O que deu em mim pra desabafar com um estranho ontem? Não sei, mas no momento me pareceu tão certo. A ideia de me abrir com alguém que jamais será do meu círculo de amizade me pareceu tão boa que eu não encontrei obstáculos.
Sei que a bebida me deu um empurrão, mas ontem eu me senti aliviada por falar. Hoje, de ressaca, já estou arrependida. Será que eu o importunei muito? Aff!
Maurinho aparece no quarto pedindo para não nos atrasarmos. Ele foi na frente já que está com o seu carro.
Do lado de fora, olhei uma última vez para aquele lugar tentando gravar alguns detalhes que passei desapercebida. Provavelmente não voltarei mais aqui. Principalmente depois de ter feito o Rafael de ouvinte das minhas lamúrias. Que mico!
–– Vamos, Isis? Quero dormir mais quando chegar em casa.
–– Vamos. –– Entro no quarto e coloco o cinto.
Eu estava sonolenta também. Então, encostei a cabeça no estofado do banco e fechei os olhos.
Eu só queria que quando eu pisasse os pés em casa tudo não tivesse passado de um pesadelo. Ai, como eu queria!
–– O sumiço seu e do Rafa foi o maior assunto ontem. Vocês transaram?
–– Não! –– Abro os olhos. –– Iríamos... Mas fiquei melancólica, confundi o Rafa com você e comecei a falar de problemas. Acredita?
–– Que maluca! Era melhor ter transado. –– Debocha. –– Agora a última lembrança que o garoto vai ter de você é do seu falatório sem fim. Que terrível fim, Maria Isis!
Ai, como eu odeio a Suze!
Pedi que ela falasse como foi sua noite na tentativa de me fazer esquecer como foi a minha.
–– Acho que não devo ter ficado com uns 5 garotos da festa. O resto eu peguei todos. Preciso dar um tempo agora. A partir de hoje estou de dieta.
–– Há Há Há. –– Imito uma risada debochada. –– Não dou 3 dias.
–– Você é uma grande cobra. Isso sim!
Assim que Suze estaciona o carro na frente da portaria do meu condomínio, meu coração se apertou. Eu não queria voltar para casa, mas sabia que era inevitável.
–– Não quer mesmo que eu te deixe na porta de casa?
–– Não. Eu quero caminhar um pouco. Obrigada, Suze. Me liga depois.
–– Pode deixar. Até logo, serpente!
Observei-a ir embora enquanto criava coragem para dar os primeiros passos em direção a minha casa.
–– Srta. Maria Isis! –– O porteiro vem até mim. –– O síndico deixou esse envelope para vocês. Acho que seja mais uma notificação já que vocês não estão realizando o pagamento do condomínio.
–– Obrigada, Sr. Calixto.
Peguei o envelope e apressei o passo até em casa. Não tenho mais nem reação para as vezes que o porteiro precisa me parar para entregar correspondências.
Abro a porta de casa e noto que tudo está em completo silêncio. Normalmente dia de domingo não tem ninguém trabalhando. Apenas minha mãe deve tá em casa.
Subo as escadas para seguir para o meu quarto, mas quando estou na metade dos degraus meu pai surge no topo da escada. Meus olhos arregalam-se em surpresa.
–– Pai! –– Corro até ele e o abraço. –– Meu Deus, pai! O senhor que me matar de preocupação? Onde o senhor estava? Eu liguei tanto...
–– Desculpe, filha. Eu... Só desculpe.
–– Já contou a ela, Heitor? –– Minha mãe surge de braços cruzados e uma expressão mortal. Franzo a testa enquanto olho para meu pai. –– Seu pai tem uma surpresa pra você, Isis. Uma que você vai querer morrer de tanta felicidade.
Pelo tom da minha mãe eu entendi que meu pai tinha feito uma burrada ainda maior. E aquilo fez minhas mãos tremerem e um frio passar pela minha coluna.
–– Vem comigo, filha. Vamos no escritório.
Deixei minha mala onde eu estava e o segui. Eu sabia que iria me decepcionar mais uma vez com meu pai. Custava ele se esforçar para sair dessa?
Ele trancou a porta e ficou andando de um lado a outro parecendo um maluco. Eu apenas sentei e segurei o choro enquanto observava a cena.
–– Pode falar, pai. O que o senhor fez? Vendeu a empresa? Matou alguém? Está devendo a agiotas?
–– Filha, eu quero que me escute com atenção. Por favor, me deixe falar tudo. Só depois você fala.
Assinto enquanto ele vai até sua cadeira e senta. Meu pai está tão diferente. Olhos mais fundos, barba por fazer, cabelos bagunçados, cheiro de bebidas e unhas grandes. Pai, o que o senhor fez consigo mesmo?
–– Você sabe que estamos mal das finanças. Eu venho estado numa maré de azar e tenho perdido dinheiro. Um amigo meu, que é responsável pela empresa de apostas, quis apostar comigo algo incrível. Se eu ganhasse ele iria quitar todas as minhas dívidas, ainda investiria na construtora e seríamos sócios na empresa dele. –– O sorriso momentâneo que ele deu acabou morrendo aos poucos. –– Só que se ele ganhasse o prêmio dele deveria ser algumas coisas difíceis para mim.
–– Que coisas, pai?
–– As ações da construtora que eu coloquei em seu nome seriam passadas por procuração para o filho dele e... Você teria que casar com ele para que todas as nossas dívidas fossem quitadas e a empresa saísse do vermelho. Desculpa, filha.
