.4.

Como o momento na fogueira iria ser algo menos agitado, optei por vestir algo leve. Um conjunto de moletom já estava mais do que perfeito. Todos estavam mais ou menos assim.

Apesar da noite estar fria, a fogueira e a expectativa do que essa noite reserva nos aquecia. Passei o final de tarde todo trocando informações com Suze sobre a festa. Suze tinha beijado oito pessoas, inclusive duas delas foram mulheres.

Eu morro, mas não vejo tudo. Essa garota é simplesmente impossível.

Estávamos jogadas em cima de imensos travesseiros, vendo uns posts sobre moda e sorrindo. Vários grupinhos foram formados, apenas nós éramos uma dupla.

–– Poderíamos jogar o típico jogo adolescente de verdade ou consequência. –– O idiota do Maurinho sugere.

Quando vi geral topando, não acreditei. Sério mesmo? Isso não vai dar bom. Não mesmo. Nunca dá.

Pediram para trazer algumas bebidas e petiscos para animar. Saímos do entorno da fogueira e refizemos o círculo ao lado, com o meio livre para a garrafa girar.

Nem todo mundo quis brincar. Até porque algumas pessoas optaram por curtir o local com seus parceiros e outros tiveram receio em participar. Suze jamais iria me deixar arregar.

Assim que a brincadeira foi sugerida, logo nos entreolhamos e ela sussurrou que eu iria de todo jeito. Ai de mim se me recusar!

Maurinho, o idealizador dessa loucura, ficou responsável pela primeira rodada. Ditou em voz alta as regras e desejou boa sorte aos participantes. É um palhaço mesmo!

Antes da primeira rodada era obrigatório uma dose de cachaça artesanal com limão. Todos viraram os copos sob o olhar animado dos que apenas assistiam.

Assim que Maurinho girou a garrafa, o gargalo dela parou apontado para Nathan. Geral fez clima de suspense enquanto ele apenas sorria em excitação.

–– Verdade ou consequência?

–– Vamos de verdade.

–– Você já teve qualquer lance com outro homem?

Foi extremamente engraçado quando todos os olhares voltaram-se para Nathan. Sem graça, ele coçou a nuca.

–– Já fiquei uma vez só. Não curti.

O burburinho que essa resposta causou fez Suze me olhar com cara de que pretendia ter uma conversa sozinha com Nathan. Ela é assim; acha atrativo essas coisas que acontecem com as pessoas. Eu hein!

Nathan girou a garrafa e parou numa tal de Carolzinha. A mesma aceitou consequência e então desafiaram a garota a ficar de calcinha.

Gargalhei horrores com os meninos tentando murmurar uma música sensual enquanto a garota tirava a calça.

Olhei de relance para o Rafael e ele era o mais retraído. Apesar de estar na cara que ele curte essas putarias todas.

O jogo foi ficando interessante e vez ou outra tínhamos que emborcar uma dose. Acabei descobrindo que Suze não curte sexo anal, apesar de liberar as vezes, quando está de bom humor.

Ícaro perdeu a virgindade com 14 anos numa visita que fez ao amigo. A primeira mulher dele foi a irmã desse amigo, que tinha por volta de uns 17 anos.

Gabi já experimentou dupla penetração, mas não era algo a repetir sempre. Prefere o casual mesmo, segundo ela.

Maurinho já pegou mãe e filha tendo o azar das duas descobrirem e quase o matarem por isso. Suze teve uma crise de riso quando ouviu isso.

Eu já estava feliz pensando que essa garrafa jamais pararia em mim quando o bico dela parou exatamente em minha direção. Quem tinha acabado de girá-la era Bruno, um colega de Maurinho.

–– Verdade ou consequência?

Diante da pergunta dele eu me vi duvidando do que responder. Eu sei que a brincadeira era algo pra ser divertido, mas se me perguntassem algo sobre minha família? Eu estaria frita porque se mentisse eles logo descobririam e eu iria sair como a mentirosa do rolê. O jeito era aceitar uma consequência qualquer.

