.13.

Quando Nádia me avisou que Maurinho estava aguardando autorização na portaria para subir, no primeiro instante fiz uma reflexão do que poderia ser o assunto que ele gostaria de tratar comigo. Não consegui chegar a lugar nenhum.

Pedi pra que ela o mandasse subir e o aguardei no escritório. Ele entrou como uma flecha, meio ofegante e desatinado, até me assustando um pouco.

-- O que é isso, Maurinho?

-- Depois daquelas fotos publicadas era óbvio que eu estaria aqui, Rafael. -- Aponto para a cadeira à minha frente e ele senta-se. Cruzo os braços e relaxo as costas no encosto da cadeira. -- O que você realmente quer com a Maria Isis? Fala a verdade, Rafael, só a verdade. O que tá rolando entre vocês?

-- E o que isso te interessa? Você nunca foi de se intrometer na minha vida amorosa. Qual a diferença agora?

Claro que estava óbvio o motivo dele ter me procurado, entrado no meu apartamento parecendo um perturbado e estar me perguntando exatamente isso agora. Mas eu precisava ouvi-lo. Se eu irei me envolver com Maria Isis de maneira muito séria eu preciso saber dos sentimentos das pessoas que a cercam.

E como em um passe de mágica, meu celular dá o alerta de que acabou de receber uma mensagem e era justamente da Isis, questionando se Maurinho estava comigo. Confirmei e me despedi. Eu precisava dar atenção ao meu amigo.

-- Eu gosto verdadeiramente da Maria Isis. Se é que você me entende. -- É nítido seu desconforto em estar falando isso para mim. -- Preciso saber o que você quer com ela. O último metido a besta que quis enganá-la eu quase o matei.

-- Agora entendi. -- Debochei fingindo que agora tinha entendido o assunto. -- Você ama a amiga da sua irmã, mas só pode demonstrar isso bancando o irmão super protetor... Interessante. Não imaginei que essa sua história de musa da minha vida era tão séria assim.

-- Não viaja, Rafael. Só... Só fala o que você quer com ela. É simples e fácil. Não enrola muito.

Apesar da situação hilária, onde quero muito debochar da cara de Maurinho por estar aqui fazendo esse papelão, eu tenho uma grande consideração por ele. Preciso me esforçar pra ser pelo menos um pouco honesto com o que vou falar.

-- Eu acho a Maria Isis uma garota muito divertida e interessante. É óbvio que não quero enganá-la, Maurinho. E você está fazendo tempestade em um copo d'água. -- Levanto e sirvo uma bebida para nós dois. -- Depois que ficamos na festa da fazenda, ela pediu meu número e a gente marcou de se encontrar mais uma vez. Acabamos sendo fotografados. Não temos nada oficialmente. Só estamos nos curtindo.

Acabamos conversando mais um pouco sobre Maria Isis e depois ele foi embora. Sei que ainda está aborrecido, pois mal se despediu de mim. Apenas levantou-se e foi embora. Mas o que eu posso fazer?

Ele vai ter que se acostumar com a ideia. Muito em breve ele estará sendo convidado para ser padrinho de casamento pela Maria Isis. Bom essa paixonite se desfazer o quanto antes.

Meu pai mandou Irene, a nova governanta, ligar para cá e solicitar que eu compareça a casa dele para almoçarmos juntos. Olhei para Nádia com a maior cara de desânimo do mundo.

Eu amo meu pai, muito. Mas quando ele me chama para ir à casa dele eu já sei que pra coisa boa é que não é. Não entendo o porquê dele perder tanto tempo maquinando todos os passos que precisa dar para ter a Construtora Gusmão em seu poder de forma definitiva.

Mas...Quem sou eu para rejeitar um pedido seu? Meu pai é o único parente que eu tenho. Não conheço mais ninguém. Nem por fotografia. Meu pai me disse que todos morreram em um incêndio e os que restaram sumiram no mundo.

Não insisto nessa história, em querer detalhes dela, pois sei que toda vez ele fica com uma expressão pesarosa e um humor péssimo. Cristóvão Prado é bem temperamental e isso é seu maior defeito.

Assim que cheguei em sua casa, onde até hoje eu o questiono do motivo de morar sozinho em um casarão desses, fui recebido por Irene.

-- O Sr. Prado pediu que aguardasse aqui, Sr. Rafael. Com licença.

Sento no sofá e dedico um tempo a mexer nas minhas redes sociais. Assim que assisto os stories de Maurinho, sinto que aquelas imagens contribuíram significativamente para o preenchimento da minha cota de estresse diário.

E algo me diz, bem lá no fundinho em um canto frio e escuro do meu coração, que isso foi totalmente intencional. Maurinho é birrento e, pelo seu olhar de mais cedo, ele também é ciumento com Isis.

