Miguel Navarro

Não... eu não gosto dessa vida, fui obrigada a ser quem sou hoje.

— Bianca fala quase sem voz, franzindo levemente a sobrancelha. Não entendo onde quer chegar.

Sinto um ela chutar minhas costelas.

O que você sabe da minha vida! Nada grita ela em meio ao choro.

Acha que me prostituo por prazer, me acha gananciosa! Não, Miguel, eu não sou.

— Quer saber porque bato no peito para falar meu trabalho? Escuto ela gritar.

Encaro ela esperando uma resposta.

— Meus pais morreram num acidente de carro, éramos só nós quatro... meus pais saíram para um jantar naquela noite dizendo que logo voltariam só que não voltaram.

Estava deitada quando ouvi a campainha tocar, corri pensando que era eles, que tinham esquecido as chaves.

Mas ao abrir a porta vi dois policiais!

Me dando a notícia de que meus pais tinham morrido num acidente de carro.

Não quis acreditar, eles prometearam voltar mas não foi assim.

— Vejo nos olhos da morena o quanto dói as lembranças. Ouço ela continuar.

Uma adolescente de quinze anos tive que lidar com todos os trâmites do reconhecimento dos corpos ao enterro.

Queria ter morrido com eles.

Lembro que fiz birra, não quis ir, odiava aqueles eventos, eram chatos, entediantes.

Naquela noite eles me deixaram ficar em casa, com a Luiza, ela tinha quatro anos.

Minha mãe fez eu prometer que cuidaria da minha irmã.

Eu jurei que cuidaria dela, pensei que seria apenas algumas horas.

Porém se passaram dez anos, continuo cumprindo minha promessa.

Dois dias depois da morte dos meus pais, o irmão do meu pai apareceu e disse que era nosso tio, que cuidaria de nós.

De início não acreditei. Então ele mostrou fotos deles juntos na adolescência, contou histórias deles.

Os primeiros meses foram passando, ele era legal, cuidou das coisas da casa da pensão da morte dos meus pais.

No começo tudo ia bem, uma vez no mês uma assistente social ia lá em casa saber como estávamos.

Nada tinha mudado, eu ia para a escola, Luiza para a creche, à noite eu cuidava dela.

Os meses foram passando, então muita coisa tinha mudado, os empregados foram demitidos, minha escola estava atrasada.

O homem bom e gentil começou a mostrar sua cara.

Quando fui perguntar o porquê das demissões e a falta de pagamento da minha escola, sua resposta era que não estava recebendo a pensão, que ele que estava nos sustentando.

Uma noite ele entrou no meu quarto e abusou de mim.

Tentei de tudo para que parasse, não adiantou nada, quanto mais gritava ou reagia, pior era.

Parei de ir à escola, de sair de casa.

Eu cuidava da casa, limpava e cuidava da minha irmã, à noite ele entrava no meu quarto. ela suspira

Não tinha para quem pedir socorro, ou ajuda, estava fadada a essa vida.

Então meu tio começou a levar homens para casa, eu era sua moeda de troca.

Os vizinhos, aqueles que me conheciam desde pequena, não fizeram nada, a assistente social notou algo estranho mas logo deixou pra lá.

Até que um dia um dos homens que meu tio levou para casa tentou entrar no quarto da Luiza, ouvi os gritos dela, corri e ataquei o homem, impedindo que o pior acontecesse.

Não me importava mais o que fizessem comigo, mas nunca deixaria que destruíssem a vida da minha irmã.

— Sem reação diante da revelação da mulher encolhida na cama, a dor e o desespero refletidos nos seus olhos.

Meu tio destruiu minha vida, não permitiria que fizesse isso com minha irmã, prometi cuidar dela e é isso que faço até hoje.

Após o acontecido, na manhã seguinte, quando meu tio saiu, eu fugi com a Luiza, consegui deixá-la segura.

Fui à delegacia para denunciá-lo, mas um dos policiais era conhecido do meu tio.

Ao vê-lo entrar na delegacia, soube que a partir dali so esperava o pior ,nem a morte acabaria com meu sofrimento.

