Bianca Vasquez

Viro de um lado para o outro na cama, tentando dormir e esquecer da madrugada que vivi.

Relembro o homem que me acalmou no elevador, depois de ter passado por mais um trauma na minha vida.

Vejo o homem que hoje tem o nome Miguel, por um momento quis voltar no tempo e nunca ter ido até o hospital.

Às vezes me pergunto se Deus existe, porque ele permite que eu passe por tudo isso. Duvido que ele se lembre de mim.

Desde que fui jogada nesta vida, agi de forma profissional, fazendo tudo que me foi ensinado. Não importa com quem esteja, faço-o sentir-se o centro de tudo. Aqui me ensinaram a dar prazer, não importa a quem, não há distinção, somos apenas objetos de prazer.

A verdade é que sempre pensei assim desde que estou aqui, ou era isso ou sentir-se como lixo humano, algo descartável que é usado e jogado fora, e sempre assim. Por isso, aprendi a usar o modo profissional, fingindo ser aquilo que eles querem que eu seja.

Porém, ontem Miguel despertou em mim algo que nunca senti, prazer, desejo. Pela primeira vez, senti meu corpo queimar, almejando chegar ao limite.

Zara nos insinuou a dar prazer, seduzir, fazer com que o homem nos deseje, que encontre em nós uma válvula de escape das vidas corridas, da rotina, dos casamentos fracassados que servem apenas de fachada, algo para mostrar que são homens honestos, que prezam a família. Mas, no final, são apenas hipócritas que fingem ser aquilo que a sociedade quer, não o que realmente são. Pessoas ambiciosas, sujas, sem escrúpulos, que não ligam para nada além do que os beneficie, e nós somos seus brinquedos para fazerem o que bem quiserem, desde que paguem, o resto não importa.

Mais um dia, arrumo as pulseiras no meu pulso, suspiro forte buscando forças para continuar em frente. Olho no espelho, arrumo meus seios dentro do mini top que os deixa firmes, mostrando aquilo que muitos vêm buscar: um corpo sexy, durinho, sensual. Saia na cor preta curtíssima, um conjunto lindo e sensual, um salto alto para mostrar segurança e sensualidade.

Vamos lá, mais uma noite, no clube sedução.

Saio do quarto, desço as escadas e ando em direção à saída. Na porta, encontro Noel. Apesar do nome, o homem de roupas escuras, cara fechada, postura firme e amigável, pouco mais velho que eu, na faixa dos trinta anos, corpo atlético.

"Boa noite, Noel," falo me aproximando dele.

"Boa noite, sereia," ele responde sério.

"Para o clube, por favor," aviso ao entrar no carro. Noel entra no veículo e dá partida. Olho pela janela, respiro fundo me preparando mentalmente para a noite. E assim, todas as noites, mesmo depois de tantos anos, ainda não me acostumei. Olho a paisagem pela janela, vejo a escuridão da noite eliminada pela luz da lua, poucas estrelas no céu. Passando por um cruzamento, me dou conta de que esse não é o caminho para o clube!

"Para onde vamos, Noel?" pergunto tocando seu ombro, já que estou no banco de trás.

"Você tem cliente fora hoje!" ouço ele responder, me olhando pelo retrovisor.

Balanço a cabeça concordando com o que ele falou. O caminho para meu destino durou cerca de vinte minutos, Noel entrou num estacionamento de um grande prédio lindo, mostrando que meu cliente era muito rico. Pela janela, vi a beleza do lugar, a arquitetura moderna toda espelhada com poucos detalhes de algum tipo de porcelanato preto.

"Seu cliente mora na cobertura e só pegar o elevador principal que dará no apartamento, você e toda dele hoje, pelo que ouvi, ele pagou pela noite. Noel fala ao abrir a porta do carro para que eu saia. Agradeço e sigo em direção ao elevador. Paro na frente da grande porta de metal, aperto o botão para o último andar, odiando o fato de que ficarei sozinha dentro da caixa de metal, presa como um animal. Sinto minhas mãos suadas, ouço o som do elevador chegar e as portas se abrirem. Caminho para dentro, me encosto na parede gelada, expirando pesado a cada andar que subo. Lembranças do dia em que conheci Miguel, a forma como ele me acalmou. Respiro várias vezes, cantando mentalmente a música que me acalma, "Always" de Bon Jovi.

Abro os olhos, escuto o elevador parar e as portas se abrirem. Saio quase que correndo de dentro, com o coração acelerado, respiro fundo, arrumo meus cabelos, passo as mãos na testa para limpar o suor. Depois de conferir meu estado e arrumar minha roupa, caminho até a grande porta de madeira na cor marrom, e toco a campainha, arrumando minha postura, mantendo sempre a cabeça erguida e o sorriso no rosto. Ouço a porta ser aberta, sorrio para a pessoa atrás dela. Fico sem palavras, meu sorriso morre ao ver quem é.

"Boa noite, sereia," Miguel fala, me encarando.

Ainda parada na porta do apartamento dele, em choque por saber que é ele meu cliente, sou puxada para dentro.

Miguel fecha a porta, para na minha frente, continuo como uma estátua, sinto sua mão tocar meu rosto, fazendo com que sinta meu corpo arder. Sem conversa, Miguel ataca minha boca com fome, desbravando cada canto num beijo cheio de desejo. Presa ao seu corpo, seus dedos apertam firme minha cintura, fazendo-me arfar, grudada a ele.

Miguel se afasta para respirar, me encara sorrindo.

"Venha, vamos jantar," ouço ele falar, me arrastando até a cozinha. Fico como uma boba, de boca aberta, olhando para a cozinha toda planejada no tom claro, os aparelhos domésticos pretos para destacar.

"Vamos, sereia! Venha comer, ou vai esfriar," escuto Miguel falar, tocando meu braço e tirando-me do transe.

Miguel me leva para uma mesa no centro da cozinha, toda de vidro, com um lindo lustre no centro da mesa. Vejo a mesa montada para duas pessoas, encaro Miguel incerta do que ele pretende com tudo isso.

"Qual o problema?" O homem do meu lado, vestido com uma camisa azul marinho, com as mangas dobradas, e uma calça no tom escuro, os cabelos loiros molhados mostrando que saiu do banho recentemente, e o perfume invade minhas narinas, fazendo-me inspirar mais do seu cheiro. "O que significa isso?" pergunto, apontando para a mesa.

"Um jantar, o que mais seria," responde, sentando na cadeira diante de mim.

"Sai do trabalho há pouco, não tive tempo de comer e estou morrendo de fome, então pedi comida para dois. Vamos, sente-se e coma, precisará de muita energia para o que faremos logo mais," fala, sorrindo e passando a língua nos lábios com malícia, me encarando.

Sento na cadeira, sem olhar para o homem diante de mim, sinto minhas bochechas quentes de vergonha. Algo que deixei de sentir há algum tempo, mas Miguel desperta coisas que julguei terem sido apagadas do meu sistema: vergonha, medo, esperança, segurança, despertando em mim a Bianca frágil que corria para o quarto dos pais nas noites de chuva.

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