Miguel Navarro

Entro no apartamento dela, sinto seu cheiro em todo lugar.

Bianca tem o poder de transformar qualquer ambiente numa parte dela, deixando do seu jeito, dando vida e cor ao lugar. Foi assim no meu apartamento e em mim, ela transformou meus dias sombrios em dias iluminados, cheios de uma luz tão forte que perdi o controle, chegando a desejar que esses momentos juntos nunca acabassem.

Mas a realidade me bateu, não tenho o direito de ser feliz, não posso viver esses momentos ao lado de alguém que não seja ela, a mulher que tem meu coração e minha alma.

Perdidos numa batalha de olhares onde não precisa palavras.

Não precisa ser gênio para saber que Bianca me odeia, neste momento vejo a raiva e decepção nos seus olhos.

— Por que saio do apartamento? Pergunto.

— Bianca baixa a cabeça, respira e volta a olhar para mim.

— Não podia ficar mais lá, arrumei um trabalho e posso me sustentar sozinha.

Além do mais, você não tem obrigação. Também estava na hora de seguir minha vida. Responde seca.

— Dou um passo, me aproximo dela sem quebrar nosso contato visual.

— Toco seu rosto, sinto a maciez da sua pele na minha mão, um simples toque desperta meu corpo, desejo ardentemente possuí-la de todas as formas, fazê-la lembrar que é minha, que não se trata de obrigação, mas de querer dar a ela tudo, vê-la feliz ao chegar em casa, o cheiro de comida no ar, seu cheiro espalhado pelo quarto. Bianca tomou conta do meu ser de uma forma que passar uma semana longe dela, sinto-me vazio, sem vontade para nada, apenas voltar para casa, abraçá-la, sentir a luz que emana dela.

Mas eu precisava dessa distância.

Sou um canalha covarde por desejar para mim, sem importar que ela esteja à minha espera sorrindo, transformando um dia cansativo em algo leve com seus sorrisos e beijos.

Não lembro de ter reclamado de estar cuidando de você, digo ao pé do seu ouvido, ouço ela soltar um gemido.

Sinto ela se afastar de mim, deixando-me sem o calor do seu corpo.

— Olha, Miguel, agradeço por tudo que fez por mim, mas não quero isso para mim.

Não quero estar com alguém apenas por sexo, ser seu segredo, um brinquedo que use até enjoar e partir para o próximo, deixando-me sozinha, sem nada, apenas com a lembrança de momentos compartilhados entre quatro paredes.

Passei anos da minha vida vivendo assim.

A diferença do clube para agora é que sou exclusivamente sua, como uma boneca posta na prateleira, fadada para ser usada apenas para satisfazer seus desejos.

Cansei disso, não quero mais ser usada e descartada, quero alguém que goste de mim, não só do meu corpo, quero alguém para sonhar, ter uma família, viver momentos felizes e estar presente nos momentos tristes, lutar lado a lado para superar qualquer coisa, comemorar suas conquistas, apoiá-lo nas derrotas, e isso que quero, é isso que você não pode me dar. Cometi o erro de me apaixonar por você, de desejar viver todos meus sonhos com você.

Também sei que você não pode me dar o que quero, não tem lugar no seu coração para mim, ele já tem dona.

— Travo no lugar diante de seus desabafos, sua sinceridade me atinge.

— Bianca, eu... busco palavras para falar, mas elas não saem, não consigo pronunciar nada.

— Não precisa dizer nada, Miguel, eu sei que não sente o mesmo.

Fui burra o bastante para acreditar que um dia você pudesse me amar.

Afinal, quem assumiria uma garota de programa, não!

— Hei, seguro seu rosto entre minhas mãos, faço carinho nas suas bochechas, seco suas lágrimas com a ponta dos meus dedos.

— Nãoé nada disso, deixe de bobagem, você é a mulher mais linda e forte que conheço. A questão é que não a mereço, você trouxe luz para minha vida, antes de te encontrar naquele elevador vivi nas sombras, confesso.

— Eu sei, ouvi sem querer a conversa no jardim com sua mãe. Sei que não me prometeu nada, mesmo me dando tudo, mas não posso continuar assim, você foi meu anjo da guarda, meu anjo Miguel. Ela sorri em meio às lágrimas.

— Não... você não entende, eu não te mereço, sou um monstro. Matei a mulher da minha vida, confesso, sentindo meu coração acelerado, nunca confessei isso a ninguém.

— Por que está dizendo isso? Bianca pergunta, assustada com minha confissão.

— Porque é a verdade, sou um assassino, falo, sentindo espinhos presos na minha garganta.

Afasto-me de Bianca, sento no sofá, não consigo ficar de pé, meu corpo cederia ao peso da culpa que carrego há dois anos.

O nome dela era Cecília, nos conhecemos na faculdade, ambos cursando medicina.

Cecília era linda, parecia um anjo, sua beleza encantava a todos à sua volta, ela era uma princesa, minha princesa. Sua beleza destacava-se em qualquer lugar, vaidosa, sempre arrumada e maquiada, tinha uma vida saudável, praticava esportes, fazia academia, cuidava do corpo, amava cuidar do cabelo, louros como o sol.

Um dia, na aula, fizemos duplas, e a partir desse dia, viramos amigos, aos poucos a paixão foi surgindo. Começamos a namorar, fazíamos planos para casarmos depois da faculdade, mas tudo mudou. Passamos as festas de ano novo, eu com minha família e ela com a dela. Quando voltamos de férias, decidimos morar juntos, foram os dias mais felizes da minha vida, três anos de namoro, cada dia mais apaixonado.

Tudo estava perfeito, faltava pouco para terminar a faculdade, estávamos estagiando e mal nos víamos. Mesmo nas correrias da faculdade e dos estágios, dávamos um jeito de nos vermos e aproveitar cada minuto juntos.

Um dia, Cecília desmaiou, fiquei louco só de imaginar que ela estivesse doente, mas ela me tranquilizou, disse que não era nada, apenas o cansaço por não estar dormindo direito e comer pouco, para dar conta dos estágios e das provas finais.

Depois disso, comecei a ficar de olho nela, levava comida para ela e deixava que tirasse uma soneca de uma hora. Durante esse período, notei que ela estava sonolenta, muito cansada e vomitando, seus pais preocupados insistiram para que fosse examinada, depois de muita insistência, Cecília cedeu e foi.

Pensávamos que ela estava grávida, sorri como bobo imaginando ela grávida, uma dor rasga meu peito impedindo-me de respirar.

Fomos atendidos por um amigo da família, foram feitos vários exames. Ao receber o resultado, nosso mundo ruíu, recebemos o diagnóstico que não consigo falar a palavra, travada na minha língua, o gosto amargo desce pela minha garganta. Cecília não estava grávida, e sim com câncer, pronuncio as palavras que me machucam até hoje.

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