Ricardo Correia Schmidt e seu cavalo correm ao vento. Sempre que algo o incomoda, esse é o seu remédio: sair a correr sem destino com seu cavalo preferido.
Eles percorrem a fazenda, gastando a energia acumulada, tanto do cavalo quanto do seu cavaleiro, enquanto correm. Rico observa seu patrimônio. Nada foi conquistado com facilidade; começou a trabalhar aos quatorze anos em uma fazenda de gado aqui no sul do Brasil. Aos dezesseis anos, ele conseguiu sua primeira vitória no lombo de um touro bravo.
Tudo ali foi ganho graças a Deus e com a força de seus braços. Um dia, sua filha Cecília herdaria tudo aquilo. Mas como seria isso com a menina presa a uma cadeira de rodas? Eles voltaram há pouco da última consulta da menina, que, por estar muito traumatizada com médicos, agulhas e remédios, não aceita ser tocada, dificultando o tratamento de reabilitação.
Ele conduz o cavalo de volta para a sede da fazenda e vai diminuindo a velocidade até estarem em um trote lento.
Seu irmão, seu melhor amigo e seu homem de confiança, aproximou seu cavalo do de Rico.
— Está melhor? — pergunta Zé Luiz.
— Como posso estar melhor, após ouvir do médico que a Cecília está cada dia mais atrofiada e pode nunca mais voltar a andar?
— Ela vai melhorar, tenha fé.
— E agora, como vamos arrumar uma babá decente para cuidar dela, sem que a mesma largue o serviço para ficar andando atrás de mim?
— Irmão, você precisa arranjar uma babá que não seja do vale ou redondezas, que não seja sua fã. Para organizar as coisas da guria, uma moça da cidade — ele coça a cabeça — tipo “mulher Amélia” da música “Amélia, mulher de verdade”, sabe? Você precisa de uma igual, “ela não tinha a menor vaidade”.
— Os dois caem na gargalhada.
— Isso existe? — pergunta Ricardo, cético.
— Talvez, pode ser até de outro estado que não saiba quem você é. Ou pense que pode conquistar o título de patroa.
— Talvez você tenha razão, uma mulher de outra cidade, mas precisa ser feia, estranha, que não venha achar que pode me conquistar. Não estou procurando uma esposa. Também tem que ser forte; não aguento mais essas que são cheias de frescuras. Não dá, e essa é a terceira só este mês que tive que dispensar.
— Pensam que numa fazenda não tem mosquito, aranhas. Tchê — a gargalhada dos dois faz as aves voarem.
— Zé Luiz, não quero que fique dando em cima de mim. Estou cansado de não ter paz dentro da minha própria casa — reclama ele.
— Vamos mandar Dona Vanusa preparar um anúncio para colocar no jornal de domingo?
— Vou pensar no assunto.
Sacudindo as rédeas, faz Castanho correr o restante do percurso, deixando Zé Luiz para trás.
Fazenda Rico Gaúcho.
Um casarão restaurado do início do século, 20 com grandes janelas e portas amarelas na varanda, sofás de madeira com almofadas brancas e vários vasos de flores enfeitam o local.
Passando pela porteira da sua fazenda e observando os funcionários guardarem os cavalos naquele final de tarde, ele é cumprimentado com um aceno de cabeça e ele retribui.
Sua! Essa palavrinha tão pequena tinha um significado enorme para ele. Quando criança, Rico ouvia as histórias do pai, que tinha o desejo de criar cavalo Quarto de Milha. Hoje era mais um sonho, e sim a mais pura realidade.
Ele desceu do cavalo e um jovem veio correndo e levou Castanho para o estábulo. Rico caminhou para o seu escritório na administração da fazenda Rico Gaúcho, nome reconhecido nos rodeios do Brasil e do mundo.
Abriu a porta, acendeu a luz e foi em direção à grande mesa de jatobá que adquiriu em um leilão em uma fazenda de Minas Gerais. Ele restaurou-a e a colocou no centro do amplo cômodo, com suas janelas azuis que iam do chão ao teto, o que o fazia se sentir pequeno, apesar de sua altura de um metro e oitenta e cinco.
O homem tirou o chapéu, deixando à mostra os seus cabelos, e o colocou no gancho na parede. Acomodou-se em uma confortável poltrona revestida com o couro de um búfalo negro como a noite, presente que recebeu de seu pai quando completou treze anos. Esse ano marcou a vida de Rico como nenhum outro, pois seu pai era um homem forte que, acostumado a lidar com gado, adoeceu repentinamente e, em poucos meses, morreu, deixando uma mulher e dois filhos.
Em poucos meses, sua mãe viu-se responsável pelo sustento da casa com um filho de treze e outro de oito.
Eles residiam em um local onde as mulheres tinham poucas opções de trabalho. Ela trabalhou na roça, onde, dia após dia, foi perdendo o seu vigor. Não importava quanto ela trabalhava; não era suficiente para o sustento da família.
Ela lutou arduamente para que seus filhos não saíssem da escola, mas, aos quatorze anos, Rico foi a um rodeio e, depois disso, decidiu, com toda a sua força, que seria pião de rodeio.
Quando ele completou quinze anos, eles perderam a mãe.
A irmã de sua mãe decidiu ficar com Zé Luiz, porém achou que um menino de quinze anos era velho demais para ela colocar dentro da casa dela.
Um ano depois, Rico ganhou seu primeiro campeonato estadual de montaria.
E no ano seguinte, ele ganhou o terceiro lugar no nacional; daí para frente, ele ganhou praticamente todas as provas de que participou. Aos dezoito anos, ele entrou na justiça pedindo a guarda do seu irmão e demorou seis meses para que ele tivesse sucesso.
José Luiz Correia Schmidt, 30 anos.
Desde aquele dia, eles nunca mais se separaram. Ele fez questão de pagar os estudos de Zé Luiz, que se formou com louvor na faculdade de administração. Homem bom e de coração puro e o melhor amigo do irmão Rico.
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Atualizado até capítulo 86
Comments
Leonor Santana
Essa história promete ser muito boa pelo seu conteúdo de reabilitação. Gosto muito.
2025-02-16
0
Vanusa Crispim Da Silva
amo história do fazendeiro, com um pouco de comédia
2025-01-23
2
Anita Alves
foi bem difícil a vida dele
2025-01-15
0