Assim que entramos na cozinha, Marcos entrou ao mesmo tempo.
— Não era pra você estar cuidando do meu agente?- perguntei indicando a direção da sala.
— Ele não tem nada, disse que foi apenas um enjôo súbito por ter visto sangue. Isso e meio que normal pra policiais de primeira viagem.
— E você? - falei inclinando o corpo levemente para frente.
— Eu o que!- rebate Marcos calçando um par de luvas.
— Você já viu sangue?
— Detetive. - rebate Marcos pausadamente — trabalho como médico legista a quase dez anos, perdi a conta de quantas vezes vir sangue humano, corpos abertos mutilados e tudo mais, relaxa, não vou desmaiar ou sujar sua cena de crime - termina Marcos agitando os dedos.
Olho para Marcos e devolvo o sorriso fechado.
— E então. Onde estão os corpos?- pergunta Marcos esticando a luva fazendo um barulho quando soltou contra seu pulso.
Apenas apontei o congelador.
Marcos se vira nas plantas dos pés. Cruzei meus braços e aguardei o que iria acontecer, talvez não aconteceria nada, Marcos talvez abrisse aquela tampa e apenas dissese. “Olha, cabeças decepadas” ou “Quantas cabeças humana separadas de seus corpos. Isso vai dar trabalho”. Mas o que vi no instante seguinte foi Marcos arregalar os olhos e corre para fora da cozinha a passos largos, em quanto, eu não sabia se fazia o mesmo ou caia na gargalhada.
Não fiz nem um e nem outro, fechei a tampa do freezer permaneci na cozinha até que Marcos voltasse.
— Hei. Rapaz. Por favor.- diz Marcos quando voltou.— Diga que isso são cabeças ficticias.
— Lamento doutor. São mais reais do que parece.- falei. Afinal vai encarar?
— Prefiro encarar. Afinal é meu trabalho.- diz Marcos voltando a abrir o freezer.
— Já devia estar acostumado doutor.
— Acostumado estou. Mas geralmente pego casos de cabeça decepada uma ou nenhuma vez por ano. Em todos esses anos de médico legista apenas três vezes. Agora em um único dia. Aqui deve ter de boa, mais de quarta cabeças.
— Se não gostou do que viu aqui, melhor não pisar no galpão dos fundos. A situação tá crítica.
— Tome detetive.- fala Marcos me passando um par de luvas.— Me botou nessa, agora me ajude, por gentileza, agora de detetive, lhe promovi a assistente do médico legista.
— Com todo o prazer doutor. Mas não foi minha culpa, se preferiu a medicina criminal ao em vês da convencional.
— Não estou lhe culpando por nada detetive, além do mais, você não sabe por qual motivo escolhi essa função.
— Não fasso ideia doutor. Essa seria uma boa hora para ficar sabendo.
— É uma longa história detetive. Acho que não vai gostar.
— Achei que assim poderia entender um pouco mais sobre a vida do meu médico legista doutor.
— Pensou errado detetive. E não respondeu minha pergunta.
— A sim, sua pergunta. Claro que gostaria de ouvir. Sou todo ouvido.- falei abrindo uma embalagem para que Marcos coloca-se a primeira cabeça retirada do freezer.
— Se isso serve como conforto detetive. O senhor pretendia exercer outra profissão a não ser a de policial?
— Não. Isso já vem de família. Porque pergunta doutor?
— Eu queria ser. Meu pai era Militar, cresci dentro de uma organização militar do exército, quando completei dezesseis anos, sofri um acidente, estava voltando da escola quando um carro me atropelou, como resultado quebrei as duas pernas e um braço.- Marcos faz uma pausa para colocar outra cabeça na embalagem.— Como resultado meu braço ficou bom, mas em minhas pernas tenho duas antes de titânio que saem do joelho até o tornozelo. Fazer o que um policial faz, para mim é impossível.
— Doutor. Não sei se percebe, não tenho onde colocar essas cabeça. Meus saquinhos acabaram.
— É uma caminhada de menos de um minuto detetive. Pegue mais em minha viatura e já leve estas duas.- indica as duas cabeças já embaladas.
— Quer que eu caminhe até a viatura para levar?
— Não temos como trazer a caixa até aqui, ela não passa na porta da frente.
Joguei as duas cabeças novamente no freezer e sai porta a fora. No caminho levei comigo Renan que caminhava no sentido contrário.
— Espera aí caramba. Onde estamos indo?
— Me ajuda levar essa merda para dentro da casa- falei puxando para fora uma das caixas do baú.
— Porque não levamos está que já está no chão?- pergunta Renan.
— Não está aqui é melhor, é mais pequena.
Joguei a maleta de Marcos dentro da caixa e levamos a caixa para dentro, passamos com dificuldade pela porta. Mas passamos.
