A semana passou voando e acabou sendo marcada por alguns episódios. Na quarta-feira, Maurinho foi me ver na faculdade. Contou que soube pelo Rafael o que Derik tinha me feito, mas me jurou que sentiu-se vingado ao ver a foto do estado que ficou a cara dele.
Odeio meter meus amigos em roubadas e colocar Maurinho em uma por minha culpa estava fora de cogitação. Maurinho ainda teve a audácia de dizer que se tivesse sido ele no lugar de Rafael ele não teria deixado Derik em paz antes de arrancar todos os dentes da frente dele.
Fiz uma expressão horrorizada e o idiota caiu na risada. Não sei qual o problema dos homens que me cercam. Quase todos são uns ogros, respiram agressividade.
Na quinta-feira, Rafael mandou uma bela quantia e pediu que eu comprasse um vestido de gala. Ainda sugeriu a cor; vermelho. Mas era nítido que o valor que ele tinha enviado era suficiente para comprar mais de quatro vestidos nesse estilo. Aproveitei e comprei vários acessórios e sapatos. Estava precisando distrair.
Quando disse a Suze que iria passar o final de semana em uma das propriedades dele, minha amiga fez uma expressão altamente pervertida. Não tinha como eu dizer que iria passar três dias na casa dele apenas conversando. Ela deveria pensar livremente o que estava pensando.
Mas mal sabia ela que nada disso iria acontecer. Do Rafael eu quero é distância. Essa saída é puramente cheia de intenções falsas. Apenas precisamos que acreditem que estamos nos conhecendo melhor. Forçar veracidade nessa relação.
Na quarta-feira e na quinta-feira, à noite, recebi mais três ligações de número desconhecido. Eu já estava ficando irritada com isso. Sempre quando eu atendo, seja lá quem está do outro lado fica apenas ouvindo a minha voz. Um saco!
Na sexta-feira, o dia tinha amanhecido chuvoso. Eu me forcei a ir à faculdade porque tinha que fazer uma avaliação do professor Guilherme e duas da professora Evandra.
Toda a turma tinha sido dispensada para estudar para uma prova complicada e muito importante que teríamos na semana que vem. Seria ofertado duas vagas para estagiar por seis meses em Paris no ateliê de um dos maiores nomes da moda francesa.
Como eu só tinha três avaliações para fazer, optei por usar uma bolsa menor, portando apenas meus objetos necessários. Hoje escolhi usar short e camisa moletom. Na verdade mesmo é que eu estava sem tempo para remodelar algumas peças do meu guarda-roupa. Eu amo fazer isso, mas os últimos acontecimentos da minha vida me roubaram o gosto e a paciência para tal coisa.
Cheguei na sala, sentei e aguardei um dos dois professores chegar. Na noite anterior, avisei ao Rafael que só tinha essas avaliações e depois poderíamos seguir para o tal lugar que iremos. Ele apenas respondeu que avisaria se desse para me buscar no curso.
Quase vinte minutos depois, o professor Guilherme surge com sua costumeira pasta azul nas mãos. Agora eu sabia exatamente o que tinha nela; minha sentença de morte. Brincadeiras à parte, eu não estava tão confiante. Mas aqui estou eu, pronta para me esforçar ao máximo.
–– Bom dia, Maria Isis. Hoje eu irei aplicar a minha avaliação e as duas da professora Evandra. Ela não pôde chegar porque foi acompanhar sua filha no médico. –– Ele deixa sua pasta em cima da mesa e caminha até mim. –– Está pronta para começar ou precisa de tempo?
Eu estava admirada com o profissionalismo do professor. Não tivemos nenhum contato desde a vez que ele me entregou seu número. Inclusive, acabei perdendo o papel.
–– Estou pronta, professor.
–– Ótimo! –– Ele volta a pegar a pasta e tira dela três folhas diferentes. –– A minha avaliação será a primeira. Você só pode entregar depois do tempo mínimo, que é trinta minutos. As avaliações da professora Evandra serão entregues juntas e você só poderá entregá-las depois do tempo mínimo de uma hora. Compreendeu? –– Assinto. –– Boa sorte, Maria Isis.
Enquanto eu respondia as questões que primeiramente eu considerava as mais fáceis, eu sentia o olhar analisador do professor em mim.
Não posso ser falsa e dizer que pensei com carinho na nossa conversa. Eu fui engolida por uma série de acontecimentos e me vi esquecendo desse episódio. Mas, olhando para ele agora, alto sussurra no meu ouvido que não é má ideia.
