Abro a porta e entro na sala toda no escuro, passa da meia-noite. Deveria ter ido para meu apartamento, mas não consigo. A cada segundo que passava naquele jantar, queria que acabasse logo para que pudesse voltar para casa e encontrar minha morena.
Tiro o blazer e caminho pelo corredor que dá acesso aos quartos, paro em frente à porta meio aberta e entro no cômodo. Sinto seu cheiro no quarto, aproximo da cama, sorrio admirando Bianca dormindo abraçada com o travesseiro, sua boca entreaberta. Tiro uma mecha de cabelo dos seus olhos para ver melhor a mulher deitada tranquilamente.
Acordo com o barulho do despertador no celular, viro para pegar e desligo.
Olho para o lado em busca da Bianca, mas está vazio.
Saio da cama, vou para o banheiro, tomo banho e faço minha higiene matinal.
Entro na cozinha, Bianca está de costas na pia cortando frutas, a mesa arrumada para o café.
— Bom dia! — falo me aproximando.
— Bom dia. — ela responde.
— Uau, o que fez com o cabelo? — pergunto apontando para as madeixas antes longas e escuras, agora mais claras e um pouco curtas.
— Ah, isso! — fala apontando para o cabelo.
— Decidi mudar um pouco, deixar algumas lembranças para trás. Então fui no salão aqui perto e deu nisso. Gostou? — pergunta me encarando.
— Você é linda de qualquer jeito. — Falo tocando seus fios.
Trago sua boca de encontro à minha num beijo ardente, sedento demais, mais do seu corpo, seus beijos. Porra, essa mulher me enlouquece.
Tudo nela me hipnotiza, desperta um desejo sem igual.
Seus gemidos são música para meus ouvidos, seu corpo arrepiado pelo meu toque, como um adolescente descobrindo a puberdade. Possuo Bianca, marcando seu corpo com meus dedos, desenhando suas curvas. Aperto ela mais ao meu corpo, tornando-nos um só.
— Tudo bem? — pergunto ao vê-la sair do meu colo e arrumar sua roupa. Noto algo estranho, como se tivesse se arrependido do que fizemos há pouco.
Tomamos café no mais absoluto silêncio.
— Vai sair? — pergunto vendo ela vestida e pegando sua bolsa.
— Sim, vou ver a Luiza e me encontrar com a Mara depois. — Bianca responde sem olhar nos meus olhos.
Bianca vem aqui. Chamo.
— O que ta acontendo ? — pergunto olhando nos seus olhos.
— Não é nada, só estou ansiosa para ver minha irmã e o advogado que Mara arrumou para ver se posso reaver minha herança.
— Já disse para não se preocupar com isso, não deixarei nada falar a você nem a sua irmã. — Falo.
— Não, é assim, Miguel. — ela se afasta.
— Sou grata por tudo que fez por mim, mas uma hora você vai cansar. Querer algo novo. Você foi bem claro ao dizer que gosta do que vivemos entre quatro paredes. Mas não posso passar minha vida sendo seu segredo, tenho que recuperar o pouco que sobrou da antiga vida e seguir em frente. — Fala firme, me deixando atordoado com suas palavras.
— Você não é meu segredo, não entendo por que isso agora, estávamos bem.
— Claro, você está assim porque não avisei sobre o evento que fui por ter ficado me esperando para mostrar sua transformação e isso não é?
— Não, Miguel! Não estou com raiva por isso, não me deve explicação, não temos nada. Você me ajudou, gosto do que vivemos dentro desse apartamento, mas não posso resumir minha vida a isso.
— Quero trabalhar, ser independente, conhecer lugares que nunca fui, realizar sonhos que não pude realizar. E por isso que estou assim. Se o advogado conseguir me ajudar, poderei alugar um cantinho para mim e minha irmã, arrumar um trabalho e ter uma vida normal.
Bianca me deixa só no quarto para ir ver sua irmã. Merda, passo a mão no cabelo, nervoso e frustrado.