–– O quê? –– Levanto sobressaltada. –– O senhor virou palhaço? Isso é uma grande piada de péssimo gosto, pai. Eu não gostei. Tenta outra.
–– Isis, eu acreditava que iria ter sorte. Eu tinha fé que...
–– O senhor ainda está insistindo nessa droga, pai? Com licença.
Saio do escritório batendo a porta com bastante força. Ele é doido? O vício em aposta o enlouqueceu?
–– Isis! Filha! –– Ele vem atrás de mim. –– Maria Isis!
–– Pai, eu... –– Paro e viro-me. –– Eu me recuso a acreditar que você aceitou colocar A SUA FILHA no meio das suas apostas idiotas! O que... O que eu sou pra você?
Eu já não estava mais suportando segurar as lágrimas e deixei-as molhar meu rosto. Eu não acredito que isso é real. Eu pensava que já estava em um pesadelo e agora eu tenho certeza.
–– Não temos outra saída, raio de sol. –– Diz, derrotado. Mamãe surge.
–– Não me chama de raio de sol, pai. Você não tem mais esse direito. –– Olho pra minha mãe. –– Mãe, a senhora concorda com isso? Com esse absurdo?
–– Não tem outro jeito, Maria Isis. –– Ela me abraça de lado. –– Estamos afundados. Ninguém nos emprestará dinheiro o suficiente para nos tirar da lama.
–– Então eu vou ter que casar com sei lá quem pra salvar nossa empresa e nossa família? –– Os dois assentem. –– Vocês são os piores pais que eu poderia ter tido. Me deixem em paz.
Ando a passos apressados até meu quarto e bato a porta com toda força que eu gostaria. Grito bem alto logo depois.
Como isso é real? Forças da natureza, expliquem-me! Agora!
Como que meu pai faz isso comigo? Como que eu vou casar aos 20 anos com alguém que eu não conheço?
Joguei-me na cama e escolho ficar abraçada ao travesseiro. Adianta chorar? Não. Vai resolver? Não. Vai aliviar um pouco do que eu estou sentindo? Sim, vai. Então eu vou chorar até quando der.
Ouço meu celular tocando, mas resolvo ignorar. Não quero falar com ninguém pelos próximos 30 anos. De tanto chorar acabo adormecendo.
Desperto com batidas insistentes na porta. Levanto vagarosamente e me arrasto até a porta para abri-la.
–– Você dormiu por quase o dia todo. Já é fim de tarde, minha filha. –– Nita alisa meu rosto. Ela é a única funcionária que mora conosco. –– Vamos lanchar um pouquinho?
–– Sem fome, Nita. Minha vida acabou. Pra que comer?
–– Vou preparar alguma coisa bem gostosa pra você ficar mais alegre. Tudo bem?
–– E tem os ingredientes na despensa pra você conseguir preparar essa coisa bem gostosa? –– Pelo olhar que ela me deu eu já sabia a resposta. –– Não se preocupe. Depois eu como qualquer coisa.
Ela me abraçou, me desejou melhoras e foi embora. Quando eu iria fechar a porta, uma mão impediu que eu fizesse isso. Era meu pai. Larguei a porta e dei as costas.
–– O que o senhor quer? Já não basta ter destruído a minha vida?
–– Raio de sol, não fala assim. Eu acreditava que iria ganhar. Era a chance que eu precisava para devolver a sua vida de volta. Acha que eu estou feliz com você tendo que largar a faculdade? Tendo que contar moedas pra comprar algo legal pra você? Eu sou seu pai, eu quero o melhor pra você.
–– Ah, é? –– Me coloco na frente dele, olhando em seus olhos. –– Se você realmente quisesse o melhor pra mim não tinha afundado a nossa vida em dívidas, pai. Agora eu que vou ser a responsável por tirar nossa família do fundo do poço. Não há justificativa para isso. Quando vou encarar essa situação que você nos meteu?
–– Iremos jantar com seu noivo e o pai dele na quarta a noite. Desculpe, Isis. Me desculpe mesmo.
Fiquei de costas até ouvi-lo sair totalmente do meu quarto. Eu não sei quando e se eu irei perdoar meu pai um dia. Ele não podia fazer isso comigo. Não mesmo.
Eu sou a raio de sol, a menininha dele. Como que ele me faz isso? Ele sabe que eu tenho repulsa com essa história de casamento. Isso nunca me encheu os olhos.
Fiquei um tempo na janela observando o tempo passar até sentir fome. Desci e preparei um sanduíche simples. Enquanto comia, mandei uma mensagem para Suze.
Claro que eu não iria contar a situação humilhante que meu pai me colocou. Mas falei que precisava beber até morrer. Ela riu e me chamou de exagerada.
Ah, se ela soubesse...
Alguns minutos depois ela ligou para mim e ficamos conversando por bastante tempo. Só encerramos a ligação porque ela tinha aula pela manhã e não podia perder.
Que saudade do curso!
Eu serei usada como barganha, moeda de troca. Como é possível isso em pleno século XXI?
Tomei um banho quente, escovei os dentes, vesti meu pijama e caí na cama. Eu não estava com sono e nem precisava dormir, pois no dia seguinte não tenho absolutamente nada para fazer.
Mas eu já estou na lama, vou casar contra a minha vontade e não tenho dinheiro para encher a cara. Ter olheiras seria um problema a mais e eu não quero.
Tratei de colocar uma música calma para melhorar a qualidade do meu sono. Em instantes adormeci.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 64
Comments
Marcia Santos
Tadinha dela 😔 mais ainda bem que ela já conhece o pretendente
2023-10-02
4