...Benjamin...
Passei a noite toda estudando hoje, tem prova e não tive muito tempo durante o dia além de trabalhar. Ontem o Gael estava com febre por causa dos seus primeiros dentinhos. Já faz seis meses que sou responsável pelos dois, e sinceramente, eles são meu tudo. Mas não vou mentir que as coisas estão maravilhosas. Na verdade, as coisas estão cada vez piores na questão financeira. Meu salário não está dando para quase nada, e não consegui vaga na creche para o Gael. Por conta disso, ele passa o dia com a Lindalva, que cuida dos dois sempre que eu preciso. Ela é um anjo na minha vida, sem ela eu não conseguiria.
— Papai — saí dos meus pensamentos com a Larissa me chamando. Depois que a coloquei na creche, ela começou a me chamar assim. No começo, eu tentei convencê-la do contrário, mas não teve jeito. Ela só me chama assim, e agora até gosto, afinal, é isso que eu sou: o pai deles.
— Oi princesa — falei pegando ela no colo.
— Hoje tem creche, papai? — ela perguntou.
— Tem sim, vamos tomar um banho, eu não posso me atrasar para o trabalho — falei para ela e a levei para o banheiro.
Dei banho nela, coloquei a fralda e depois uma roupinha, e penteei o cabelo dela. Não fiz nenhum penteado, porque não sei, sou péssimo com essas coisas. Notei que as roupas estão ficando apertadas, as crianças crescem muito rápido, nunca vi.
— Papai, você vai para a escola hoje? — ela perguntou, querendo saber se vou para a universidade.
— Sim, minha princesa, eu vou. Tenho que me formar para conseguir um trabalho melhor e dar um futuro melhor para vocês dois. Então, não me espere hoje, combinado? Você vai obedecer a vovó Lindinha — falei, pois é assim que ela chamava a dona Lindalva.
— Combinado — dei a mamadeira para ela. Sei que ela já tem quase três anos e já deveria ter tirado as fraldas, a mamadeira e o bico, mas tenho pena de vê-la chorando, então acabo cedendo. Peguei o Gael ainda dormindo e dei a mamadeira para ele antes de sair, sem tomar café, porque já estava tarde.
— Ele dormiu bem? — a Lindalva falou, pegando-o do meu colo.
— Não muito, os dentinhos estão nascendo, mas qualquer coisa você me liga que dou um jeitinho. Tenho prova, então não vou conseguir voltar antes...
— Tudo bem, filho. A Mariana vai me ajudar na creche e o Manoel também. E você tem que estudar, vai dar tudo certo — ela falou sorrindo, e não sei o que seria da minha vida sem ela.
— Obrigado — peguei a Larissa no colo, ajeitei a bolsa dela e a minha mochila, e saí o mais rápido possível. Deixei minha filha na creche.
Corre ainda esta semana eu tive que escolher: ou comprava o leite ou as passagens de ônibus. Bom, não fica difícil saber o que eu escolhi, o leite do Gael é muito caro. Quando a Bia morreu, ele só tinha um mês de vida, e por conta disso ele ainda toma a fórmula, já que ele aceita muito os alimentos.
Mas fico muito preocupado porque se me atraso, eu não consigo ajudar a Helena, e ela também sempre me ajuda com as crianças, principalmente quando eu não sei o que fazer.
Cheguei no restaurante e já fui direto colocando o avental. Já são 6:48, e o horário de bater o ponto é às 7. Comecei a limpar o mais rápido possível para, quando a Helena chegasse, não tivesse tanta coisa.
— Bom dia, Ben. Você, como sempre, sendo um anjo. Eu trouxe o café, você comeu hoje? — ela perguntou, mas já sabe a resposta.
— Obrigado, Helena — falei, me encostando e pegando um pouco de café e um sanduíche que ela trouxe.
— Suas olheiras estão piores, não dormiu de novo? — ela perguntou.
— Semana de prova e os dentinhos do Gael estão nascendo, aí ele está enjoado — falei comendo.
— Você é um paizão, mas filho e o coração...
— Está bem, batendo constantemente — falei, e ela revirou os olhos.
— Você sabe do que eu estou falando. E você não está com ninguém depois da Alexandra...
— Eu não tenho tempo para nada disso, Helena. Eu tenho dois filhos, que são basicamente dois bebês, e a universidade. Uma namorada agora só iria piorar minha situação...