Travei o celular assim que ouço passos aproximando-se. Levanto do sofá e cumprimento meu pai. Ele está acompanhado por mais uma dessas mulheres que facilmente são compradas.

-- E quem é essa, pai? São tantas que não consigo decorar os nomes. -- Olho para a mulher que no máximo deve ter 29 anos. -- Perdão.

-- Não seja mal educado, Rafael. Essa é a Charlotte, ela irá almoçar conosco hoje.

-- Ah, é? -- Finjo animação assim que percebo o olhar de reprovação do meu pai. -- Ah, que bom. Fique à vontade, Charlotte.

Enquanto estávamos à mesa, eu não conseguia tirar da mente a foto de Maria Isis nas costas de Maurinho. Por que merda eles são tão íntimos? Será que já rolou algo entre eles?

Que pergunta idiota! Claro que já deve ter rolado. Maurinho não seria tão louco pela Isis assim sem ela ter pelo menos o beijado. Impossível!

-- Rafael? A Charlotte está perguntando qual é a sua idade. É indelicado não responder a uma moça.

-- Ela já deixou de ser moça há muito tempo, pai. -- A resposta sai tão rápido que segundos depois eu me dou conta das porcarias que falei. -- Desculpe, Charlotte. Tenho 25 anos.

Meu pai suspira e pede para que Charlotte se retire. Ela protesta dizendo não ter ligado para o que eu disse, mas ele grita com ela. A mesma sai da mesa mais rápido do que gato fugindo de banho.

-- O que é que você tem, seu moleque de merda? -- Ele larga os talheres com força no prato. -- Você não sabe ser agradável quando é preciso ou só sabe ser a porcaria de um garoto mimado e insuportável?

-- Desculpa, pai. -- Abaixo a cabeça. -- Você quer que eu vá pedir desculpas para a Charlotte mais uma vez? Só não fique estressado, sua pressão sempre sobe muito.

Ele me olha mais uma vez e depois bebe um pouco do seu vinho. Meu pai é um grande apreciador de vinhos, mas tenho tentado fazê-lo diminuir a ingestão por causa da sua pressão arterial.

-- Eu já sei que você conheceu a princesinha do Heitor antes daquele jantar que demos para eles. -- Seu olhar analisador e julgador me envergonha. -- Não vai me contar o motivo de você ter feito isso?

-- Não achei que iria atrapalhar seus planos conhecê-la antes dela saber da aposta. -- Dou de ombros. -- Ela já me odeia mesmo, então tudo está saindo como planejado. Irei irritá-la até onde der.

-- Não quero que você apenas irrite-a. -- Seus olhos semicerrados indicava que seus pensamentos não eram tão bons assim. -- Transforme a vida dela em um inferno. Aquela vadiazinha merece sofrer pelos pais. Quero ver até onde ela vai em nome do dinheiro.

As vezes eu olho para meu pai e tenho medo dos seus pensamentos, dos seus planos e das suas ambições. Ele aparenta ter sofrido muito nas mãos do Heitor Gusmão para ter tanto rancor dele e da família dele assim.

-- Pai, não sei o que tanto o senhor tem contra a família Gusmão. Poderia me dizer? Acho que mereço saber já que faço parte desse seu plano para ter a construtora só pra você.

Ele pegou o guardanapo, passou levemente nos lábios e depois retirou-se da mesa. Fiz a mesma coisa e o segui. Ele caminhou até o escritório e, assim que eu entrei, pediu que eu fechasse a porta.

Aguardei ele sentar em sua cadeira e acender seu charuto. Preciso fazê-lo abandonar esses vícios prejudiciais, mas quem disse que ele vai me ouvir?

-- O que me diz? Vai me dizer?

-- Um dos seus maiores defeitos é ser muito apressado, Rafael. Irei lhe confidenciar algo que jamais falei a alguém; a história por trás da minha vingança contra Heitor Gusmão.

Meu pai sempre resmungou, na nossa época de pobreza, o quanto odiava Heitor Gusmão. Época essa em que eu nem sonhava em ter dinheiro ou me tornar genro do tal alvo do meu pai.

Foi aos doze anos que nossa vida começou a mudar. Eu trabalhava como ajudante de um jóquei, Wallace Wallet, e em um dos raros dias em que ele estava de bom humor ofereceu-me uma chance de fazer uma aposta. Ele me deu o dinheiro e disse para apostar em quem eu acharia que ganharia a competição que ele iria participar.

Eram oito participantes ao total. Eu sabia exatamente em quem eu iria apostar e não era no meu chefe. Eu tive a coragem de usar o dinheiro do meu chefe, que é competidor, e não apostar nele. Minha sede era de ganhar, então eu tinha que ser honesto.

