...Benjamin...
A loira parou bem na minha frente. Eu estava completamente encharcado e muito confuso. Por que ela estava ali, olhando para o seu rosto tão lindo, enquanto a chuva forte nos molhava? Me sentia hipnotizado pelos seus olhos.
— Me desculpe, eu não vi o buraco. Você está encharcado? — ela perguntou, rompendo o silêncio. Ainda não compreendia o que a garota intocável estava fazendo ali, no meio da chuva, com olhar tão preocupado.
— Foi um acidente — falei sabendo que ela não tinha feito aquilo de propósito e ela fez que sim com a cabeça.
— Mas você está bem? Olha só a sua mochila — ela falou, preocupada. Foi então que percebi que minha mochila estava ainda mais molhada que eu. Nela, levava os livros da universidade. Espero que não tenham estragado. Maldito universo, sempre arruinando minha vida. — Isso é tudo culpa minha. Pra onde você está indo? — ela perguntou, olhando para os lados, percebendo que não havia ponto de ônibus ou metrô por perto.
— Estou indo para casa. Foi apenas um acidente. O universo parece me adorar — respondi.
— Onde você mora? Posso te dar uma carona — ela falou toda simpática, nem parecia a moça de cara fechada e estava nítido que ela estava tentando se redimir de alguma forma, mas até parece que era uma oferta de verdade sei nem como são as pessoas como ela.
— Olha, princesa, muito obrigado, mas não precisa...— antes mesmo de terminar de falar ela me interrompeu.
— Primeiro, não me chame de princesa. E segundo, não seja orgulhoso. Está chovendo muito — ela falou, já toda molhada. Sua blusa branca já estava transparente, mostrando o sutiã de renda branco. Fiz o possível para não olhar para o corpo dela.
— Desculpe, mas você com certeza nem conhece a Vila Lene...
— Você mora na Vila Lene? — ela perguntou, revelando que conhecia o lugar. Agora ela fica ainda mais intrigante.
— Sim, você já foi muito gentil vindo até aqui, mas não precisa ir até aquelas bandas por minha causa...— comecei a falar.
— Que bom, porque eu não vou... — ela começou a dizer. Sabia. E não a julgo, afinal, é um bairro com a fama de ser perigoso.
— Tchau — disse dando o primeiro passo.
Porém, ela me segurou, me fazendo voltar e olhar nos olhos dela. Como um olhar pode ser tão poderoso?
— Eu não vou por sua causa. Eu moro lá também. Vem, antes que você pegue uma pneumonia — ela falou
Tenho certeza de que ela está mentindo, mas eu estou morto de cansaço e não precisar andar até em casa seria bom.
— Ok, só porque é caminho — respondi.
Olhei para o meu estado e ela abriu a porta de trás. Vi que ela não estava sozinha; na verdade, o Carlos estava lá, ele estuda na minha turmas também, e tinha mais duas garotas. Claro, o tal quarteto.
— Carlos, abra a mala, por favor — ela pediu.
Só então notei que ela estava removendo a cadeirinha. A ajudei, não sei porque o fato dela ter uma cadeirinha no carro fez eu procurar uma aliança em seu dedo, mas não havia nada.
— Você tem certeza? Seus amigos não vão se importar? — perguntei, envergonhado. Afinal, ela está fazendo isso por pena.
Ela olhou para mim e sorriu
— Relaxa, ninguém morde.
Fomos até o porta mala e ela me entregando uma toalha de princesa
— Irônico, né? — falei por nós dois estamos com toalhas de princesas.
Ela colocou minha mochila lá e fechou a mala. Corri para o carro e abri a porta de trás, mas o Carlos já estava sentado com as duas garotas.
— Não nos leve a mal, mas vocês dois já estão parecendo dois pintos molhados. É melhor irem na frente — a garota preta de cabelos cacheados, parecida com o Carlos, falou.
— Se tiver problema...
