O dia amanheceu mais rápido do que eu gostaria. Depois de cuidar do rosto e da higiene, tomei café na companhia de Suze. Maurinho ainda estava capotado na cama.
–– Não sei o que Maurinho quer da vida. –– Resmunga. –– Nosso pai já avisou que ele tem curtido bem mais do que trabalhado. Vai acabar sendo afastado do cargo de vice-presidente, que conquistou com muito suor.
–– Mas a empresa não é da família? –– Questiono. –– Não era óbvio que ele assumisse tal posição?
–– Você não conhece meu pai mesmo. –– Enfatiza. –– Maurinho teve que ralar pra ser o vice da Ponto Têxtil. A fábrica é regida com mãos de ferro pelo meu pai.
Terminamos o café da manhã e resolvemos ficar de preguiça na área externa. Suzane, repentinamente, tem a brilhante ideia de bebermos um pouco para distrair-nos.
Eu, como não precisarei dirigir para voltar para casa, aceitei de bom grado a proposta. Começamos com drinks alcoólicos à base de fruta. Era a vez do maracujá.
Maurinho apareceu e se juntou a nós, porém sem beber. Alegou não aguentar nem meia dose. Suze passou um leve sermão para o irmão enquanto eu só ria. Era engraçada a relação deles. Eu invejava.
Minha mãe me disse que tentou ter um segundo filho, mas não conseguiu. Eu gostaria de ter tido irmãos. Acabei roubando Maurinho da Suze. Uma pena ele não me enxergar assim.
–– Ontem um dos assuntos principais foi você e o Rafael. –– Maurinho diz enquanto faz massagem nos meus pés. –– Ele parece curtir mesmo você. Bateu no carinha que disse que depois que ele te comesse algumas vezes ele enjoaria. Foi maior rolo.
–– Sério? –– Ele assente. –– Entendo. Mas também o cara foi altamente desrespeitoso. Mereceu.
–– Depois que botamos o tal cara pra correr, ele avisou que iria ligar pra você. Já era tarde, eu ainda avisei que você já estaria dormindo, mas ele disse que iria insistir mesmo assim. Rafael já estava meio bêbado. Acho que foi efeito do álcool.
–– É... Pode ser.
A manhã passou voando e após o almoço, resolvi pedir um carro por aplicativo e voltar para casa. Suzane já estava bêbada e Maurinho estava cansado. Ordenei que os dois fossem dormir. Maurinho ainda ficou me observando entrar no carro. Acenou quando viu que eu já iria embora.
Quando cheguei em casa, dei de cara com algumas pessoas na sala. Minha mãe vem até mim, segura meu rosto e beija minha testa.
–– O que é isso, mãe? –– Praticamente sussurro.
–– Resolvi fazer uma pequena recepção com minhas seis melhores amigas. –– O sorriso que estava no rosto dela parecia que a mesma tinha acabado de ganhar o carro do ano. –– Coisa boba, para acabar com os buxixos de que estávamos na pior. Quer se juntar a nós?
–– Não, mãe. Estou cansada.
Ela assente e eu sigo para o meu quarto. Quem no mundo tem seis melhores amigas? Eu respondo pra você. Só a mente maluca da minha mãe que tem. Que acha que tem, na verdade.
Como eu já tinha tomado banho, apenas jogo as minhas coisas na minha mesinha de apoio e me jogo na cama. Pego meu notebook e resolvo alimentar minhas redes sociais com os registros desse final de semana.
Aproveito e mando um e-mail para todos os professores que perdi alguma avaliação importante solicitando uma segunda chance para não ficar sem nota. Cruzo os dedos e torço para que eles aceitem ou acabarei reprovando em algumas matérias.
Mando um e-mail também para a insuportável da representante de sala solicitando que me recoloque nos grupos da turma. Para a infelicidade dela, eu estou de volta.
Ouço meu celular tocando de dentro da bolsa e corro para achá-lo e consequentemente atendê-lo. Vejo que é Rafael. Esse ama ouvir minha voz.
–– Acho que você gostou da minha voz pelo telefone.
–– Não seja engraçadinha em hora inoportuna, Maria Isis. Estou com uma ressaca infeliz e não há remédio que me ajude. –– Senti vontade de perguntar o que eu tenho a ver com isso, mas ele iria ficar ainda mais estressadinho. –– Liguei para saber que horas você sai para a faculdade. Preciso conciliar com meus horários.
–– Você não precisa me levar, Rafael. Não há problema algum em pegar um carro ou ir de ônibus.