— Trouxe um ajudante detetive, ótimo! Dentro de minha maleta tenho um malote de sacos de provas. Eu examino a maleta e encontrei
— Eric empacota e Renan as etiquetas.
— Nem pensar, não vou colocar minhas mãos nessas coisas. Não. Não. De jeito nenhum.- reclama Renan.
— Você é um cervo? Ou um policial?- indagui.
— O que quer dizer com, “ Você é um cervo”?- me questiona Renan fazendo cara de mal.
— Nada, só estou supondo que você não é um animal para ter medo de outro animal da mesma espécie.- falei estendendo o braço para entregar um das cabeças para Renan.
Renan faz um gesto com a cabeça e se abaixa até a maleta para apanhar um par de luvas.— Que seja a primeira e a última vez que faso isso.- fala Renan em quanto se levantava.
— Vá em frente, divirta-se.- falei em tom de zueira. Ainda com o braço estendido.
— Você está muito engraçado hoje em detetive Eric Chiuto, me aguarde, isso vai ter volta.- fala Renan em tom de ameaça dando um clique na caneta.
— Isso foi uma ameaça!- falei avançando um passo para cima de Renan que recua dois para trás.
— Ameaça! Pareço ameaçador para você?
— Já enfrentei coisas maiores que você delegado, devo dizer que para mim, você parece um rato. Ou um cervo.
— Não precisava ofender tanto assim. Mas me considero não um rato muito menos um cervo, mas sim um diabo da Tasmânia.- fala Renan soltando a primeira cabeça dentro da caixa.
— Sabia que diabos da Tasmânia se alimentam de carniça?- pergunta Marcos olhando diretamente para Renan.
— Bom apetite!- falo entregando outro saco de cabeça para Renan.
Renan apanha o saco e se espanta fazendo uma cara de nojo.— Não, muito obrigado, nem que fosse a última comida do mundo comeria carne humana.
Levamos quase uma hora para ensacar e etiquetar todos as quarenta cabeças do interior do Friezer. Quando saímos para fora da casa demos de cara com viaturas do batalhão de polícia CP. Já tinha visto falar desta instituição policial. Eram policiais dedicados ao treinamento de cães, embora seja um batalhão restrito ao governo de Minas Gerais já teve participação em três estados brasileiro a mais recente foi no estado de São Paulo, em uma operação de pacificação conjunta com a Rota na favela Paraisópolis. Além de drogas os cães farejadores encontraram também sete corpos enterrados em uma área de mata próxima a favela.
— Qual de Vocês é o investigador chefe da operação? - pergunta um policial da CP enquanto colocavamos a caixa na viatura do IML.
— Eu mesmo. Me chamo Eric Chiuto, mas pode me chamar de Chiuto.- me apresento em seguida.
— Chiuto. - começa o policial — Me chamo Luiz, encarregado da operação intitulada pelo S.I.B de Farro, eu e meu batalhão fomos designados pelo serviço de inteligência para varrermos a área de mata em busca de corpos.- termina Luiz afagando um cão Pastor Alemão ao seu lado.
— Como queira.- disparei levando a mãos ao cão que ofegava com quase um palmo de língua para fora da boca. Fiz um leve afago na cabeça do animal que retribuí o meu gesto com um balançar de calda.
— Por onde quer quer que começamos?- pergunta Luiz colocando a palma da mão sobre o focinho do cão.
— Por onde vocês acharem melhor. Quer dizer que acham que temos corpos enterrados nesta mata?
— Ainda não sabemos senhor. Trouxe comigo algumas vestes de pessoas desaparecidas, se tivermos sorte, Roscoe os encontrará.
— Porque se tiverem sorte?- pergunta Renan também afagando entre as orelhas do Pastor Alemã.
— Por três motivos.- começa Luiz levando novamente a mão sobre o nariz do cão e depois lhe dando um petisco. — Se as vítimas que estivermos procurando já estiverem em estado de composição será mais difícil para Roscoe localizar pelos odores das peças de roupas. Mas em contar partida Roscoe os encontrará pelo odor. Segundo, Roscoe está com uma certa idade, o que dificulta seu faro a uma certa profundidade. E terceiro, se ficarem tocando nele poderiam confundir seu faro e fazer com que não obedeça aos meus comandos, então se me derem licença, tenho trabalho a fazer. - termina Luiz levando o cão puxado por uma coleira.
— Eu persebi isso da primeira vez detetive. - comenta Marcos.
— Vocês brasileiros são cheio de nove horas. Nos Estados Unidos os cães são treinados de outra forma, se alguém que não seja o treinador do animal o tocar ele ataca.
— Aqui também detetive - fala Marcos me passando outro par de luvas.- O que aconteceu é que Roscoe já está se aposentando, em um ou dois anos, quando os cães atingem essa idade, eles precisam se aposentar, e muitos deles vão para o lar de alguma família civil. Então a polícia modifica o treinamento para que se tornem dóceis e baixem a guarda. - explica Marcos.
