Eu tinha chegado na casa de Suze não fazia nem vinte minutos. Os pais dela tinham ido passar o final de semana em um resort e ela pediu que eu dormisse lá.
Liguei para minha mãe avisando que só voltaria para casa no domingo. Ela apenas pediu para eu ter juízo. Coisa de mãe.
Eu não sabia o motivo, mas eu estava morrendo de vergonha. Suze deve estar pensando que eu estou caidinha pelo Rafael e é simplesmente uma droga não poder dizer a verdade. Preciso barganhar com ele isso futuramente.
–– Cadê o Maurinho? –– Questiono enquanto pintava as unhas dos pés. –– Ele ainda está bravo comigo?
–– Tão bravo que resolveu ir até o Rafael conversar com ele. –– Debocha. –– Não sei que xana poderosa é essa que você tem, amiga.
–– Não brinca com isso, louca. Ele foi procurar o Rafael? Que doido! Eu sempre deixei claro que sempre seríamos amigos. Seu irmão é perturbado?
–– Eu sempre disse que ele é gamado em você. –– Dá de ombros. –– Só você que paga de doida e finge não perceber. Maurinho vive te cercando, querendo uma chance de ficar com você, Isis. Era óbvio que quando ele visse as fotos ele iria procurar o Rafael, que é amigo dele e já deve ter ouvido Maurinho dizer milhões de vezes que você é o sonho de consumo dele. Ah, eles que se entendam. Não se preocupa que isso dá rugas.
Como não me preocupar?
Termino de pintar as unhas, pego meu celular e mando uma mensagem para Rafael perguntando se Maurinho o procurou. Ele confirma e diz que está de frente pra ele. Despede-se de mim e avisa que conversa comigo depois.
–– Maurinho está com ele agora. –– Acabo pensando mais alto do que eu gostaria.
–– Isso aí tá tão sério assim já? Ele te passa o paradeiro e tudo? –– Faço careta e ela ri. –– Amiga, sai fora dessa roubada de amor. Você viu o que sofreu com o Derik.
–– Só estamos ficando, maluca. Para de fantasiar! Que mané amor...
Quando deu a hora do almoço, Maurinho apareceu na sala com uma expressão terrível e um humor do cão. Sei disso porque ele esbarrou em algum vaso, que se quebrou, pelo caminho e veio até nós xingando horrores.
–– Tudo bem, Isis? –– Apenas assinto. –– Depois podemos conversar?
–– Claro.
–– Ok. Vou subir e tomar um banho. Depois te procuro.
Ele bate na cabeça de Suze, que o chama de vários nomes engraçados, e depois some. Suze me olha da mesma forma que eu olho para ela; sem entender nada.
Terminamos de almoçar eram quase 14h30. Suze pediu um tempo para organizar umas coisas no seu notebook antes de batermos um papo. Resolvi deixá-la a vontade no quarto e fui dar uma volta pelos arredores da piscina. Estava um dia maravilhoso.
–– Estava te procurando. –– Maurinho aparece atrás de mim. –– Está com um tempinho?
–– Por que você está tão formal comigo, Maurinho? Ah, para disso! Diz aí.
–– Eu fui atrás do Rafael agora pela manhã. –– Cruza os braços. –– Fui perguntar pra ele o que estava rolando entre vocês. De verdade. –– Suspiro enquanto ele não tira os olhos de mim. –– Ele me disse que vocês ficaram na festa e que você pediu o número dele pra marcar algo depois. Daí saíram ontem e acabaram sendo fotografados. Mas não existe nada oficialmente entre vocês.
Aquele babaca só podia colocar a culpa em cima de mim mesmo... É um idiota completo mesmo!
–– Eu não estou entendendo o motivo de você ter ido atrás do Rafael sendo que não te dei abertura pra se meter assim na minha vida. –– Empurro o dedo indicador no peito dele. –– Somos amigos, Maurinho. Ou somos mais que isso e eu não estava sabendo?
–– Você finge que não vê não é, Maria Isis? Porque não é possível que você não tenha notado que eu sou amarradão na tua. –– Sua última frase me desarma e eu mudo de irritada para compadecida. –– Você nunca quis me dar uma chance e eu tive que tentar me acostumar em ser seu amigo. Mas não é tão fácil assim.