–– Já avisei que irei. Quero o horário, Isis. Mande por mensagem a hora que eu passarei para te buscar. Já está em casa? –– Confirmo com um murmúrio. –– Ótimo. Depois falaremos sobre essas suas saídas.
Quando eu iria retrucar, ele encerra a chamada. Nem irei narrar a quantidade de palavrões que falei enquanto encarava o celular. Pobre aparelho, levou toda a culpa.
Depois que a recepção da minha mãe acabou, resolvi descer um pouco. Meu pai estava sentado, tomando uma dose do seu whisky favorito. Sentei ao seu lado e permanecemos em silêncio por vários minutos.
–– O senhor está bem?
–– Não muito. Minha filha simplesmente ignorou um pedido bobo que seu pai fez sem mais nem menos. Depois de tudo que eu já fiz por ela...
–– Pai... Não faz assim. O senhor não pode continuar apostando. –– Suspiro. –– Aceite ir para uma clínica. Se não fizer isso vamos viver dependentes daquela família.
–– Eu não estou doente, Maria Isis. Que saco! –– Ele levanta e vai colocar mais bebida no seu copo. –– Posso plenamente reerguer a construtora e cuidar da minha família. O que me ocorreu foi uma jogada de má sorte onde Cristóvão se aproveitou dela para se associar a nossa família. Mas eu irei dar um jeito nisso. Não se preocupe.
–– Eu gostava mais quando o senhor prometia as coisas enquanto olhava nos meus olhos, pai. Com licença.
Sigo até a cozinha para pegar alguma coisa para beliscar. Eu amo pão com geléia de maçã por essas horas. Não demora nada e minha mãe aparece e se serve da mesma coisa que eu.
–– Você está cansada não é, filha? Dos pais fúteis e insensíveis que somos?
–– Para com isso, mãe.
–– Queria que você tivesse tido a chance de ter pais mais amorosos e cuidadosos. Eu e o Heitor somos horríveis. Eu sei disso.
–– Não, mãe! Para! –– Largo o pão no prato, aborrecida com o rumo da conversa. –– Vocês têm muitos defeitos, como qualquer outro ser humano. Mas são os meus pais. Eu amo muito vocês e sou capaz de qualquer coisa para vê-los felizes. Eu sei que você é feliz por ser rica, comprar várias roupas caras e fazer viagens internacionais. Sei que o papai é feliz com a empresa e tudo que veio com ela. Eu seria uma péssima filha se permitisse o sofrimento de vocês ao terem que ver tudo isso se acabar.
–– Isis...
–– Acabou esse assunto, mãe. Eu só quero que a vida de vocês seja feliz e confortável. Não importa o preço que precise ser pago por mim. Eu pagarei feliz. –– Tento não chorar. –– Agora vamos comer que eu estava com saudades dessa geléia.
Sei que ela gostaria de continuar falando sobre isso, mas só nos machucaria ainda mais. Não há a opção de retroceder. Meu pai nos afundou em muitas dívidas e para não sermos largados na rua da amargura eu topei toda essa loucura.
Não posso ser hipócrita e dizer que meus pais são os pais mais incríveis e maravilhosos que qualquer filho amaria ter. Eles erraram e continuam errando em muitas coisas, mas são os meus pais.
Sei que fizeram sempre o melhor por mim e eu não poderia oferecer ingratidão perante tudo isso. Caso com quem for, mas não deixo meus pais sofrerem. Eu não desistirei nunca deles. Anulo minha vida facilmente, sem pestanejar.
Após lancharmos, me despedi da minha mãe e voltei para o quarto. Organizei minhas coisas, mandei a mensagem para Rafael e depois tratei de ir dormir. Amanhã estarei de volta ao local de onde eu nunca quis me afastar; a faculdade.
Assim que acordei, tomei um belíssimo banho regado à minha magnífica voz de taquara rachada cantarolante. Eu estava muito feliz.
Coloquei um jeans escuro, escolhi uma blusa duas medidas acima do que uso e óculos escuros. Hoje quero aparecer bem comportada, já que é meu retorno. Prendo o cabelo em forma de rabo de cavalo e coloco minhas argolas favoritas. Ah, não esquecendo do tênis.
Devidamente pronta, pego todas as minhas coisas e saio de casa. Rafael já me aguardava em frente do portão principal.
–– Cinco minutos atrasada, Isis. –– Ele olha no relógio e depois para mim. –– Muito bom dia.
–– Bom dia, Rafael. –– Entro no carro e passo o cinto. –– Melhor da ressaca? –– Ele assente. –– Vejo que os nós do seu punho estão machucados. Andou brigando ou esmurrando paredes?