— Entra logo, por favor. E vocês três, acho melhor pararem, senão vocês serão os pintos molhados — ela falou, enxugando os cabelos ao abrir a porta do carro, mas colocando a mão para impedir que eu saísse do banco. — Sem frescura, só entra — ela falou e eu obedeci.
— Belo sutiã — o Carlos falou, e acho que só agora ela notou o estado da blusa, pois corou.
E ela fica tão linda assim com vergonha.
— Carlos, você está pedindo para ir andando até em casa — a garota que falou antes interrompeu novamente. — E que mal educada estou sendo. Eu sou a Clarisse — ela falou e só aí notei que não sei o nome da loira ao meu lado, que começou a dirigir.
Olhei para ela que ainda estava vermelha.
— Hoje estou num poço de educação, eu sou a Ana Laura — ela falou, olhando para frente, e acabei rindo. Não sei, parecia uma pessoa tão séria, mas em cinco minutos já não sei mais o que pensar.
— Eu também estou neste poço... — falei mais ligo fui interrompido.
— Você é Benjamin, nós pegamos algumas matérias juntos — o Carlos falou.
— Isso, você é o Carlos — respondi e ele assentiu.
— E eu sou a Daniela — a garota sentada ao lado dele falou.
— AnaLu, conseguiu terminar o que o seu chefe pediu? — o Carlos perguntou.
Eles pareciam ser bem próximos mesmo e pela cara que a Ana fez eu não entendi direito se isso era bom ou ruim.
— Não fale nele, por favor. E sim, consegui — ela respondeu.
Olhei para o carro dela, que custava mais do que eu ganharia em toda a minha vida, mas pelo visto não sou o único com um chefe ruim.
Para ser bem honesto, achei que ela era uma filhinha de papai mimada que nem trabalhasse.
— Olha o lado possitivo está noite você vai conseguir dormir — Carlos falou e ela revirou os olhos.
— Eu queria muito ir comprar umas coisinhas amanhã, no shopping. O que você acha, AnaLu? — a Daniela falou.
— Que você está louca. Sexta-feira, perto do dia das crianças — respondi.
Não gosto nem de lembrar dessa data, afinal a minha princesa quer muito uma boneca. E mesmo que eu quisesse muito, não posso dar. Odeio me sentir assim.
— Esqueci, mas eu preciso de uma roupa para um encontro...
— Amiga, com toda certeza do mundo, você tem roupas no guarda-roupa — fiquei a observando, sem entender nada. Ela aparentemente é bem de vida.
— Benjamin, você que é homem, me responda. Vocês notam a roupa que a mulher está vestindo? — a Daniela perguntou.
Fiquei calado por um tempo. Ainda não tinha entendido como eu vim parar nesse carro e como me envolvi nessa conversa.
— Não precisa responder — Ana Laura falou para mim. — E desculpa pelos meus amigos. E o banho, com toda certeza, está estragando o seu dia — ela falou, olhando para frente. E, para ser sincero, estar aqui com ela tem sido a melhor parte do meu dia.
— Não precisa se desculpar. Eu tenho que agradecer pela carona. Daniela, acho que não sou o homem que pode te ajudar com isso...
— Você é gay? — ela perguntou com um sorriso no rosto. Mas ou eu estou achando demais ou a cara da Ana Laura mudou.
— Não, eu não sou gay. Só sou meio desligado para certas coisas. Minha mãe sempre me ensinou que roupas são uma questão de se sentir bem, e acho que você não deveria se vestir pensando nele.
Quando eu falei, a Ana Laura olhou para mim e sussurrou algo, sorrindo. E que sorriso lindo ela tem.
Para Benjamin, ela é linda, mas também é muita areia para o seu caminhão, e fora que agora eu tenho dois filhos, não posso me dar ao luxo de me apaixonar ainda mais por uma garota de um universo tão diferente do meu.
— Obrigada, eu falo isso para ela desde sempre — ela falou e voltou a dirigir.
— Mas é a verdade, se você se sente linda com um saco de batata, nenhum homem pode te diminuir.