Maurinho sempre soltou gracinhas em minha direção. Sempre me chamou de sonho de consumo, musa da sua vida, dona dos seus pensamentos. Essas coisas assim.
Mas eu nunca dei importância para isso porque eu o vejo da mesma forma que vejo Suze. Pra mim ele é um amigo/irmão. E talvez tenha sido isso que me cegou parcialmente.
Maurinho brigou feio com Derik quando soube o que ele fez comigo. Até hoje Derik muda de calçada quando o vê. Ele sempre tomou minhas dores e eu achava bom ter um irmão mais velho que me protegia. Mas era só isso. Era apenas isso que eu pensava.
Hoje eu começo a enxergar nitidamente que ele me enxerga realmente como mulher. E isso me dói porque eu realmente o considero como irmão e não quero que isso mude.
–– Olha, Maurinho... Sério, eu gosto muito de você, mas como um irmão, sabe? Um amigão que é irritante e ao mesmo tempo protetor. –– Olho dentro do seus olhos verdes-escuro. –– Você não pode se intrometer na minha vida assim. Eu que escolho quem eu devo me relacionar e o tipo de relacionamento que eu quero ter. Não faça mais isso. Eu gosto muito de você para ter que me afastar.
Ele assente e depois me pede um abraço para selar nossa amizade. Eu, ele e Suze somos um trio e tanto. Claro que eu e Suze somos mais apegadas. Mas ele é o nosso protetor.
Não posso negar que ele é um gato. Esses olhos, esses cabelos, esses braços... Mas não é para o meu bico. Prefiro sua amizade.
Ele pede para tirar uma foto da gente para colocar em suas redes sociais. Subo nas suas costas e ele tira uma selfie.
–– Nada de climão viu?
–– Pode deixar, Isis.
Sentei em um dos sofás da área externa e ele deitou a cabeça no meu colo. Do nada ele começou a contar da conversa que teve com Rafael.
Foi uma típica conversa de irmão mais velho e bem ciumento que acabou de descobrir que a irmãzinha tem namorado. Eu me acabava de rir cada vez que ele me dizia como foi esquisita essa conversa.
Suze apareceu e se juntou a nós. Ficamos a tarde inteira na área da piscina. Quando anoiteceu, Suze pediu para ligar o aquecedor da piscina e todos caímos na água.
Claro, isso rendeu muitas fotos divertidas. Maurinho fez vários boomerangs embaixo d'água. Eu me diverti horrores. Foi muito bom.
Assim que voltei para o quarto, notei que o visor do meu celular estava aceso. Várias ligações perdidas de Rafael. Como eu estava sozinha resolvi retornar.
–– Oi, Rafael.
–– Oi? Oi, Maria Isis? Você não viu o tanto que liguei? Onde você está?
–– Não vai bancar o controlador. Eu já vou fazer tudo que você quer. Não vem bancar o maluco, garoto. Não enche!
–– Eu vi que você está com o Maurinho, tomando banho de piscina, tirando foto nas costas dele... Garota, você é maluca? Vamos assumir relacionamento em breve e eu já estou passando por corno? Maurinho gosta de você, Isis, de verdade. Ele mesmo me disse.
–– Eu sei. O que é que tem? Você acha que ninguém gosta de mim? Acostume-se, querido. Não é só o Maurinho, não. –– Sorrio. –– Preciso desligar. Vou assistir filme com meus amigos. Maurinho mandou um abraço. Tchau.
Encerro a ligação e gargalho alto. Como eu sou maluca! Que merda eu fiz? Ele vai ficar putasso comigo.
Dou de ombros ignorando qualquer pensamento relacionado ao Rafael, me arrumei e voltei para meus amigos. O jantar estava sendo servido, mas só encontrei Suze me esperando.
–– Onde está o Maurinho?
–– Avisou que os garotos marcaram de beber em cima da hora. Já sabe como é a convocação desses machos né? Desejei boa sorte a ele.
Algo dentro de mim insistia de que essa ideia maluca tenha partido do Rafael. Controlo a vontade de gargalhar mais uma vez. Se ele pensa que vai me enlouquecer facilmente, sinto muito avisar que eu também o enlouquecerei. Dois loucos é bem melhor que um.