Meu chefe era um competidor puramente midiático. As pessoas associavam somente a ele suas vitórias. Os cavalos que ele usava logo eram tirados de cena. Eu sempre achei injusto.

Para resumir, o competidor que eu apostei era o Billy Moroe, grande inimigo do Sr. Wallet. Eu sabia que o cavalo que ele estava montando tinha todas as características de um ganhador. E assim aconteceu. Eu ganhei a aposta e quando me dei conta disso comecei a chorar que nem um bobão.

Wallace Wallet me bateu muito e me demitiu. Não me pagou nada, mas me deixou com o bilhete que provava a minha vitória. Arrastei quase quarenta mil reais pois apostei no candidato mais cotado a perder. Meu pai teve que ir retirar o dinheiro, pois eu era só uma criança.

Lembro nitidamente que o responsável pelas apostas chamou meu pai de canto e ofereceu a ele um emprego. Esse emprego tinha a ver comigo e minhas habilidades de analisar e prever possíveis ganhadores.

Hoje sou responsável pela criação e preparação de cavalos para competições do nosso Jockey Club Prado. Sem contar que também vendo raças treinadas para o exterior.

Como tem bastante história nesse meio, eu irei contando vagarosamente. Agora meu pai irá sanar a maior dúvida que tenho sobre essa loucura toda com a família Gusmão.

-- Tudo começou há muito tempo atrás. Eu e sua mãe sempre vivemos em dificuldades. Era difícil conseguir uma refeição ao dia e quando conseguíamos muitas vezes não tinha carne. Em determinado dia, lemos no jornal que um alemão cheio da grana iria visitar o projeto social só para mulheres que tinha perto da nossa casa.

Não sei o porquê, mas só ouvindo esse início uma frieza estranha se apossou da minha barriga. Eu estranhamente estou nervoso. Que bela porcaria!

-- Sua mãe colocou na cabeça que tinha que aproveitar essa oportunidade, se aproximar desse alemão e ver se conseguia algum dinheiro. Eu estava de acordo com o plano; fazia muito tempo que eu sonhava em comer carne bovina. Rosana sabia exatamente como me convencer de ir atrás das suas roubadas. -- Ele ri, como se tivesse gostado da lembrança que teve. -- Heitor morava no mesmo bairro pobre que morávamos e tinha acabado de casar com Maria Marta. Éramos vizinhos. Ele e a esposa ajudavam voluntariamente o projeto social que o alemão visitaria.

... Nos aproximamos deles e acabamos ficando amigos. Marta conseguiu fazer com que Rosana ganhasse o convite para o evento que seria com público limitado. Era a nossa primeira vitória. No dia do evento, Rosana se arrumou toda e foi. Não preciso nem dizer que me deu ataque de ciúmes, mas era para nosso bem. Eu não conseguia emprego e Rosana também não. O jeito era se virar.

Quando ela chegou, o sorriso que estava no seu rosto era tão contagiante que eu questionei rapidamente quanto ela conseguiu do alemão. Com cara de idiota, ela respondeu que tinha ganhado algo mais importante que o dinheiro; a atenção do ricaço. Rosana caiu nas graças do cara e ele tinha convidado-a para sair.

Eu fiquei furioso e acabei batendo no rosto dela. A ideia era só jogar um charme e depois falar o discurso de pobre coitada para arrancar alguns trocados dele. Mas sair com ele já era demais. Ele era minha mulher! Me devia respeito.

Rosana me tapeou e começou a sair com o tal Franz Müller. Ela chegava em casa com carne, frutas, guloseimas e cada vez mais encantada com a bondade do cara. Jurava ela que não tinha nada com ele, era apenas solidariedade estrangeira.

Um mês depois ela me contou que estava grávida. Eu vibrei por no máximo cinco segundos e depois fiquei reflexivo. Rosana me jurou que o filho era nosso, mas que precisaria colocar o Franz como pai para nos garantir uma boa vida para sempre. O cara era casado no país de origem. Com certeza ofereceria uma boa pensão alimentícia.

Minha vontade era batê-la com o cabo da vassoura, mas a situação em que ela estava não me permitia cometer essa loucura. Nessa noite brigamos feio e ela pegou suas coisas e sumiu. Não tive notícias suas por três meses.

Foi aí que a safada voltou, barriguda e chorosa. Franz tinha descoberto que ela era casada comigo, através do Heitor, e ele acabou duvidando da paternidade. Sem ter para onde ir, ela veio para mim. E eu, como trouxa apaixonado, aceitei. Mesmo tendo ciência que Rosana já deveria estar armando o próximo bote.

Mais populares

Comments

Tania Cassia

Tania Cassia

que sujeirada

2023-08-18

3

Ver todos

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!