.20.

Rafael trancou a porta do quarto e voltou para perto de mim, agarrando minha boca com desejo. Estávamos agarrados, buscando cada vez mais contato, sedentos de um pouco mais do outro.

–– Para, Rafael. –– Por um momento a razão falou mais alto. –– Pare.

–– Por que parar, Isis? Você é livre, eu também sou. –– Ele capta minha boca mais uma vez. –– Se entregue. Já sabemos que aqui é o único lugar que nos damos bem.

E ele não estava errado. Mas ouvi-lo dizer isso me incomodou. Ele é o homem que me fez comer no chão de um restaurante, mesmo que ninguém tenha visto.

Ele é o homem que me colocou para lavar porcos, mesmo que também ninguém importante pra mim tenha visto.

Quão errado é ao final disso tudo eu transar com esse mesmo homem?

–– Não, Rafael. Eu não vou transar com você novamente. –– Levanto da cama deixando-o a ver navios. –– Se quiser apaziguar sua ereção, tome um banho frio. Mas comigo é que não vai ser.

–– Ok, Isis. Ok!

Ele sai do quarto sem dizer mais nada. Agradeço ao meu subconsciente por ter me ajudado. Volto para o banheiro e visto-me decentemente.

Depois sigo até a cozinha e pego algumas frutas para lanchar. Noto que Rafael não está. Azar o dele se precisou sair. Não faço questão da sua presença mesmo.

–– Quanta comida! É para o jantar?

–– Sim, senhora. Sr. Rafael pediu para fazer algo especial hoje.

O que será que esse energúmeno está aprontando?

Fico na varanda até por volta das 17h. Depois volto para o quarto, pois preciso começar a me produzir. Pelo que notei, ele pediu para Magali fazer um jantar especial.

Pra que um vestido caro se iremos jantar aqui? Não sei o que se passa na cabeça desse ser, mas vou seguir o que me pediu.

Coloco música no celular enquanto seco e ondulo meus cabelos. Acabo tendo minha sessão karaokê interrompida por uma ligação da minha mãe.

–– Oi, mãe. Aconteceu alguma coisa?

–– Liguei pra saber se está tudo bem. Você não mandou mensagem... Fiquei preocupada.

–– Está tudo bem, mãe. Não se preocupe. Domingo estou voltando.

Conversamos um pouquinho e só depois entendi o propósito da ligação. Ela disse que a joalheria que ela é cliente fiel por anos ligou dizendo que chegou o anel de uma coleção famosa de jóias e que a peça era única. Minha mãe queria o anel.

–– Mãe, não. Não dá. Ainda não terminamos de conversar sobre contenção de gastos.

–– Filha, mas se eu não comprar, a Paola Medeiros irá. Já não basta ele ter roubado meu motorista. Não quero ficar perdendo as coisas para aquela megera oxigenada. Por favor, Maria Isis. Prometo que não peço outra jóia por um mês.

–– Mãe, minha resposta final é não. Beijo.

Encerro a chamada e volto a me produzir. Minha mãe precisa de autocontrole. Sinto que a única ajuizada dentro daquela casa sou eu.

Minutos depois recebo uma mensagem da minha mãe com a foto do comprovante de compra e um pedido de desculpas. Ela ainda escreveu que já tinha solicitado a compra antes de ter ligado para mim. O horário que o comprovante foi emitido comprava isso.

Estranhamente me bateu uma vontade de chorar. Eu queria que tivesse batido vontade de brigar, socar parede, quebrar objetos. Mas eu queria mesmo era chorar.

Agora eu teria que barganhar com Rafael para que ele pudesse pagar essa jóia. Será que ela não pensou nisso? Ou se pensou, será que preferiu ignorar?

Não é possível que eles achem que eu estou me divertindo com essa situação. Isso está mexendo tanto com a minha cabeça que eu nem sei descrever o que está mesmo se passando comigo.

É só uma exaustão sem fim.

Enviei a foto que minha mãe me mandou para o Rafael e logo depois a seguinte pergunta:

^^^Qual preço preciso pagar?^^^

Larguei o celular de lado e voltei a focar na minha arrumação. Quase dando 19h, olhei uma última vez no espelho.

Eu estava uma mulher estonteante. O vestido que eu usava era de um vermelho vivo e incandescente. Coloquei um batom da mesma cor, abusei dos acessórios e na maquiagem. Deixei os cabelos soltos dando aquele toque sensual no look.

Após duas batidas na porta, a mesma é aberta e Magali avisa que Rafael está me esperando lá fora. Agradeço o favor e digo que já estou indo.