–– Consequência.

O olhar de Bruno automaticamente mudou. Ele olhou em volta, talvez pensando na grande bosta que ele iria inventar, e depois voltou a me olhar.

–– Escolhe alguém do círculo e dê aquele beijaço de cinema. Não vale beijo técnico hein?

Eu sabia que quando tem essas brincadeiras e machos extremamente escravos dos hormônios só dá em merda. Mas ok, eu aceitei consequência. Preciso cumprir.

Olhei para cada um da roda, tentando achar uma boa opção para que não soasse um desespero meu em escolher qualquer um. Queria escolher com mais calma. Porém, todos estavam esperando.

Eu poderia muito bem beijar o Rafa. Ele foi o único cara que fiquei, porém ele iria se achar a última bolacha do pacote e eu odeio dar biscoito a macho abusado.

Eu não estava a fim de ficar com mais ninguém, então tive que decidir beijar minha amiga mesmo. O máximo que já fizemos foi dar um selinho, mas um beijão não vai enfraquecer nossa amizade. Não curto mulher, mas também não quero esses machos da roda.

–– Desculpe, amiga.

Sussurro antes de beijar sua boca. Os gritos e assobios quase me deixaram surda. Nosso beijo não chegou nem perto de um beijaço de respeito, mas pelo visto agradou a macharada adolescente.

–– Véi, eu não precisava ver o meu sonho de consumo pegando minha irmã. –– O dramático Maurinho ataca novamente. –– Eu não posso achar isso excitante! Não posso!

Todos caem na gargalhada, menos Rafael. Ele estava sério, encarando a grama rasteira. Será que ele pensou que eu iria deitar pra ele?

Não foi ele que ontem me disse que só pretendia ficar comigo e depois ficou com Amanda? Ele que chupe essa!

Peguei a garrafa e girei. Por obra do destino, a premiada foi Amanda. Ela fez ceninha de empolgada e ficou me encarando enquanto eu esperava o pessoal se calar.

–– Verdade ou consequência?

–– Verdade, claro. Sou um bebê.

–– Quem dessa roda você já ficou? Aponta ou diz os nomes.

Ela engoliu seco assim que terminei a pergunta. Olhei de relance para a amiga dela, Gabi, e a mesma também ficou esquisita repentinamente.

–– É pra hoje, amore. –– Maurinho agita. –– Eu sou um, digo logo pra agilizar.

–– Maurinho, Ícaro e... –– Ela olha para Rafael que franze o cenho. –– O Rafa.

–– Eu, Amanda? –– Rebate ele. –– Você sabe que aquela cena de ontem foi patética. Eu já disse que te considero como uma irmã. Não tinha nada que você se tirar em mim, bêbada ou não. Não me inclui nessa lista. Nunca ficamos, Amanda. Não paga de maluca.

Todo mundo ficou em silêncio. Ninguém sabia o que falar porque o clima pesou real. Amanda levantou e saiu da roda pisando duro. A amiga seguiu ela.

A brincadeira acabou, mas como bom agitador, Maurinho propôs outra. A brincadeira do "eu nunca".

Com duas jogadoras a menos o círculo ficou mais fechado. Enquanto traziam mais bebidas para a brincadeira começar, cochichei para Suze o quanto a Amanda é piranha. Fez a cabeça da amiga pra ela vir fazer fuxico pra mim. Que mulher louca!

Até onde sei ele é solteiro e faz da vida o que quiser. Que tipo de amiga é essa que fica se certificando de afastar as mulheres que se envolve com ele? Cheirinho de amor possessivo não correspondido. Tô fora!

A brincadeira era pra deixar todos levemente alcoolizados já que as perguntas iniciais foram bem gerais e todo mundo emborcava o copo.

"Eu nunca senti atração por pessoa do mesmo sexo."

Um gole.

"Eu nunca menti pra não ter que ficar com determinada pessoa."

Outro gole.

"Eu nunca tive algum fetiche com professor ou professora."

Tenho até hoje. Mais um gole.