–– Você está esquisita, Isis. –– Suze me tira dos meus devaneios. –– Tem algo que esteja me escondendo?
Eu já mencionei que Suze é um pouco sensitiva? Eu fico impressionada a cada vez que ela faz isso. Não consigo acostumar.
Infelizmente, não posso abrir o jogo. Preciso continuar fazendo todos acreditarem que esse lance com o Rafael aconteceu naturalmente. Ai de mim e da minha família se eu não colaborar!
–– Tudo bem, tudo bem... Você venceu. –– Ergo as mãos para cima, como se estivesse sendo rendida. –– Tem algo que estou escondendo.
–– Eu sabia. –– Dá de ombros. –– Fala logo que eu odeio segredos. Você sabe.
–– Era surpresa, mas... Vou voltar a frequentar o curso. –– Falo a última frase bem rápido. Suze pula da cadeira e vem me abraçar. –– Ai, sua doida! Está me esmagando, Suze!
–– Não sei controlar a felicidade que estou sentindo agora. Me dá um desconto, sua insensível. –– Volto a respirar melhor assim que ela me larga e volta para seu lugar. –– Pelo visto, as coisas na sua casa estão começando a se resolver né?
Enquanto jantávamos, conversamos um pouco sobre a minha situação atual. Tive que inventar que a empresa do meu pai está começando a se reerguer lentamente. Falei que houve um investimento de um sócio que ajudou a pagar algumas contas, mas que a perspectiva para o futuro é boa e logo não precisaremos mais preocupar-nos.
Suze, como é de se esperar, ficou feliz com a novidade. Nossa amizade foi um presentão que a vida me deu. A única coisa que me preocupa é que mentira, como diz o ditado popular, tem perna curta. Uma hora ou outra ela poderá descobrir e eu estarei frita. Não sei se ela me perdoará.
Depois da sobremesa, subimos para o quarto e ela deu a ideia de me passar os assuntos mais complexos que eu perdi no curso. Tipo um resumão, mais ou menos isso. Foi mega divertido porque além de explicar super bem, ela também imitava os trejeitos dos professores que lecionavam a matéria.
Quase perto da meia-noite, resolvemos dormir. Suze dorme muito rápido, então acabei ficando sozinha. Encarei o teto por muito tempo antes de criar coragem e dar uma volta.
Normalmente eu vou até a cozinha, sirvo-me de um copo com água e volto para a cama. Mas hoje eu quis ir até a sala e sentar no sofá. Fiquei encarando alguns quadros que decoravam o ambiente, perguntando-me o que se passava na mente dos artistas para pintar dessa forma.
Mas esse pensamento logo foi ultrapassado por um outro bem perigoso: como vou viver um casamento de mentira se a convivência terá que ser real?
Não sou boba, sei que ele é bonito, charmoso, tem aquele toque de cafajeste que eu amo e tem senso de humor. Além de aparentar ser muito bom de cama. Como que resiste?
O que me conforta é que eu sei que ele não presta. É um mentiroso, manipulador, controlador e falso. Tentarei sempre lembrar disso quando a tentação vier.
Falando no diabo...
Meu celular começa a tocar e o nome dele pisca insistentemente na tela. Respiro fundo e resolvo atender.
–– O que você quer a essa hora, Rafael? Eu estou dormindo.
–– Se estivesse mesmo não tinha atendido, boba. –– E ri. Ele está bêbado? –– Só liguei pra dizer que vou te levar no curso. Preciso... Ver você.
–– Me ver?
–– Não, ser visto com você. Me compliquei. Volte a dormir, garotinha. Está tarde.
Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, ele desliga. Fico encarando o aparelho tentando entender o que foi que acabou de acontecer aqui.
Bebo água e depois volto para o quarto. Melhor dormir para não ter que ficar fantasiando porcaria.
Quando eu já estava quase cochilando, meu celular avisa que chegou uma mensagem. Meu maldito cérebro curioso não me permite ignorar, então resolvo visualizar a mensagem.
^^^Desculpe, tive que ligar para bancar o preocupado com você perante meus amigos. Até segunda-feira, garotinha.^^^
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 64
Comments
Aureca's
Que mentira kkkkk tá caidinho de amor por ela já kkkkkk.
2024-08-31
1
Verônica Soares
😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂
2024-04-02
2