Passei um pouco de perfume, pego minha bolsa e saio do quarto. Olho para a cozinha e vejo que ele não está. Sigo para a área externa.

Ao longe, vejo algumas luzes penduradas nas árvores, uns homens tocando e cantando, mesas com bebidas e comidas e Rafael, de pé me encarando. Sigo até ele a passos lentos, pois estava de salto.

O mesmo está de calça jeans, camisa xadrez, chapéu country e cinto com fivela gigante. Um típico peão.

–– Mas... O que é isso, Rafael?

–– Preparei uma festinha à moda caipira pra você. Não gostou?

Os homens que estavam tocando, pararam e olharam para mim. Eu podia ver cada um segurando fortemente o riso.

–– A moça vai onde tão chique assim? –– Zé Capiba é o primeiro a ter coragem de arriscar falar sem soltar o riso. –– Isso lá é roupa de festejo caipira, moça.

Foi aí que todos caíram na risada. Engoli seco ao observar Rafael se divertindo com a risada de geral. Eu estava petrificada, não conseguia ter nenhuma reação.

–– Eu avisei que seria algo mais leve e divertido, Maria Isis. Por que foi colocar logo esse tipo de roupa? Quer esfregar em nossas caras que é uma riquinha elegante? Olha, pessoal, até salto ela colocou.

E novamente todos estavam rindo. Engoli toda vontade de enfiar meu salto na garganta de Rafael e resolvi entrar na onda. Se ele achou que iria me humilhar, pensou errado.

–– Desculpe, pessoal. Pensei que era algo só entre mim e o Rafael.

–– Você quer que eu os dispense? –– Vou torar a língua desse encrenqueiro.

–– Não, claro que não. Eu apenas vou remodelar meu look para ficar mais confortável e me divertir com vocês.

Tirei os saltos e larguei-os de lado. Fui até a mesa e procurei por uma faca. Eu precisava me ver livre de todo esse pano.

–– A moça vai picotar todo o vestido caro?

–– Não se preocupe. Não tem valor algum pra mim.

Passei a faca no vestido sem dó nenhuma. Deixei-o acima do joelho e também removi as mangas. Tirei os brincos extravagantes e as pulseiras também.

–– Pronto. –– Olho para Rafael que tinha observado tudo boquiaberto. –– Agora pode tocar uma música boa que eu vou dançar até não sentir mais as pernas. Quer dançar comigo, Ino?

–– Claro! Não vou recusar um pedido gentil desse.

–– Ah, vai recusar, sim. –– Rafael interfere. –– A primeira dança dela é minha. A segunda e a terceira também.

–– Tem problema não. A quarta música eu danço com você, Ino. Apenas espere.

Assim que começam a tocar forró, ele me prende com força ao seu corpo roubando um pouco do meu fôlego.

–– Fico cada vez mais impressionado com a sua ousadia, Maria Isis. Mas tenho que lhe parabenizar. Você sabe bem como sair de determinadas situações.

–– Se a sua intenção era me constranger eu sinto muito ter frustrado seus planos. –– Sussurro perto do seu ouvido. –– Não sei onde você quer chegar com essas palhaçadas. Claramente você quis passar para eles uma imagem minha de soberba. A riquinha esnobe que não sabe se comportar entre os mais humildes. Pode me dizer o motivo?

–– Apenas saiba que você não irá dancar com Severino. Apenas isso, Maria Isis. –– Roda-me no mesmo lugar. –– E não pise no meu pé.

As horas foram passando e eu estava acabada de tanto dançar. Já tinha provado algumas cachaças e comidas interioranas. Tudo muito bom!

Sentei um pouco para descansar, pois o dia foi puxado e meu corpo já clamava por descanso. Zé Capiba tocava uma canção romântica enquanto que Tônho cantava. O homem não tinha voz bonita, mas os versos que saíam de sua boca eram os mais bonitos que eu tinha ouvido.

–– Pra você. –– Rafael chega por trás e coloca em minha frente um buquê pequeno de rosas vermelhas. –– Vamos fingir que esse buquê veio acompanhado de um pedido emocionante de namoro.

–– Então, tecnicamente, eu disse sim e chorei. –– Seguro o ramalhete e olho para ele. –– Falta algo mais.

–– Eu não esqueci, Isis. –– Ele puxa do bolso uma caixinha preta. –– Toma. Coloca o seu. Vamos tirar uma foto pra colocar nas redes sociais.