Me arrumo para o trabalho, dirijo para o hospital. Ao sair do elevador, vejo uma cena estranha: um homem e uma mulher seguidos para a área isolada do hospital. Pela forma que o homem agarra o braço da mulher, não gosto dessa merda. Decido segui-los, me escondo atrás de uma pilastra e ouço o homem.
— Mandei você ir para minha sala, por que não foi? — ouço ele falar.
— Por favor, doutor, não posso fazer isso. Sou casada, tenho filhos, respeito minha família. Me deixe em paz. — ouço ela falar, soluçando.
— Se não me agradar, farei da sua vida um inferno neste hospital. Mas se for obediente, será bem recompensada.
— Cansado de ouvir, saio de trás da pilastra, revelando minha presença aos dois.
— Não tente negar, eu ouvi e vi você arrastando essa mulher. Deveria ter vergonha, usar seu cargo para chantagear, manipular essa mulher. Que porcaria de médico você é! — Exalto sem paciência.
— Não é nada disso, Miguel, ela que se oferecia, estava tentando fazê-la parar. Sou homem de família, tenho minha carreira, essa mulher queria se dar bem. — Fala ele nervoso.
— Não deixo que continue, soco sua cara, não dando tempo para que se defenda. Covarde do caralho, saia do meu hospital agora. Chamo a segurança. Tirem esse lixo daqui. — Ordeno.
— Doutor, por favor, eu não fiz nada! — Defende-se a enfermeira.
Olho para ela, nervoso demais para conversar. Por que inferno não denunciou o Dr. Belmiro? Temos regras nesta porra. Falo exaltado.
— Porque não daria em nada, além de ser demitida, seria acusada de tentar se dar bem nas costas de um médico influente como o Dr. Belmiro. — Responde Virgínia, invadindo minha sala.
— O que está fazendo aqui, Virgínia? — Pergunto.
— Soube o que aconteceu, vim ter certeza que a justiça seja feita. Não demita a Sara, ela é uma boa profissional e precisa do trabalho. Assim como ela, muitas são assediadas, sofrem pressão psicológica e até abusos para poder manter seu trabalho. Não é de hoje que isso acontece, porém você viu e sabe que tem muito mais pessoas que fazem isso.
— Certo, volte ao trabalho. Se perguntarem, não responda, qualquer coisa fale comigo. — Falo para a mulher de cabelos pretos e pele morena.
Mais que inferno de dia. Depois da saída da enfermeira Virgínia, falou de suas suspeitas e até falou que sofreu vários tipos de pressão.
Meu dia foi uma merda, quase não saí do escritório. Médicos antigos vieram defender o Belmiro, não dei margem para defesa, fui direto com quem descobrir que está fazendo isso. À tarde, para minha surpresa, um grupo de pessoas me chamou na área de descanso para contar o que estava acontecendo, que muitos eram obrigados a fazer o que eles mandavam para poder manter seus empregos e não sofrer perseguições.
Meu pai invade minha sala, tratando-me como criança.
— O que pensa que está fazendo, Miguel, dando ouvidos a mentiras, calúnias contra um médico de renome? — Escuto ele falar, alterado.
— Primeiro, eu sou o diretor deste hospital, segundo, não são calúnias. Não permitiria que um homem como ele suje a imagem do hospital, mas acabarei com a carreira dele. — Falo, olhando firme para ele.
No final do dia, doido para ir para casa, recebo uma mensagem da Bianca falando que vai dormir no hotel com a amiga. Frustrado e com raiva, dirijo para meu apartamento. Ao entrar, sinto-me vazio, triste por não encontrar minha morena me esperando com um sorriso nos lábios e o cheiro de comida no ar. Bianca domina meus pensamentos de uma forma que não consigo controlar: desejo, cuidado, tesão. Uma atração avassaladora, difícil de permanecer longe dela.
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Atualizado até capítulo 56
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