Mais uma vez, deixo uma parte do meu coração neste lugar. Gostaria que fosse diferente. Se pudesse voltar no tempo, ao invés de fazer birra para não ir com os meus pais para o jantar na casa da família Toledo, talvez tudo seria diferente. Mas infelizmente não é assim. A vida tem dessas, às vezes estamos sorrindo e, em questão de segundos, tudo muda.
— Filha, prometa que vai cuidar da sua irmã enquanto estivermos longe! pergunta minha mãe!
Eu prometo, mãe, falo abracada a Luiza. Minha irmãzinha tinha só quatro anos quando tudo aconteceu; era para ser só um jantar que duraria poucas horas e logo eles estariam em casa. Mal sabíamos que aquele seria nosso último abraço e beijo na testa que os meus pais me davam.
— Ora, ora se não é a preferida do Jonas.
Chegando no lugar que chamo casa há seis anos, deparo-me com Janaina, uma das garotas que também moram aqui. Não respondo às suas provocações e subo direto para meu quarto. Ao entrar vejo Mara, a minha amiga de quarto; dividimos ele há cinco anos. Ela dorme profundamente, ainda vestida com a roupa de ontem à noite; ela saiu para participar de uma despedida de solteiro e chegou cansada, só caiu na cama do jeito que estava mesmo.
— Uau, Bianca, como está gata! fala Mara ao passar por mim.
— Obrigada, Mara, você também não está nada mal. Falo olhando sua roupa. Ela dá uma volta e sorri, vestindo um curto vestido preto, marcando suas curvas e um grande decote na frente, mostrando o vale entre seus seios. Mara é linda, uma ruiva com pele branca, olhos cristalinos, uma verdadeira princesa.
Mas seu conto de fadas acabou quando ela foi vendida pelo homem que jurava amá-la.
Quando ela chegou aqui, vi nela o mesmo que passei, o desespero e medo. Sabia como era ser tirada da sua vida e ir para o inferno em vida.
Apesar da beleza e riqueza deste lugar, poucos sabem o que se passa aqui. Ninguém liga, na verdade. Desde que possam se divertir, curtir, fazerem o que não podem lá fora, aqui só tem uma única regra: só entra quem tem dinheiro - homens ricos, milionários, toda elite do país da cidade. Tendo dinheiro, tudo pode, eles têm o poder nas mãos, nos pés, pescoços, em qualquer lugar do corpo da mulher que escolherem.
É triste saber que não somos nada. Homens poderosos, pais, maridos, tios, padrinhos, todos poderiam fazer algo para mudar nossas vidas, mas não fazem, não se importam conosco, o que querem é ser livre para realizar suas fantasias e desejos mais sórdidos e sombrios. Por isso, não se importam conosco. Não, a maioria tem idade para ser filhas, irmãs, netas, mas não somos, então não importa, essa é a nossa realidade. Só resta aceitarmos nosso destino, ser apenas o meio para satisfazer seus desejos.
Ando pelo salão com minha máscara de mulher fatal. Paro perto do palco e admiro a dança de Susi, uma linda morena fazendo um striptease, deixando muitos homens babando nela.
Sinto uma presença atrás de mim, viro sorrindo. Logo meu sorriso morre; o homem que encontrei no elevador e me ajudou está diante de mim, me encarando com olhar surpreso e descrente do que vê. Você ouso falar baixo. Seus olhos vagam pelo meu corpo, me deixando arrepiada, ao mesmo tempo preocupada. Quando nos vimos, estava chorando, nervosa, frágil, mas agora com minha máscara de mulher fatal.
— O que faz aqui? pergunta, me encarando.
— Trabalho aqui, respondo, perdida, na imensidão dos seus olhos verdes.
— Trabalha! ele repete com a sobrancelha erguida.
— Sim, em que posso ajudar? falo, tocando seu peito, usando minha voz sensual, e engulo o nó sufocando minha garganta.
— Miguel, ouso um homem falar ao se aproximar de nós, Miguel, o nome do desconhecido, e Miguel, sorrio para o moreno ao lado de Miguel, pronuncio o nome dele.
— Miguel, cara, pra quem não queria ninguém aqui, você escolheu bem. Ouvi falar muito sobre você, sereia. O moreno fala e sorri para mim; não lembro dele.
— Não escolhi ninguém, cara, apenas confundi a mulher, aqui, com alguém que conheci alguns dias atrás. Escuto sua voz, seu tom de desprezo ao se referir a mim, sinto aperto no peito, mas engulo a dor e sorrio para os dois homens à minha frente.
— Bom rapazes, se me derem licença, tenho trabalho a fazer, falo e saio rebolando em direção a Júlio, um cliente que sempre está aqui.
— Minha sereia, linda e gostosa como sempre, fala o velho me comendo com os olhos. Sorrio para ele. Chego perto de Júlio e vejo ele passar a língua nos lábios. No momento em que dou um passo, sou puxada para trás com força.
— Não tenho tempo de reagir, sou arrastada pelo salão para a área dos quartos. Me solta agora, falo, puxando minha mão do seu aperto.
— Miguel não diz nada, continua andando, abre a porta do lado direito e entra.
Sinto meu corpo bater na parede. Levanto a cabeça para encará-lo. Sinto seu hálito contra minha pele, o cheiro do perfume me deixam desnorteada. Nos olhos do homem diante de mim vejo uma luta interna, raiva, desejo e algo mais que não consigo decifrar.
Nunca senti algo assim, nenhum homem me fez desejar ser beijada, tocada de todas as formas, mas esse diante de mim desperta coisas, sentimentos improváveis, me deixando à mercê de seus caprichos. Ainda lutando contra a vontade de me afastar ou me prender entre seus braços, Miguel aproxima seu corpo do meu, fazendo meu coração errar uma batida, a frieza na sua voz mostra o quanto sua raiva é maior que qualquer desejo.
— A partir de hoje, ninguém toca mais em você a não ser eu, não permitirei que filho da mãe nenhum toque em você, se acaso isso acontecer, serei capaz de matá-lo, seja quem for.
Não consigo acreditar no que ouvi, a ira na sua voz, a forma como falou deveria me causar medo, porém tudo que sinto é desejo, perdida numa batalha injusta contra um homem de quase dois metros de altura, olhos verdes, pele bronzeada, mas não me deixo iludir, umidesso meus lábios e o olho nos olhos, falo, como profissional, se tiver dinheiro para isso, serei sua o quanto quiser, digo as palavras queimando minha garganta.
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Atualizado até capítulo 56
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