flor, indignada, ajeita a postura e cruza os braços para parecer mais alta, com seus um metro e sessenta e cinco de altura. O homem à sua frente tinha uns quinze centímetros a mais, um corpo perfeito e olhos azuis magníficos.
— Fui chamada de doida, ladra, oportunista. Essa cidade não tem lei? — retirando o celular da bolsa, ligou para a polícia, que não demorou a chegar.
— Bom dia, o que está acontecendo aqui? — pergunta o homem bonito na casa dos quarenta e poucos, vestido em calças jeans e camisa xadrez.
— Tudo bem, Ricardo? O que você faz aqui?
— Lionel, essa moça desajeitada entrou na frente do meu cavalo.
— Fui atropelada; minha bicicleta está destruída.
— Atropelamento? — diz o delegado, assustado. — Senhor Ricardo, o que está acontecendo aqui?
— Eu estava atrasado para uma apresentação e essa turista apareceu na minha frente do nada.
— Não é verdade, doutor. Estava pedalando pelo canto da rua quando, repentinamente, veio uma coisa gigantesca e tive que pular no mato. Estou apenas com alguns arranhões, mas minha bicicleta não teve a mesma sorte. E ele não quer me ressarcir.
— Quem anda de bicicleta aqui no Vale? — debochou Rico.
— O senhor está dizendo que nessa cidade é proibido andar de bicicleta?
— Claro que não, guria. Os ciclistas são protegidos por lei federal — diz o delegado.
O homem fechou a carranca, com os braços cruzados e batendo os pés. — Lionel, se apresse; não tenho o dia todo.
— Que fofo! Quer dizer que nessa cidade se comete um crime e ainda manda uma autoridade se apressar?
— Cala a boca, sua baranga.
— Baranga é a sua avó — o delegado arregalou os olhos.
— Minha avó, que Deus a tenha, nunca foi uma baranga — defendeu o delegado.
— Não estou dizendo a tua avó, a vó dele.
— O projeto de palhaça, as avós dele e as minhas avós são as mesmas.
— Desculpe, seu delegado, eu não sabia que um homem da lei tinha um parente caloteiro.
Confusão estava armada. Os dois discutiram e o delegado tentou em vão separar, com medo de uma agressão, e acabou sendo atingido com um soco de cada lado do rosto, vindo da mão dos dois.
— Prendam os dois! — grita o delegado.
Continua.
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Atualizado até capítulo 86
Comments
Vanessa Costa
ei! confusão boa. Parece que estou na janela apreciando tudo
2025-02-20
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Cleidilene Silva
tá ficando muito divertido, amando ler ❤️❤️
2025-01-26
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amor por leitura 📚
Rindo muito com esses dois.kkkk
2025-01-23
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