As mulheres estão em choque.
Carla tenta a todo custo não parecer desesperada; ela sente o suor escorrendo por suas costas.
Mas continua a falar com falso otimismo: — Não é tão mal assim! Proponho tirarmos um ano sabático.
Maria Flor encara a mãe com uma das sobrancelhas erguida.
— Aí não! — Dona Carol geme. —
De todos os lugares deste mundo, o último que gostaria de voltar é para o vale.
— Isso é para a senhora aprender a guardar essa língua na boca, mamãe. Vivi, pegue esse bloco e a caneta, não esse, o com folhas maiores, isso, menina.
— Ano sabático? Tenho o emprego dos sonhos! Para que vou tirar um ano sabático, mamãe? — Maria Flor solta um som incrédulo.
Vivi traz o que a mãe pediu. —
Você enlouqueceu, mamãe? Definitivamente odeio o interior. Não estamos acostumadas com mosquitos, vacas, muito menos com um monte de verde. Acho que posso até ter uma crise alérgica.
— Por enquanto, o importante é permanecermos juntas e, lá no sul, teremos um teto sobre nossas cabeças. Carla tenta voltar ao assunto principal.
— Sou uma influencer digital. Como vou ter material orgânico para o meu Insta? Preciso postar diariamente! Como viverei no meio do mato, sem praia, sem shopping, sem festas, sem dinheiro? Como ficará o engajamento dos meus posts? Quero morrer!
Carla sempre investiu na carreira da filha mais nova. Ela pensa que sua filha favorita ficará milionária a qualquer momento. Primeiro foi como YouTuber, agora Instagram, ou talvez encontrando o príncipe encantado.
Viviane é uma mulher de vinte e três anos, muito bonita. Já ganhou diversos prêmios de beleza e fez trabalho freelance de modelo. Ela é a típica garota da cidade grande, acostumada com praias de dia e festas à noite. Vive rodeada de amigos e seguidores.
Num dia normal, jamais estaria em casa nessa hora.
— Por que não alugamos uma casa com a aposentadoria da vovó? Seu salário, posso ajudar mais nas despesas. Vivi também contribui com uma parte dos seus ganhos.
— Pode esquecer, sua maluca! Não posso abdicar dos cuidados diários. Tenho academia duas vezes por semana, Pilates três vezes, massagem modeladora, cabeleireira, manutenção das minhas unhas, alimentação balanceada, roupas da moda, maquiagem e o transporte de aplicativo. Não sobra nada para ajudar.
— Para que adianta tanto investimento se você ainda continua solteira? — zomba Maria Flor.
— Pior você, que só teve um namorado, uma esquisita com gosto duvidoso para roupas. — Maria Flor abriu a boca para responder, mas sua mãe gritou para que elas se calassem.
— Meninas — fala com voz mais branda. — Já chega! Além de perdermos a casa, eu também perdi meu emprego e foi por justa causa, tudo por sua causa: Maria Flor, não receberei nada.
Não temos dinheiro para pagar nem o carreto, e se ficarmos aqui, serei perseguida pelo pai daquele lunático.
— Por minha causa? Mamãe, está de brincadeira, né? Desde quando gasto o que não tenho?
— Tudo porque você se envolveu com o Eduardo. Dr. Castelo Branco veio com um papo para eu ajudar a juntar vocês.
Então vomitei tudo que estava entalado na minha garganta. Não quero você envolvida com aquele psicopata. Até em armas você estava pegando! Deixei claro que não permitirei que você namore o filho dele. A discussão saiu do controle e bati nele.
— Você ficou louca, Carla? Bater no cirurgião plástico mais renomado de todo o Brasil?
— Agora é tarde, mamãe. Fui expulsa da clínica e ele quer o dinheiro que me emprestou. Como não tenho como pagar, terei que dar nosso apartamento ou ir para a cadeia. Vocês escolhem.
— Você venceu, Dona Carla, mas deixou tudo para trás? Tenho meus equipamentos de ginástica. Sem eles, uma preparadora física não existe.
— Tenho o meu estúdio. Preciso levar tudo, também roupas e sapatos, enfim, todo o meu quarto. Que tragédia abateu-se sobre nossa família.
Dona Carolina, que havia cochilado, parece ter acordado exatamente na hora de ouvir.
“Deixar tudo para trás”.
— Se minha TV não for, eu também não vou!
Quando quatro mulheres conversavam ao mesmo tempo, ninguém se entendia. Já era uma experiência dolorosa ir para o interior; imagina deixar tudo para trás, impossível.
— Posso participar de uma luta, que fui convidada. Se eu ganhar o segundo lugar, terei o dinheiro do carreto.
Também precisamos de algum dinheiro para ajeitar essa casa; ela já está um tempão alugada, né?
— Prefiro morrer a ver você se meter nesse negócio de luta. — diz Carla, chorosa.
— Se eu lutar, garanto pelo menos uns cem mil. Deve dar para levar as nossas coisas e fazer uma reforma básica na casa.
Mas você teria que concordar, mamãe. Você precisará me acompanhar.
— Você sabe que odeio violência. Eu não posso ver isso. Ainda mais sabendo que ocasionalmente aparecem uns defuntos, cheios de marcas de pancadas que ninguém explica de onde vieram, sempre com o mesmo histórico: homem ou mulher atleta adepto a essas lutas. Por isso eu te digo que você não irá lutar, coisa nenhuma.
— Votação! — grita Dona Carolina, com a mão levantada. Quando alguém da família pede votação, todas têm que calar na hora.
— Vamos votar. — diz Viviane.
— Vovó?
— Meu voto é sim! — declara Dona Carolina.
— Mamãe?
— Claro que não! — diz Carla, visivelmente aborrecida com a atitude da mãe.
— Flo?
— Sim!
— E Viviane sim! Então você perdeu, mamãe, a Flor vai lutar.
— Isso foi jogo sujo até para você, mamãe — diz Carla, e Dona Carolina dá de ombros.
— Não podemos deixar as nossas coisas para trás.
Elas ouvem a porta da cozinha se abrir — Oi, de casa cheguei.
— Estamos na sala, Cida Maria — grita Viviane.
Elas ouvem os passos se aproximando. — Oxi, quem morreu?
— Até você, Cida Maria. — resmunga Carla, aborrecida.
— Temos uma notícia muito triste, minha filha. — disse Dona Carolina, chorosa — perdemos a nossa casa e teremos que ir morar lá no interior.
Cida Maria 30 anos solteira, nordestina com orgulho e estudante de assistência social.
— É piada, né? — Cida Maria abraça a sua patroa e melhor amiga.
— Infelizmente é verdade, teremos quinze dias para entregarmos o apartamento — confirma Maria Flor.
— Gente, como vou viver sem vocês? — Cida Maria diz, soluçando.
As cinco mulheres se abraçam, chorando.
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Atualizado até capítulo 86
Comments
Telma Souza
Nossa que horror. rebanhos de inútil. e essa mimadinha tá precisando pisar na merda do porco e cavalo. e ainda levar um monte de picada e ficar com o rosto marcado. Vou continua lendo a os comentários que são bons, mas ainda tô duvidando viu.
2025-03-26
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Edi Graças
Mulheres tudo fúteis que só pensam no próprio umbigo. 🤦🏽♀️🤦🏽♀️🤦🏽♀️🤦🏽♀️🤦🏽♀️
2025-02-13
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Vanessa Costa
🤣🤣🤣🤣 tudo tem limites, né vovó
2025-02-20
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