— O que iria me ajudar era se o meu dia tivesse 48 horas, para eu conseguir dormir pelo menos umas 6 horas por dia e ficar mais tempo com eles — falei para ela, respirando, e terminei de comer.
— Aí, filho, eu queria poder te ajudar mais do que só com um café, mas...
— Não tem problema nenhum, Helena. Eles são minha responsabilidade. Já basta que eu alugo a dona Lindalva e nem posso pagar nada para ela...
— A Lindalva tem você como se fosse filho dela, ela jamais ia receber por ficar um pouco com os netos, enquanto o pai está lutando muito para sustentá-los — ela falou sorrindo. "Deixa eu ir começar, antes que a dona Silvania chegue mandando em tudo com aquele estresse de sempre", ela falou, e não tive como não revirar os olhos. Ela vive de mau humor, imagina se ela tivesse que lidar com o que muitos de nós passamos.
Comecei o meu trabalho e minhas mãos já estão doendo. Hoje é quinta-feira e não vejo a hora de chegar sábado para poder passar um dia com meus pequenos e relaxar um pouquinho. Dona Lindalva vai para um passeio aproveitando o feriado de segunda-feira, e estou precisando desse tempo para começar um trabalho da universidade.
— Benjamim - escutei alguém me chamando e quando olhei para trás vi seu Geremias, o gerente do restaurante.
— Sim, senhor — falei, limpando as mãos.
— A senhora Silvania quer falar com você — ele falou, e já estou com medo do que está por vir.
Ela está com raiva de mim por ter faltado ao trabalho na semana passada, mas eu precisava cuidar do Gael, ele estava com febre e tive que ficar com ele no hospital. O Gael tem otite frequente, e é uma coisa horrível, o coitadinho sofre tanto. Estamos na fila para fazer a cirurgia, mas ele só pode fazer quando tiver pelo menos um ano, e por causa disso acabo faltando no trabalho.
Fui até o escritório da dona Silvania e bati na porta antes de abrir.
- Com licença, a senhora me chamou, dona Silvania? - Perguntei a ela.
- Sim, entre - ela falou. - Não gosto de rodeios, sei que você é um bom funcionário, trabalho aqui há quatro anos e sei que agora as coisas estão difíceis para você. Você tem dois filhos, mas você sabe que não suporto que tragam problemas pessoais para o trabalho. Você já falou que seu filho tem problemas e precisa fazer uma cirurgia, mas do jeito que as coisas estão não está dando certo...
- Por favor, senhora, eu preciso desse trabalho. Por favor, eu sempre dou um jeito de pagar minhas faltas, mas eu tenho dois filhos e sou pai solteiro...
- Sua vida particular não me diz respeito...
- Por favor, me dê mais uma oportunidade, por favor, senhora. Eu faço hora extra, mas não posso perder este emprego - nunca fui de me humilhar por nada, mas como vou comprar os remédios do Gael, o leite deles, as fraldas... Se fosse só por mim, eu não faria isso, mas eles precisam de mim.
- Só porque estou de bom humor hoje, vamos fazer assim: vai ter um evento na Toytoy's no sábado. É uma festa de Dia das Crianças, e você vai ser um dos garçons...
- Este sábado, agora? - perguntei a ela.
- Sim, e vou deixar claro: se você não for, não precisa mais voltar para trabalhar - ela falou e mandou eu sair. Voltei para a cozinha e continuei o meu trabalho.
Não sei como vou fazer. Se eu não for, vou perder o emprego, mas com quem vou deixar as crianças se a Lindalva não vai estar aqui no sábado? E não posso pedir para ela ficar, porque ela não sai para se divertir desde que eles chegaram à minha casa. Não sei o que fazer.
- Ben - Helena falou se aproximando de mim - Não me diga que ela te demitiu? Aquela mulher não tem coração - ela falou pegando um pano para enxugar os pratos.
- Ela ainda não me demitiu, mas se eu não for para um evento na Toytoy's trabalhar como garçom, ela vai demitir. Só que não tenho com quem deixar as crianças - falei pensativo.
- Não diga que fica com eles porque eu também tenho que ir. Ela quer que eu vá, todo ano fico responsável pela organização da cozinha. O bom é que o dono é uma boa pessoa e sempre levo meus netos, sem a Silvania saber, é claro. Eles amam e sempre ganham presente. O senhor Garcia nunca reclamou, ele sempre fala que a festa é para as crianças...
