Futebol

À medida que eu seguia Mariana e Renato, meu coração se apertava cada vez mais ao perceber o quão próximo estava do Lucca. Ele era apenas uma criança, inocente e vulnerável, e não merecia estar envolvido nas circunstâncias perigosas que cercavam sua família. Ele tinha uma energia contagiante e um sorriso que iluminava qualquer ambiente sombrio em que nos encontrávamos.

Às vezes, durante minhas vigílias noturnas, eu o via brincando no quintal ou simplesmente observando as estrelas, perdido em seus próprios pensamentos infantis. Outras vezes, nos encontrávamos por acaso na rua - acasos que eu criava, obviamente - e trocávamos algumas palavras, sempre breves, mas suficientes para criar um vínculo silencioso entre nós.

Embora eu tentasse manter uma distância emocional, era impossível não me sentir ligado a ele. Afinal, ele era meu sangue, meu sobrinho, e eu não podia ignorar o vínculo que compartilhávamos. Eu me pegava torcendo por sua segurança, desejando protegê-lo de qualquer perigo que pudesse surgir em seu caminho. Afinal, ele era meu sobrinho, sangue do meu sangue e eu não podia deixar de me apegar a ele. Além disso, eu conhecia muito bem aquela família e sabia que ele podia estar em perigo.

Certo dia, enquanto fazia uma de minhas caminhadas oportunas em frente a escola dele, eu vi ele sentado em um canto, triste e isolado.

- E aí campeão?

- Oi, Lorenzo. O que faz aqui?

- Exercícios.

- Legal.

- E você? Por que não está brincando com os outros?

- Não me sinto muito bem hoje. - ele respondeu, com a voz baixa e os olhos cheios de tristeza.

Senti um aperto no coração ao vê-lo assim, tão vulnerável e desanimado. Sem hesitar, me sentei ao seu lado e coloquei uma mão reconfortante em seu ombro.

- Algum problema, Lucca? Você pode me contar, estou aqui para ajudar.

Ele suspirou profundamente antes de responder, suas palavras saindo em um sussurro hesitante.

- É que... minha mãe e meu pai... eles estão brigando muito ultimamente. Eles acham que eu não percebo, mas eu ouço tudo. E... eu não sei o que fazer e parece que a culpa é minha.

Seu desabafo me atingiu em cheio, despertando uma mistura de compaixão e indignação. Como era possível que Mariana e Renato permitissem que suas disputas afetassem tanto o bem-estar emocional de Lucca? Se bem que se tratando do Renato, eu não duvidava, embora esperasse que ele fosse diferente com o filho.

- Eu entendo, Lucca, e sinto muito. São coisas de adultos, sabe? E a culpa não é tua, está bem? Se precisar de qualquer coisa, pode contar comigo, está bem?

Ele olhou para mim, os olhos brilhando com gratidão e alívio.

- Obrigado, Lorenzo.

Eu sorri, sentindo um nó se desfazer em meu peito ao ver o semblante dele se iluminar um pouco.

Enquanto observava Lucca voltar para a escola com um pouco mais de leveza em seu passo, prometi a mim mesmo que faria tudo ao meu alcance para protegê-lo e garantir que ele nunca perdesse essa inocência.

- Lorenzo? - gritou ele, fazendo-me dar meia volta para olhar para ele. - Vou jogar sábado, não é um grande jogo, mas se der e você não tiver nada melhor para fazer e quiser ir me ver, bom ver o jogo... Vai ser no campo lá do parquinho. Tchau.

Ele nem esperou eu responder se ia ou não e voltou correndo para a escola.

- Tchau.

Era óbvio que eu não tinha me esquecido dos outros, embora o Lucca estivesse me distraindo bastante. Mas eu mantinha uma vigilância constante em cada um dos nomes da minha lista. Renato tinha uma vida resumida a passar o dia no hospital e quando tinha alguma emergência, a noite também. Ele podia ser uma pessoa horrível, mas era um excelente profissional. Quando ele saia do hospital, algumas vezes passava em um bar, outras ia direto para a casa. Não seria difícil pegar ele.

Adalberto, o pastor, celebrava os cultos nas segundas, quartas e sábados. Dentro da igreja era um santo, se bem que a religião deles não tem santos, enfim. Mas, em casa era um verdadeiro demônio: batia na mulher e nos filhos, sem falar o que ele gostava de fazer com garotas de programa e garotos. E, se bem me lembro, ele gostava de ser bem metódico. Então, domingos casa de prostituição, terças encontros em motéis e quinta e sexta em casa, para o tormento da família. Durante o dia trabalha como um bom homem e temente a Deus em um banco, olha o pecado da usura!