Um dia a casa foi invadida, os homens foram cobrar uma dívida do meu tio, para não morrer, ele me entregou como pagamento, foi assim que vim parar no clube sedução.

— O que foi, Miguel, quem te disse meu nome não contou a história toda, né?

Pois bem, essa sou eu, a sereia, aqui estou eu batendo no peito não por orgulho de vender meu corpo, mas por sobrevivência.

Abrir as pernas para quem dá mais, ser uma mercadoria, satisfazer os desejos mais sórdidos de homens como você, permite que uma inocente tenha uma vida normal.

Não há um dia que não odeie essa vida, odeio ver meu corpo sendo usado, odeio fingir ser forte, odeio ver o prazer refletido nos olhos dos homens que pagam para ter meu corpo.

Mas não tenho opção, essa é minha vida, esse é meu destino, não importa o quanto eu tenha tentado mudar isso, no fim voltava ao começo.

Sabe quantas vezes contei essa história a alguém pensando que iam me salvar? Várias vezes e nada fizeram, apenas enxugavam mais lágrimas e se satisfaziam do meu corpo.

— Sereia sai da cama e caminha até mim, ficando próxima de mim, sinto seu hálito. Encaro seu rosto vermelho, pelas lágrimas, a maquiagem borrada, mesmo assim ela continua linda.

Sereia toca meus lábios, desenhando os com a ponta dos dedos.

— O que está fazendo? Pergunto ao sentir sua mão abrir minha camisa.

— O meu trabalho, é para isso que estou aqui...

Paro e seguro sua mão, fazendo-a parar.

— Não seja bobo... não é como se depois de ouvir minha história fizesse diferença, nada vai mudar, deixe-me fazer meu trabalho.

— Não, Bianca, falo sério.

Bianca morreu há alguns anos, senhor, eu sou sereia, aquela que te levará às profundezas do prazer, escuto ela falar com malícia.

Não parece em nada a mulher que a pouco parecia tão frágil e indefesa.

Olho para seu corpo, o desejo de possuí-la acende como fogo ao jogar gasolina.

Bianca é linda, seu corpo curvilíneo, um rosto angelical e sexy, todo perfeito, os olhos azuis em contraste com a cor de sua pele morena.

A trago para perto de mim, tiro sua roupa, olho para ela, uma lágrima desce pela sua face, mas logo ela enxuga, um sorriso sedutor desenha sua boca.

Viro ela de costas para tirar o espartilho, mas ela me impede de fazer.

— Não... não precisa tirar, tem acesso ao meu corpo sem precisar tirá-lo, escuto ela falar.

Ergo a cabeça, volto ao espartilho, tiro ele do seu corpo, deixando seus seios à mostra, mas o que me chama a atenção é sua barriga marcada como se tivesse sido cortada embaixo do seio lp direito, vejo um esparadrapo!

Quem fez isso? Pergunto, tomado por uma raiva desumana.

— Não importa, já está sarando, responde como se não fosse nada.

Ando pelo quarto buscando algo para descontar minha raiva, chuto a poltrona com força, ela bate e quebra, soco a parede, nem a dor dos meus dedos é capaz de acalmar minha ira.

Controlo minha respiração, olho para Bianca, ela está encolhida com os olhos arregalados na minha direção.

Me aproximo dela, que dá um passo para trás, seguro seu braço, sinto seu corpo tremer, não de desejo, mas de medo, ela está com medo de mim.

Desde que a conheci, sempre fui gentil com ela, mas hoje, diante de tanta maldade, é impossível não perder a cabeça. Tiro o último tecido do seu corpo, deixando-a nua.

Pego sua mão com delicadeza, sinto os tremores do seu corpo, levo ela para o banheiro, ligo o chuveiro, guio ela para debaixo da água, lavo seu corpo, tiro toda maquiagem, tudo em mais absoluto silêncio, nenhuma palavra dita.

Percebi que por trás daquela mulher forte e sedutora existia uma história de dor e sofrimento.

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