- Seus netos são grandes e brincam tranquilamente. Os meus são praticamente dois bebês, se a Silvania descobrir, ela me colocará na rua. Não sei nem o que fazer - falei para ela.
Fiquei um tempo em silêncio pensando no que fazer. Quando deu quatro horas, já tinha terminado tudo. Tomei um banho e me arrumei para ir para a universidade. Fui andando, já que a universidade fica longe. Quando ia de ônibus, tinha que pegar dois, mas não reclamo, pelo menos faço exercícios.
Cheguei na universidade às seis horas e fui para a praça de alimentação. Fui direto para a lanchonete da dona Lindalva, sorrindo quando vi meu bebê no colo do Manoel. Ele ajuda a Lindalva na lanchonete e mora perto de lá. Ele tem 16 anos e a irmã tem 18, e eles ajudam muito a dona Lindalva. O pai deles, o senhor José, sempre ajuda levando e buscando.
- Olha quem chegou, Gael - o Manoel falou, e o bebê esticou os bracinhos gordinhos para mim.
- Oi, meu amor, como você está? - Perguntei a ele.
- Ele está enjoadinho, mas não teve nada. Eu já vou para casa, a Lala está com a Mari... - a Lindalva falou.
- Ele parece melhor! E que brinquedinho é esse? - perguntei, notando que ele estava colocando um carrinho amarelo na boca.
- Foi uma moça, ela disse que ia ajudar com a dor dos dentinhos nascendo, e depois que ele começou a morder, ele parou de chorar - a Lindalva falou sorrindo.
- E quem é essa moça? - perguntei a ela.
- Não sei o nome dela. Ela sempre chega aqui umas 4 horas e fica fazendo alguma coisa no notebook. Ela é muito reservada. Desta vez, ela viu que eu estava sozinha e perguntou se podia pegar ele. E você sabe que ele não vai para qualquer um, mas ficou se jogando nos braços dela...
- Não gosto que estranhos fiquem com ele - era para ser um pensamento, mas acabei falando.
- Ela ficou com ele na minha frente. Ela só queria ajudar. Se ela aparecer de novo, eu pergunto o nome dela. É que ela é muito reservada, sempre chega aqui umas 4 horas e fica fazendo alguma coisa no notebook - ela falou e chamou o Gael. À noite, o Manoel e a Mariana ficam responsáveis pela lanchonete. Dei um último beijo na cabeça do Gael e entreguei ele para ela.
- Já tenho que ir. Vou tentar revisar a matéria antes da prova - falei, beijando o Gael novamente, e saí.
Fui para a biblioteca para pegar uns livros que vou precisar para amanhã. Não tenho condições de comprar essas coisas, então faço meus trabalhos aqui. Não tenho computador, então tento me virar como posso. Mesmo com minhas dificuldades, sou um aluno com uma média impecável.
Fui para a sala de aula e já encontrei o Fernando, que é um dos meus raros amigos.
— Está preparado para a prova? — ele perguntou.
— Espero que sim — falei, me sentando, não muito confiante.
— Cara, você tá acabando — o André falou, sentando ao nosso lado, constatando o óbvio.
— Obrigado por me dizer algo que o meu espelho fala todos os dias — falei, arrumando minha mesa. Sempre fui assim, arrumo minhas canetas na mesa, gosto de ter tudo em ordem, para me ajudar a me concentrar.
— Você precisa se divertir um pouquinho. Amanhã nós vamos a um barzinho, vai ter a galera... — o André começou, e mesmo eu querendo muito me distrair sei que não seria fácil e muito menos possível
- Não posso...
— Estou convidando, eu pago — ele falou sabendo que as minhas condições financeiras não são as melhores.
— Vamos, cara! Uma noite só. Você nunca sai — o Fernando falou.
— Não posso, vocês sabem...
— Isso é por causa da Alexandra ou dos meus filhos? — o Fernando perguntou.
— Verdade, você não saiu mais para se divertir depois dela...
— Eu não posso sair porque eu tenho dois bebês me esperando em casa. Eu sou pai agora, e da Alexandra eu quero distância eu já esquece dela — falei para eles, e o professor entrou na sala e eu agradeci mentalmente não sei porque as pessoas sempre me lembram dela.
A prova não estava tão complicada afinal de contas, eu me preparei muito para fazê-la e mesmo cansado eu consegui fazer a prova tranquilamente. Entreguei a prova e fiquei esperando pela segunda aula.