Eu, tecnicamente, ainda sou solteira. Não devo fidelidade a ninguém. E tenho certeza que mesmo com compromisso comigo, Rafael não será fiel a mim. Isso é fato.
–– Algum problema, Maria Isis?
Só então acabo me dando conta de que estava mordendo a tampa da caneta enquanto olhava fixamente para meu professor. Que tapada!
–– Não, professor. Está tudo bem.
Foco em primeiramente concluir as minhas avaliações. Depois resolvo essa questão com o professor Guilherme.
Ao findar as três avaliações, e sentindo uma dor de cabeça absurda, me dou o prazer de respirar aliviada. Enquanto eu estava fazendo as últimas duas, vi que o professor estava corrigindo a que fiz da disciplina dele.
Arrumei minhas coisas e aproximei-me dele. Ainda consegui ver ele escrevendo minha nota ao lado do cabeçalho. Acabo soltando um gritinho de alegria. Fico envergonhada pela atitude adolescente logo depois.
–– Eu nem acreditava que iria tirar uma nota tão boa quanto essa, professor.
–– Pois agora acredite. Você tirou 8,6. Eu nunca duvidei da sua capacidade de sempre me surpreender, Isis. –– Ele guarda todas as avaliações na sua pasta. –– Aproveitando o momento, tenho algo para lhe perguntar.
–– Eu sei exatamente o que o senhor vai me perguntar, professor. Nem se dê ao trabalho.
Pronunciei a última frase olhando diretamente para sua boca, usando o código universal de demonstrar interesse em ser beijada. Ele não demorou nada a entender. Puxou a minha cintura e grudou nossas bocas.
Imediatamente me suspendeu e colocou-me sentada na mesa de apoio. Seu beijo era gostoso, sabia exatamente o que fazer e como fazer. Sua mão entrou nos meus cabelos em sinal de desejo e possessão. Quando eu estava pronta para afastar-nos porque o ambiente não era para esse tipo de coisa, ouço uma voz grossa e nitidamente irritadiça:
–– O que merda você está fazendo, Maria Isis?
Nosso beijo foi cessado e nós dois olhamos assustados para a porta da sala. Rafael estava de braços cruzados, com uma expressão amarga e raivosa no rosto.
Desci apressadamente da mesa e ajeitei meus cabelos. Olhei para o professor, fiz uma cara de "ih, ferrou" e me aproximei de Rafael.
–– Quem é esse, Maria Isis? Seu namorado? –– Ah, professor... Por que tem que fazer perguntas difíceis?
–– E quem é você? Que eu saiba você não é pago para beijar alunas. –– Rafael tenta se aproximar dele, mas eu me coloco como barreira. –– O que te aconteceria se eu fosse fazer uma denúncia na reitoria?
–– Não se preocupe, professor. Ele não vai fazer isso. Vamos, Rafael. Vamos embora!
Consegui arrastar Rafael dali, mas assim que saímos da sala ele se defez do meu toque como se eu estivesse com lepra. Logo se dispôs a andar rapidamente na frente. Alcancei-o já perto do carro.
–– Posso perguntar por que você está bravo assim? Que eu saiba você me odeia, já deixou claro que não se importa comigo e sabe muito bem que nosso futuro relacionamento é pura fachada. Eu sou um prêmio, esqueceu?
–– Isso, Maria Isis. Você é o meu prêmio! –– Ele grita atraindo alguns olhares. –– E eu que dito as regras aqui. O que pensariam se pegassem você e ele se beijando dentro de uma sala? Como eu ficaria nessa história, já que todos imaginam que estamos nos conhecendo?
–– Ok, eu errei, reconheço. Mas ainda não justifica esse seu jeito descontrolado. –– Entramos no carro. –– Não vai dizer que você vai exigir fidelidade no nosso acordo? Porque se for eu não vou concordar.
–– Ah, não vai? Veremos. Veremos, baby.
Rafael dirige como louco até minha casa. Por diversas vezes gritei achando que esse idiota iria provocar um acidente. Não é possível que ele esteja aborrecido com o que viu. Com certeza alguma coisa aconteceu antes.
Enquanto eu tomava um banho, pedi que ele aguardasse na sala. Para minha sorte, Nita tinha feito minha mala. Eu só coloquei algumas coisas que julguei precisar e que ela não tinha lembrado.
De banho tomado, coloquei uma roupa bem fresquinha e concluí minha arrumação. Claro, coloquei botas nos pés. Não quero correr o risco de ficar atolada em algum lamaceiro por lá.