Chegou um momento em que se eu continuasse não iria conseguir me levantar. Avisei que iria parar e fui com Suze até o banheiro. Eu precisava lavar o rosto. Estava ardendo.

–– Estava esperando o momento certo para dizer, mas acho que tô apaixonada no seu beijo. Que lábios macios, Isis! Vamos repetir? Vem aqui, me dá uma bitoquinha, sua gostosona.

–– Sai, Suze. Deixa de ser palhaça. Tá pegando a doença do Maurinho é?

Ficamos um tempo de brincadeira no banheiro até Amanda e seu papagaio de pirata surgir. O clima morgou. Tratei de fazer xixi, lavar as mãos e saí. As duas não deram um pio. E fizeram bem não dá.

Foram desmascaradas na frente de geral. Qualquer coisa que ousarem falar ou fazer vai virar chacota.

Nathan chamou Suze para uma conversa a sós e a descarada aceitou. Como essa mulher consegue?

Resolvi que não iria beber mais nada com álcool. Peguei um espeto, coloquei alguns marshmallows e me aproximei da fogueira.

–– Jurava que era a mim que você iria beijar. Preferiu a amiga. Me senti ofendido, Isis.

–– Ah... –– Tento não fazer contato visual. –– Era a oportunidade perfeita para beijá-la sem que ela rejeitasse.

–– Não convenceu. –– Ri. –– Mas agora é uma oportunidade perfeita para darmos uma volta enquanto você aproveita seus marshmallows. Vamos?

Saber que ele não ficou com Amanda depois de ter me dito aquilo me deu um certo alívio. Eu realmente tinha pensado que ele era um safado que mete o papo ilusório pra conseguir conquistar uma mulher.

Enquanto comia, ele falava um pouco sobre a brincadeira e revelou que estava me observando. Segundo ele, eu sou muito expressiva. Tava na cara o quanto eu não queria participar.

–– Se tivesse caído de mim pra você seria perfeito.

–– Por quê?

–– Porque sua consequência seria beijar minha boca. –– Gargalho com a sinceridade dele. –– Acha que é tarde demais pra mim?

Tomei a iniciativa e beijei sua boca. Eu estava querendo mesmo...

Passei os braços ao redor do seu pescoço a fim de termos mais contato físico. Seus lábios são tão grossos e tão macios. Juro que não quero me afastar do seu beijo, mas é o que acabo fazendo.

–– O que foi? –– Ele ainda me dá um selinho ansiando que eu continue o beijando. –– Alguma coisa aconteceu?

–– Não, não. É que... –– Afasto-me e olho para o local da fogueira. –– Acho que já está tarde. Vou voltar para o quarto. Amanhã cedo irei embora.

–– Tenho certeza que sua amiga não está tão preocupada com o horário que vocês vão ir embora amanhã. –– Olho na direção que ele está olhando e vejo Suze quase transando com Nathan em uma parte mais escura do local. Acabei rindo. –– Quer ir para um local mais reservado?

Eu sei o que esse convite significa e sabe o quê mais? Eu topei. Estou precisando relaxar mesmo. Suze divertiu-se horrores desde que chegamos, mas eu fiquei travada. Não sou uma Suze, mas costumo me divertir bastante.

Odeio ainda estar tão preocupada com minha família. É nítido que eles estão nem aí pra mim. Se eu morresse hoje provavelmente só saberiam quando só restassem meus ossos.

–– Você está tensa. –– A voz de Rafa me tira dos meus devaneios. Estamos no seu quarto, mas eu estou na janela, olhando o tempo lá fora. –– Quer conversar?

–– Desculpa, Rafa. –– Sorrio fraco.  –– Não estou lá na minha melhor fase. Sem clima mesmo, desculpa. Minha vida tá uma droga, mas você não tem que ficar ouvindo sobre os meus problemas. Tem whisky?

–– Ok, então vamos beber pra desestressar.

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Comments

Aureca's

Aureca's

menina cuidado pra não cair na rede dele!

2024-08-30

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