— Isso é diferente de onde venho, nos Estados Unidos os cães permanecem com seus adestradores até morrerem. Só então o policial pode adotar outro para o treinamento - falo puxando outra caixa prata do interior da viatura.
Nesse momento dois outros policiais passam por onde estávamos carregando também uma das caixas.
— Doutor.- se manifesta um dos policiais.— Temos apenas mais dois corpos no galpão.
— Porque não os carregaram?- questiona Marcos.
— Acreditamos que tenham morrido a pouco tempo.- explica o policial seguindo até outra viatura.
— Quando terminarem com esse podem levar outra caixa - fala Marcos indicando com o dedo para que nos o seguiremos.
Entramos no galpão. Os corpos aviam todos retirados e veados para as viaturas do IML, apenas restaram dois. Como imaginei um deles era o corpo do delegado Schneider e o outro havia sido deixado em um canto, sentado em uma cadeira de madeira este pertencia a uma mulher. A cabeça da moça loira ligeiramente inclinada para um dos lados sobre o ombro e seu cabelo comprido sobre o rosto.
Deixei Marcos examinando o corpo do delegado Schneider e indiquei o segundo corpo a Renan. A moça não estava totalmente nua, mas sim, semi-nua. Trajava um sutiã Roza avermelhado e uma peça íntima inferior azul violeta com mancha de sangue entre as pernas Ao chegaremos mais próximo a moça, eu e Renan percebemos ao mesmo tempo que a moça poderia ainda estar viva, seus pulsos não estava cortados, mas estavam amarrados ao peitoril da cadeira. Me agachei em frente a ela e com o dedo indicador afastei uma mecha de cabelo de seu rosto, o qual estava muito machucado com escoriações e hematomas, seus tornozelos assim como seus pulsos estavam amarrados e a corda deixará marca, uma espécie de queimadura o que indicava que estava ali a um bom tempo e tentou em vão diversas vezes se libertar, ou estava sendo torturada, em seguida levei o dedo indicados e o médio ao seu pescoço. Seus batimentos eram lentos e fracos, confesso que tive que levar minha concentração ao estremos para sentir.
Assim que constatei que a mulher tinha vida tratei logo de desamarra-la, colocando a deitada no chão, chamei Marcos e alguns polícia que tiravam fotos de diversos ângulos próximo dali.
Assim que Marcos se juntou a nós, percebendo que a mulher ainda se encontrava com vida, lamentou que não tivessem uma ambulância pra que fosse transferida com mais agilidade para o pronto socorro. Foi aí que lembrei dos dois helicópteros que nos deram apoio no começo da operação, não deviam estar muito longe dali.
— Renan. Chame os helicóptero, ela será transportada de helicóptero até Belo Horizonte. Não podemos perde lá ela se tornou uma testemunha - falei.
Renan chama os pilotos pelo rádio. Ouço um dos pilotos responder o chamado enquanto checava novamento os sinais vitais da mulher.
— Precisamos de um dos helicópteros aqui imediatamente, temos uma vítima ainda com vida- fala Renan.
— Os batimentos estão menos do que da primeira vês, ao que parece podemos estar perdendo a. - exclamei me preparando para iniciar uma massagem cardíaca. Foi quando Marcos me conteve.
— Detetive! Não sabemos se a vítima possui fraturas ou lesões internas na caixa toraxica.
— Sei disso doutor, mas não posso me arriscar em perder uma testemunha.- reclamei me jogando para cima da moça.
— Os helicópteros chegaram em dois minutos - diz Renan se ajoelhando ao meu lado.
Depois de minutos que pra mim pareceram horas de uma massagem cardíaca incessante, meus braços pareciam gelatina. Foi quando Renan me empurrou para o lado e tomou a frente da reanimação.
Cai de costas ao lado da moça sobre uma poça de sangue gelado e pegajoso, fechava a abria os dedos das mãos para tentar aliviar o formigamento lutando para manter meus olhos abertos. Vi quando outros dois policiais se juntaram a nós trazendo uma maca improvisada que parecia ser feita com filetes de madeira.
— O resgate pousou, vamos levá-la. - diz um dos policiais.
Nessa altura não conseguia nem mesmo difundir de qual equipe era os policiais que se reuniam ao nosso redor. Vi ainda quando Renan saiu de cima da mulher e ela foi virada de lado para a maca ser colocada embaixo de suas costas. Daí por diante lembro apenas de também ser carregado por sei la quem, para fora do galpão. Senti o sol escaldante tocar meu rosto já do lado de fora da instalação, então minha visão se foi como um apagar de luzes e um som alto de hélices cortando o ar permaneceu em minha cabeça por alguns segundos até isso também sumir com um estampido que parecia ser uma explosão.
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Atualizado até capítulo 41
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