Nem acredito que estamos livres. Mara fala dando pulos.
Sorrio para sua alegria, não é para menos. Ambas sabemos o que vivemos naquele inferno são lembranças que nos marcaram para sempre.
Então o que vai fazer agora? Ouso minha amiga perguntar.
Estamos juntas, no apartamento que Miguel disse que posso ficar até tudo se resolver. Suspiro lembrando da noite passada e de como meu corpo reage a seus toques.
Ok! Por que esse suspiro, o que aconteceu? Mara pergunta preocupada.
Contei a ela tudo o que aconteceu, que Miguel foi o responsável pelo fim do nosso cativeiro, que ele é amigo de Dominic Laerte, que ele é o Capo de uma organização poderosa da máfia.
Não é nada. Falo sentando no sofá branco, pego uma almofada marrom e observo os detalhes da sala, coisa que não fiz desde que entrei nela. Lembranças do que fizemos neste sofá fazem meu rosto esquentar, sorrio sentindo meu corpo arrepiar.
Eu te conheço, Bianca, o que aconteceu? Mara pergunta.
— Não sei, Mara, me sinto perdida. Estou feliz de ter saído do clube, de não ter mais que fingir ser forte.
Mais ainda me sinto presa, tenho medo do que meu tio possa fazer, de me levar para outro lugar daqueles ou pior. Falo com aperto no peito.
— Hei, não pense nisso, você não está mais sozinha, eu estou aqui e o Miguel não vai deixar. Ele gosta de você. Vejo tudo o que ele fez para não deixar que outro homem te tocasse.
Além do mais, duvido que ele já não saiba que o clube foi fechado. Saiu em todos os jornais e até a morte do seboso do Douglas foi noticiada. Só de me lembrar que o matei, sinto minha alma leve, nunca mais precisar olhar na cara daquele monstro e de tantos outros que nos humilharam e nos trataram como lixo.
— Sei disso, mas não posso viver às custas do Miguel, preciso arrumar um emprego e ir ver a Luiza.
Só de pensar que poderei trazê-la para casa, de poder proporcionar o que ela tanto deseja, estudar numa escola e poder voltar para casa, levá-la para a praia, sorrio desejando poder sair correndo para contar a Luiza.
Uma semana se passou, Miguel vem dormir sempre aqui quando sai do hospital, fazemos muito sexo, parecemos até um casal recém-casado. Mara está trabalhando como assistente de Dominic, sinto que algo está rolando entre eles, mas não perguntei, mal nos vemos, pois ela está morando no hotel ao lado do quarto do chefe.
Hoje vou no internato ver Luiza, queria poder contar que logo ela vai poder sair e estudar numa escola normal, mas Miguel me aconselhou a não fazer isso agora, não até pegarmos meu tio e fazê-lo pagar por todo mal que me fez e devolver a herança que nos roubou.
Para minha surpresa, Miguel não me deixa só, sempre liga, pergunta como estou, me matriculou numa escola online para que eu termine os estudos e possa fazer faculdade. Chorei de alegria por ele pensar em tudo isso, sem me prometer nada, me ajudando em tudo, conquistando cada dia mais meu coração, fazendo com que fique inquieta com saudades dele assim que sai para o trabalho. Antes de sair, fazemos amor, depois faço café para nós e assim nos despedimos.
Não sai do apartamento ainda, não me sinto segura, tenho medo de encontrar os homens que frequentavam o clube, mas não posso deixar que o medo me domine. Também não usarei mais a máscara da sereia.
Sinto como se a qualquer momento tudo mude e não passe de um sonho, que ainda estou no clube ou sob o poder do meu tio, sinto arrepios só de imaginar.
Miguel sugeriu que procurasse ajuda de um psicólogo, pois passei por muitos traumas. Disse que iria procurar, mas não posso viver às custas dele. Preciso arrumar um emprego para poder me sustentar, ter minha independência, coisa que me foi tirada há dez anos.
Decidida, vou para o quarto, pego a carteira com meus documentos e alguns trocados que os clientes nos davam por fora, boto uma calça, uma blusa de manga e olho no espelho pela última vez.
Duas horas depois, olho no espelho, chocada com a mudança. Vejo meus cabelos anos longos, castanhos escuros, estão mais curtos na altura dos meus seios, com as pontas mais claras, dando-me um ar mais jovem. Sorrio para o resultado.
Volto para o apartamento, me sentindo mais leve, como se tivesse tirado o peso do mundo que carregava nas costas.
Sim, eu tirei, deixei que a sereia voltasse para o mar, que usasse seus encantos no fundo do mar, de onde nunca deveria ter saído.
Ansiosa para saber a reação de Miguel, tomei um banho, fiz o jantar e esperei sua chegada.
Passa das dez da noite e nada do Miguel. Ele me deu o celular, veio com seu número anotado, olho para seu número discado, mas não ligo. Desisto de esperar por ele, faço um prato, como, tomo o vinho que separei para nós, bebo taças e mais taças, sinto meus olhos pesarem.
Depois que como, guardo o que sobrou da comida, arrumo a cozinha. Ao lavar a taça, ela escorrega da minha mão e se estilhaça no chão. Pego os cacos com cuidado para não me cortar, mas o inevitável acontece, um pedaço de vidro corta minha mão. Lavo para o sangue estancar.
Deito no sofá, depois de fazer o curativo, ligo a TV, passo os canais até achar algo que seja interessante, sintonizo num programa que mostra os eventos do mundo dos famosos e das famílias ricas do país.
Sinto o ar fugir dos meus pulmões, aumento o volume, ouço a jornalista falar que está tendo um evento importante. Mas minha atenção está no homem lindo e elegante, no fundo da imagem, ao lado de duas mulheres: uma loira linda com um vestido de um ombro só vermelho, sorrindo para Miguel. A outra parece uma senhora muito elegante, conversando com o casal, como se soubesse que estava olhando para ele, seus olhos viram para a câmera, como se fosse magia, não pisco nem desvio meu olhar, presa no meio de um furacão, de sentimentos ciúmes e inveja da mulher ao lado de Miguel, lágrimas descem dos meus olhos ao vê-lo desviar o olhar para a mulher e sair de braços dados com ela.
Como facas rasgando meu peito, sinto-me sufocar com a dor no meu peito...
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Atualizado até capítulo 56
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