Raul, coronel Torres, continuava o mesmo velho nojento, só que mais velho. Tinha uma rotina não muito elaborada: quartel durante o dia, caminhada ao final da tarde, alguns encontros com o meu pai e idas a casas de prostituição.

Mas, por hora, eu precisava me preparar para ir em um jogo de futebol. Precisava tomar cuidado, pois havia a chance do Renato estar lá e me reconhecer.

Ao chegar ao campo de futebol, observei atentamente os arredores, procurando por qualquer sinal de Renato. Felizmente, ele não parecia estar presente, o que me permitiu relaxar um pouco e aproveitar o jogo. Ver Lucca em ação, correndo pelo campo com um sorriso no rosto, trouxe um momento de alegria em meio à minha missão sombria.

No entanto, mesmo durante o jogo, eu permanecia vigilante, ciente de que meus inimigos podiam aparecer a qualquer momento. Eu não podia me dar ao luxo de baixar a guarda.

Enquanto o jogo chegava ao fim e Lucca se juntava aos outros jogadores para cumprimentar a torcida, eu permanecia à margem, observando atentamente. Lucas me viu e acenou para mim que retribui, mas percebi que ele estava chateado, olhei onde a mãe dele estava e a vi sozinha, Renato não tinha aparecido.

Ele abraçou a mãe, que tentou falar algo sobre a ausência do Renato. Eu me aproximei e ele olhou para mim todo empolgado.

- Você veio.

- Claro. Você me convidou.

- Você viu a goleada que eu fiz?

- Eu não só vi como registrei. - falei entregando meu celular com a gravação para ele.

- Legal. Você pegou o melhor ângulo. Pode enviar para a minha mãe?

Olhei para Mariana.

- Claro. Só passar o email ou outro contato.

Enquanto Lucca foi comprar um sorvete, Mariana passou o número do whatsapp dela para eu enviar o vídeo.

- Desculpa por ter vindo, é que...

- Está tudo bem. Agradeço que veio. O pai dele é muito ocupado, porém ele é criança e...

- Eu entendo.

Lucca voltou.

- Teu pai acabou de mandar mensagem, chamando para irmos tomar sorvete.

- Vamos junto, Lorenzo. - convidou-me ele.

- Desculpa campeão, mas tenho algumas coisas para fazer agora. Fica para uma próxima.

Ele me abraçou e saiu.

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Comments

Jhay_Focas

Jhay_Focas

Meu Deus, que horrível
E o pior é saber que isso existe de fato

2025-01-31

1

Hmy_Soldhine

Hmy_Soldhine

nem sempre,mas sempre a igreja

2025-01-31

1

Vicki Hungria

Vicki Hungria

Misericórdia pior que existe pessoas assim

2025-01-31

1

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1 ...
2 Renascimento
3 Nova chance
4 Vida nova
5 Londres
6 Retorno
7 Lista
8 Mudança de planos
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10 Tiramisu
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13 Listas e desenhos
14 Reencontro
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16 Retribuindo escolhas
17 Culpa
18 Acerto
19 Pedacinho do céu
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21 Sr. Dom
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38 Justiça
39 Punição
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44 Atormentado
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46 Sem volta
47 Encontro fatal
48 Confrontos
49 Dor e cura
50 Trégua
51 Marcas e tatuagens
52 Estranha normalidade
53 Segredos
54 Risos
55 Eis a questão...
56 Caminhando sobre cacos
57 Simplicidade
58 Aproximação
59 Zona de desconforto
60 Fúria
61 Cinzas e pó
62 Cumplicidade e cuidado
63 Pendências familiares
64 Tempestade monstruosa
65 Mercado
66 Nostalgia e intensidade
67 Despertar
68 Prisão e liberdade
69 I'm the torment!
70 Devaneios
71 Jogos
72 Escolhas macabras
73 Menos que pedaços...
74 Estranha sensação
75 Entre a recuperação e recuperar a ação
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77 Isso não vai terminar bem...
78 Caos
79 Outra saída
80 Talvez...
81 Chamada
82 Simples e direto
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86 Justiça sangramenta
87 Penumbra
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89 Convicção
90 Invisível
91 Incansável
92 Ciclo sem fim
93 Xadrez
94 O último nome
95 O juíz
96 O tiro
97 Sangue e frio
98 Amanhecer
99 Retornando ao caos
100 Feridas
101 Despedida
102 Acerto final
103 Encerrando um capítulo...
104 A carta
105 Seguindo em frente
106 Respiro
107 Bahamas
108 Tragédia
109 Luto e dor
110 Buscando um recomeço... mais uma vez
111 Beatrice
112 Uma mesma dor
113 Sobreviventes
114 Felicidade, enfim!
115 Agradecimento
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Atualizado até capítulo 115

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