Fui para a minha outra sala e tinha um aviso na porta dizendo que a prova seria feita no bloco H, sala 28. Achei estranho pois o bloco H, eu nem sei quais são os cursos do bloco H, sempre fiquei no meu bloco que é o E. O bloco H fica um pouco longe, subi e quando cheguei lá, olhei pelo vidro da porta e vi que ainda tinham alunos fazendo provas, então fiquei esperando.
Uma garota parou do meu lado, mas era unicamente para olhar pelo vidro e eu nunca tinha visto ela na universidade durante os meus 9 períodos aqui. Ela estava com uma coturno preta, uma calça preta colada, uma blusa branca com uma jaqueta de couro preta. Os cabelos loiros com cachos apenas nas pontas soltos, mas o seu perfume preencheu o pequeno espaço em segundos, era um aroma tão doce. Ela se afastou poucos segundos depois e sentou no chão. Ela provavelmente nem me notou, estava mais concentrada em um papel. Com toda certeza, é uma garota mimada que quer ser a rebelde.
— Velho, que prova difícil foi aquela? — ouvi a voz do André e ele vinha se aproximando com o Fernando os dois com uma expressão chateada no rosto.
— E que loucura foi essa de nos mandarem para o bloco H? — perguntou o Fernando nitidamente aborrecido pela caminhada.
— Não sei também, não entendi nada — falei.
— Quais cursos são ministrados nesse bloco? — perguntou André, olhando a sua volta.
— Não faço a menor ideia — respondeu o Fernando.
— Administração, ciências contábeis e RH — a garota nos respondeu sem nem olhar para gente — Então, falem mais baixinho, o pessoal está fazendo prova — ela falou prestando atenção aos seus papéis.
— Desculpa, não sabíamos que ia te incomodar a nossa conversa — o André falou com um tom provocativo.
Ele não sabe a hora de ficar calado, mas ela não disse nada, apenas continuou fazendo o que estava fazendo.
— Então, vai para o bar? — ele perguntou, falando alto de propósito e achei uma palhaçada.
— Você não é surdo? O pessoal está fazendo prova, e não, eu não vou para lugar nenhum. Eu tenho muita coisa para estudar — falei e ele revirou os olhos.
O corredor perto da porta já estava cheio, mas aquela garota parada na frente da porta me chamou atenção de uma tal maneira que estou até agora olhando ela fazer não sei o que com os papéis. Nem prestei atenção no que o André e o Fernando falavam.
Um garoto que eu conheço, ele faz engenharia. Já fizemos algumas aulas juntas e ele se sentou ao lado dela e começou a conversar com ela.
— A baba está escorrendo — o Fernando falou rindo — Você está olhando para a intocável! — olhei para ele sem entender.
— Vai dizer que você nunca tinha visto ela? — o André perguntou.
— Ele nunca sai do nosso bloco não duvido nada que ele nunca tenha visto ela — o Fernando falou
— Só saia de cena. Ninguém é bom o suficiente para ela, nem como amigo, nem nada. Tirando o Carlos, só tem mais a Daniela, que faz direito, e a Clarissa, que faz medicina, são as únicas pessoas que ela conversa. Então, se você não é nenhuma destas pessoas, nem se aproxime — André falou, e como imaginei, ela deve ser uma filhinha do papai.
— Ainda não liberaram a sala? — a professora Fernanda perguntou.
— Ainda não — responderam.
— Vamos para a sala 29 — ela falou, entrando na sala, e logo entrei também.
A aula terminou às 22:15 e saí o mais rápido possível. Estava chovendo, então peguei o guarda-chuvas que carrego na mochila. A chuva só parecia que ia piorar, mas não tinha outro jeito, não vou morrer por me molhar um pouco. Já tinha andado três quadras quando parei para atravessar a rua e um carro passou por mim, me dando um banho. Era só o que faltava para deixar o meu dia ainda pior, e o vento foi tão gentil que na hora em que fui tentar tirar um pouco da água do rosto, o guarda-chuva voou.
O carro que me molhou parou no acostamento, a porta do motorista se abriu e não podia acreditar em quem era a motorista ou melhor, a motorista."
©©©©©©©©©©©
Continua......
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Atualizado até capítulo 109
Comments
Louca por magia
gente que sofrimento isso é que eu chamo de paizão
2023-11-08
2
amorlove
seu dia só piora
2023-10-19
0
amorlove
a moça da universidade a loira
2023-10-19
0