Quando ele me entrega a caixinha e eu coloco meu anel sozinha, me bateu um aperto no peito. Lembrei do dia em que eu descobri a traição do Derik. Aquela sensação de que só eu estava inteira na relação me deixou mal por muitos dias.

–– Coloca a sua. –– Devolvo a caixinha. –– É bonita. Tem bom gosto.

–– Eu sei. Como você quer tirar a foto?

Eu estava enfadada, descabelada, com maquiagem caindo, look destruído, mas o que estava bem pior que isso era o meu interior.

Dei a sugestão dele me fotografar erguendo o buquê com uma mão, mostrando a outra mão com o anel para a câmera, fingindo estar gargalhando e com as luzes da festa no fundo.

Rafael demorou mais de três minutos para tirar uma foto boa. Depois tiramos uma clichêzinha com as mãos juntas, exibindo as alianças, e o buquê vermelho no fundo.

–– Vou pedir para tocarem uma música em nossa homenagem.

–– Curta você sozinho. –– Pego o buquê, meus sapatos e me levanto. –– Por hoje já deu. Até amanhã, namorado.

Não fico para ouvir seus resmungos, apenas me direciono para a casa. Assim que passo pela porta, passo a chave e jogo o buquê no chão. Escorrego encostada na porta e fico no chão, chorando.

O que é que foi que minha vida se tornou? Que grande circo é esse? Por quanto tempo eu vou suportar viver de fingimento?

A verdadeira e mais séria pergunta é: até quando eu me manterei discernindo perfeitamente o que é fingimento e o que não é?

Levantei do chão, tomei um banho, removi toda maquiagem e me deitei. Antes de adormecer, vi que tinha sido notificada na minha rede social.

Era uma marcação em um post feito pelo Rafael. Ele colocou várias fotos que ele tirou enquanto eu pensava que ele estava tirando apenas uma. E a legenda era:

"Desceu do salto, fez uma bagunça danada e depois roubou meu coração pra sempre."

Travo meu celular e abandono de lado. É só fingimento, Maria Isis. Ele deve ter roubado essa frase de algum site de legendas para fotos de casais. Foi só isso. Adormeço.

Sou despertada com alguém me balançando insistentemente. Abro os olhos e sento sobressaltada. Rafael estava na minha frente, com uma sobrancelha arqueada e uma expressão de impaciência estampada em seu rosto.

–– Maria Isis, você esqueceu do nosso compromisso logo cedo? Anda, levanta. Lava esse rosto que eu estou te esperando na sala. Quinze minutos e nada mais.

–– Urgh.

Jogo-me na cama novamente, mas não me dou o luxo de apreciar mais um pouco a maciez do colchão. Estou morrendo de sono, mas não posso descansar nem mais cinco minutos ou o capitão chatonildo aparece aqui e me arrasta pelos pés.

Lavo o rosto, escovo os dentes, dou um jeito na minha aparência e troco de blusa. Calço minhas sandálias e sigo para a sala. Rafael só me deixou comer meia fatia de bolo e dar três goles no meu café.

Seguimos para a área onde ficam os cavalos em total silêncio. Os funcionários já estavam todos nos aguardando. Cumprimentei um por um, aproveitando e agradecendo pela festa de ontem.

–– O Olavo tá a caminho, patrão. Os cavalos chegarão em no máximo vinte minutos.

–– Ok, Zé. Espero que a fêmea venha em boas condições. Já falou com o veterinário?

–– Eu que liguei pra ele. Doutor Eurico confirmou a vinda. Chega ainda pela manhã. –– Januário, o mais calado de todos os peões, diz em voz baixa.

–– Qual o meu papel aqui, Rafael?

Juro que eu me arrependi de ter perguntado. Preferia ter ficado na doce ilusão de que iria apenas saber como é o recebimento de uma remessa de cavalos.

Mas Rafael disse em alto e bom som:

–– Qual o seu papel aqui? –– Ele olha para os peões e depois olha pra mim com ar de riso. –– Fazer tudo que eles farão, Maria Isis. Já está familiarizada com o balde e a escova né?

Ok, Deus. Pode me levar.

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Comments

Maria Do Carmo Oliveira

Maria Do Carmo Oliveira

pois é os pais dela não estão nem aí, eu já tinha chutado o balde

2024-10-30

0

Sibele Cristina

Sibele Cristina

eu literalmente estou muito amargurada, eu n iria aceitar não, eu já sou pobre e não ia tá nem aí pra nada eu iria embora achar um emprego uma casinha barata e viver feliz

2024-10-30

1

Tania Cassia

Tania Cassia

esse Rafa é um babaca 🙄🙄

2023-08-18

2

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