Assim que desci, meu pai e Rafael estavam encarando-se em um clima tenso e desconfortável. Assim que apareci, eles disfarçaram. Minha mãe tinha saído para o cabelereiro. É quase que sagrado as suas idas.
–– Pai, estou indo. Diz a mamãe que mandei um beijo e que não faça nenhuma loucura.
–– Cuide-se, Isis. E qualquer coisa é só ligar. Eu apareço o mais rápido que eu puder. –– Ele beija minha testa. –– Cuide da minha filha, rapaz.
–– Pode deixar, Heitor. Ela voltará inteira para você no domingo.
Rafael pega minha mala e carrega até seu carro. Dou tchau para Nita, que acena amavelmente da porta principal. Entro no carro e passo o cinto. Observo Rafael fazer o mesmo e rapidamente já estávamos em rumo ao haras.
Senti que Rafael estava evitando qualquer contato visual comigo. Como eu não sou obrigada a aturar criancice de seu ninguém, peguei meus fones e conectei no celular. Escolhi uma playlist de viagens de carro e mergulhei em meus pensamentos.
Ele tinha me dito que era mais perto que a Fazenda Paradise, então não iria demorar muito para que eu saísse desse ambiente sufocante que é o carro dele.
O cheiro dele está tão forte que chega a roubar minha capacidade de respirar direito. Sem contar que é altamente incômodo estar dentro do carro de alguém e esse alguém simplesmente fingir que você é invisível. Um saco!
–– Está com fome, Maria Isis? –– Sorrio ao me dar conta que o esquema dele de me ignorar o tempo todo não deu certo. Apenas assinto com a cabeça. –– Vou precisar abastecer. Você aproveita e escolhe alguma coisa na loja de conveniência do posto. Não vamos demorar mais que quarenta minutos para chegar lá. Então, não precisa fazer estoque de comida.
–– Você acha que eu sou gulosa?
–– Gorda desse jeito...
–– Gorda é a mãe, seu imbecil! –– Estapeio seu braço e ele ri. –– Vá, encoste logo nesse posto. Não aguento mais ficar muito tempo olhando pra essa sua cara azeda.
Enquanto Rafael abastecia, segui para a lojinha. Eu não estava com tanta fome assim, então comprei um pacote de salgadinho e algumas balas. Tenho o terrível defeito de que se eu me encher de porcaria acabo não fazendo as refeições direito. Melhor maneirar, então.
Quando iria pagar, Rafael aparece atrás de mim, coloca um energético junto com minhas coisas e paga a conta. Não agradeço e saio em rumo ao carro. Ele que se meteu e resolveu pagar. Apesar de que ele iria pagar de todo jeito. O dinheiro que tenho é dele mesmo. Que vida cruel...
–– Ei –– Paro de andar e olho para trás. –– Nem agradecer você sabe? Seu dinheiro limpo não comprou educação não?
–– Vá à merda, Rafael. Vamos, vamos logo. Estou ficando inquieta com essa viagem.
De volta ao caminho, Rafael resolveu ouvir música alta no carro pra me fazer deixar de ouvir nos fones. O cretino quando quer ser pé no saco ele é o melhor.
–– O que custa você ouvir em um volume mais baixo? Não cansa de ser implicante não?
–– Eu sei que você gosta do meu jeito, Maria Isis. Não negue. É pior. –– E, sem querer, eu acabo sorrindo. Pra quê, sua burra? –– Esse sorriso só confirma isso.
–– Rafael, somos que nem água e óleo. Nem sonhe que eu possa sentir alguma afinidade por você porque não vai rolar. Não mesmo. Nadinha.
Abro meu pacote de balas e enfio algumas na boca. E não é que esse delinquente começou a gritar em voz alta que eu era uma baleia gulosa? Até me senti mal por ter colocado sete balas de uma vez na boca. Normalmente coloco de oito pra cima, mas eu quis ser mais educada em sua frente.
Depois de um tempo, a conversa acabou. Ficamos em um silêncio incômodo e dava pra ver fumaça saindo da cabeça dele. O que tanto ele pensa?
–– Isis, agora é sério, o que você tem com aquele seu professor?
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Atualizado até capítulo 64
Comments
Marcia Santos
Está com ciúme da Maria Isis,e não quer dar o braço a torcer 🫢☺️
2023-10-03
4
Tania Cassia
está com pulga atrás da orelha 👂 👂 🤪
2023-08-18
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