— Por favor, Benjamin, coloca juízo na cabeça da Daniela — a Ana Laura falou e a chuva estava diminuindo.
— Ana Laura, se quiser me deixar aqui já está bom, já me ajudou muito — falei para ela quando vi que ela estava na entrada do meu bairro.
Mesmo estando chovendo ainda eu não queria trazer mais transtorno para a vida dela, já me trouxe aqui e é um bairro um pouco afastado da zona Sul.
— Eu disse que ia te deixar em casa e não em uma esquina qualquer, fora que ainda está chovendo — ela falou e olhou para mim, e que olhos bonitos ela tem — Para onde vamos agora, lado direito ou esquerdo? — ela perguntou.
Eu ainda estou besta, porque ela está fazendo tudo isso, ok ela me molhou, mas se fosse outra pessoa simplesmente teria seguido a sua vida, mas ela é diferente e tem um olhar tão profundo.
— Na esquina passando pelo restaurante do seu Genaro, à esquerda — falei e ela fez isso — Agora na terceira rua à direita — falei e sinceramente não tenho vergonha de onde moro, nem nada do tipo, mas não queria que ela me olhasse com pena ou algo do tipo, não suporto o olhar de pena.
— Qual é a casa? — ela perguntou quando entramos em uma rua apertada que mal passa dois carros.
As casas são bem simples nos aproximamos da fachada desgastada da casa da dona Lindalva. Minha atenção foi imediatamente direcionada para a cerca alta de ferro que circundava a propriedade. A solidez das barras de metal, enferrujadas em alguns pontos, na lateral da casa, um antigo portão de ferro que dava acesso ao meu cantinho, a minha pequena kitnet que duvido com os meus filhos.
— No 410 — falei e ela parou o carro na frente da casa da dona Lindalva.
— Entregue — ela falou com um sorriso lindo, que iluminava aquela noite chuvosa.
— Muito obrigado — falei e ela colocou a toalha na cabeça e abriu a porta e fiz o mesmo — Você não deveria descer aqui, é perigoso...
— Relaxa e não precisa agradecer, eu quem te peço desculpas novamente — ela falou saindo do carro e ignorando que falei que era perigoso.
— Foi só água e você já fez muito. — falei indo com ela até o porta mala.
— Olha, se estragou alguma coisa, eu faço questão de pagar — ela falou abrindo a mala e peguei a minha bolsa. E ela começou a mexer na própria bolsa, e tirou um cartão e me entregou — Qualquer coisa, me liga — ficou encarando o cartão em sua mão.
Sabe quando só coisas ruins estão acontecendo na sua vida, e você tem medo que venha mais merda? É assim que estou me sentindo.
— Obrigado — falei e fui pegar o cartão quando nossos dedos se tocaram e um choque invadiu o meu corpo. Olhei nos seus olhos e ela soltou o cartão, nos afastando.
— Tenho que ir, preciso levar eles também — ela falou fechando a mala do carro.
— Obrigado — falei novamente, na verdade eu estou tão confuso.
Ela entrou no carro e olhou para mim esperando eu entrar e assim que abrir o portão dei tchau para ela, que sorriu lingando o carro. Vi o carro sumir na rua e queria entender como esse furacão chamado Ana Laura conseguiu mexer comigo desta maneira em menos de 30 minutos.
Fui entrando, fui direto para o fundo e entrei no meu quartinho. Tomei um banho e me vesti antes de pegar os meus dois filhos e os coloquei na cama de casal onde dormimos nós três e peguei o cartão dela.
— Ana Laura, quem é você? — Perguntei para o cartão.
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^^^Continua...^^^
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Atualizado até capítulo 109
Comments
Telma Souza
não entendi essa da menina preta e cabelo cacheados? Qual foi o motivo de ter responsabilidade referido a menina assim?
2024-04-22
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Luíza Victoria
não acredito que o Carlos falou isso
2023-10-23
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