–– Isso não foi nada. –– Desvia o olhar de mim enquanto dirige. –– Estamos indo para um ambiente público, então aja como combinado. Não preciso ficar relembrando isso toda vez, não é?
–– Não, não precisa. As vezes sinto que você gosta dessa palhaçada toda.
Ele apenas sorri. Passamos em uma cafeteria e ele comprou dois copos de café para nós. Agradeci e depois seguimos para a faculdade.
De longe eu já conseguia ver a grande movimentação de estudantes pela área do campus. Que saudade disso!
–– Eu já quitei toda dívida que você tinha no curso. –– Rafael estaciona bem perto do portão principal, onde o fluxo de alunos é bem maior. Tava na cara que era intencional. –– Seus olhos estão brilhando. Isso é o que realmente você quer pra sua vida?
–– Não tenha dúvidas. –– Removo o cinto e abro a porta do carro. –– Obrigada.
Assim que saio do carro, Rafael também sai. O que esse maluco quer? Noto que Suze vem se aproximando, então suavizo a minha expressão facial.
–– Oi, Isis. Oi, Rafael. –– Assim que está perto, Suze nos cumprimenta e nós retribuímos em uníssono. –– Você veio com ele? –– Assinto. –– Ok, estou te esperando ali. Não demora. Tchau, Rafael.
–– Até mais, Suze. –– Quando ela se afasta, ele sorri diabolicamente para mim. –– Hora de se despedir adequadamente do seu futuro marido.
–– Você é uma cruz, Rafael. Urgh!
Ando até ele, passo os braços ao redor do seu pescoço e aproximo nossos lábios. Nosso beijo foi finalizado com alguns selinhos, coisa de casal mesmo.
–– Tchau, idiota. Ops, meu bem.
–– Manda mensagem quando largar. Vou te levar para almoçar comigo.
Ele pisca um olho e manda beijo, todo debochado. Sinto vontade de ralar essa cara bonita todinha no asfalto. Cretino!
Dei as costas e segui até Suze, que me esperava com a maior cara de descrença. Segurei no seu braço e tratei de puxá-la para nosso departamento. Logo a primeira aula iria começar.
–– Pouco mais de uma semana que se viram pela primeira vez e vocês já estão quase namorando. Que... rápido! –– Exclama. –– Amiga, isso não está me cheirando a coisa boa.
–– Fica tranquila. A gente tá se curtindo. –– Dou de ombros. –– Deixa rolar. Fica neurótica não, pelo amor de Deus.
Fomos ao banheiro retocar o batom e depois seguimos para a sala. O professor Guilherme, da disciplina de design têxtil, já estava em sala preparando seu material para o início da aula.
–– Senti sua falta, Maria Isis. –– Ele sorri e eu fico molinha com a beleza desse homem. –– Recebi seu e-mail e irei preparar uma nova avaliação pra você.
–– Que bom, professor. Fico muito grata. O senhor não vai se arrepender. Prometo.
–– Tenho certeza disso.
Procurei o local onde eu costumava sentar, mas já vi que uma outra pessoa já se apossou dele. Segui Suzane para outro lugar, mais no meio da sala.
–– Essa Catarina só falta ir no cartório e pedir pra trocarem o nome dela para o meu. Que garotinha invejosa! Sentou no mesmo lugar que eu sentava...
–– Reaprenda a ignorá-la porque se não você vai acabar saindo no tapa com essa doida. Agora vamos focar na aula desse gostoso, quer dizer, talentoso professor.
Caímos na risada, mas logo nos controlamos. O professor fez questão de demonstrar seu contentamento em voz alta pelo meu retorno e quase toda a sala veio me cumprimentar.
Dei a desculpa de que não estava bem comigo mesma, mas que recoloquei a cabeça no lugar e resolvi prosseguir com a minha vida. Depois de falar sobre como isso é normal entre os jovens, o professor iniciou sua aula.
Eu só conseguia pensar no quão bom é estar de volta. Mesmo que agora com uma realidade bem diferente da que eu imaginei para mim. Mas... Pouco importa. Vou levando a vida como der, como puder. Pensar demais agora só vai me fazer entrar em sofrimento por antecedência. Melhor focar no professor. Quer dizer, na aula dele.
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Atualizado até capítulo 64
Comments
Dulce Tavares
o Rafael não vai gostar do professor gostoso
2023-12-13
2
Marcia Santos
Acho que o Rafael já está apaixonado pela Maria Isis
2023-10-02
2
Tania Cassia
coitada da Maria yis
2023-08-18
0