.15.

Eu tinha dito a mim mesmo, durante todo o domingo que passei de ressaca, que iria fazer a Maria Isis passar pelas mesmas humilhações que eu passei boa parte da minha vida.

O que meu pai tinha me dito, antes de sair de sua casa, tinha ficado reverberando na minha mente. Maria Isis só teve a vida que teve porque seu pai roubou o que era meu.

Todo luxo, mimos e regalias que ela usufruiu eram para ser meus. Eu que era pra ser criado na riqueza que ela cresceu achando que era fruto do merecimento do seu pai.

Mas eu não podia falar nada. Meu pai arrancaria minha cabeça fora se eu abrisse o jogo para Maria Isis. Ele mesmo me enviou uma mensagem afirmando isso.

O jeito era seguir o que meu pai tinha me pedido. Fazê-la sofrer para atingir seus pais e ao mesmo tempo me sentir parcialmente vingado enquanto a merda não é jogada no ventilador.

E eu tentei. A cena no restaurante foi exatamente o que eu já tive que passar quando trabalhava para Wallace Wallet. Ele me mandava comer no chão porque a mesa era só para campeões.

Eu tive que passar por isso porque não tive o direito de filho reconhecido por esse maldito Franz Müller. Ele preferiu dar esse direito a uma desconhecida, só porque era filha de um amigo. Como ele não lembrou de mim? Que eu existia? Por que me puniu se a errada era minha mãe?

Assim que Maria Isis saiu do carro no meio do sinal parado, arriscando ser atropelada, não pude ignorar sua atitude. Mesmo demorando um pouco, achei um local próximo para estacionar o carro e saí à sua procura.

Quando a encontrei, isso poucos minutos depois, ela estava caída no chão e com um cara em cima dela. Minha visão automaticamente tornou-se vermelha de raiva e eu avancei em cima do cretino arremessando-o longe. O que era dele estava bem guardado.

Tirei Isis do chão e carreguei-a nos braços até o carro. Assim que me certifiquei que ela estava bem presa com o cinto, pedi apenas uns minutos. Hoje esse cara não chega em casa com o rosto intacto.

Soquei a cara desse verme algumas vezes, tirei o celular do bolso e o fotografei. Eu precisava marcar bem aquele rosto e também saber mais sobre ele depois. Sei até quem pode me ajudar com isso.

Voltei ao carro e antes dela vir com o papo de que não precisava que eu tivesse feito isso, passei um pequeno sermão para que ela refletisse o que tinha feito. Ao fim, ela apenas praticamente implorou para que eu levasse-a para casa.

O jeito que ela abraçava o corpo enquanto eu dirigia despertava um grande incômodo em mim. Eu queria desesperadamente voltar e socar mais vezes a cara daquele inútil abusador.

Como alguém tem coragem de forçar alguém a fazer o que não quer? Principalmente nesse quesito sexual? Eu não sei o que se passa na cabeça desses delinquentes.

Quando chegamos em frente a sua casa, eu precisava dizer o que meu coração pedia. O plano era ser cruel com ela? Sim, mas agora não era o momento. Ela precisava de alguém solidário ao seu estado.

Mas ela me respondeu com rispidez e eu não a culpo. Também contribuí para que seu dia tivesse sido uma porcaria. Não sou a pessoa mais favorita para ela agora.

E por que isso me incomoda tanto?

Entrei no carro e segui para minha casa. Tomei um banho, coloquei gelo no meu punho e com a outra mão liguei para Maurinho.

Contei a ele sobre o que aconteceu, claro que omitindo que Isis saiu do meu carro por que brigamos, e avisei que iria mandar a foto do cara que soquei. Segundos depois de visualizar a foto, Maurinho me liga de volta.

–– E aí, Maurinho? Conhece esse babaca?

–– É o infeliz do Derik, o ex que Isis pegou traindo no banheiro do departamento. O que esse bosta quer? Morrer? Eu quase mato esse pedaço de germe quando ele fez o que fez com Isis. Ele esqueceu? Pelo visto terei que lembrá-lo. Maldito!

–– Eu já deixei bem nítido o que acontece quando se mexe com uma mulher indefesa. Mas, pelo que você me disse agora, ele não aprende fácil... Vou precisar da sua ajuda pra tirar esse infeliz do caminho da Maria Isis. E eu já tenho uma ideia do que fazer.

Contei sobre o plano que acabei pensando enquanto conversava com ele e Maurinho super concordou. Era óbvio que esse cara precisava sair da cola da Isis ou iria causar dores de cabeça piores.

Depois que conversamos, encerrei a ligação e deitei na cama para refletir. Em decorrência do que aconteceu eu terei que dar uma pausa nas lições que pretendo dar em Maria Isis.

Não sei como ela está, tanto mentalmente quanto fisicamente, e não quero ser o causador da sua piora. Uns dias e nada mais.

Durante a noite, meu pai ligou avisando que quer um prazo para soltar na mídia que eu e Maria Isis estávamos namorando. Ele alegou ter pressa para ter o controle da Construtora Gusmão nas mãos, que seus planos não podem esperar muito.

Pedi mais tempo, pois ainda é recente nossa aproximação para todos a nossa volta. Impaciente, desligou a ligação na minha cara.

Eu ainda não tinha ouvido todo o restante da história que meu pai me contou. Mas de uma coisa eu sei: ele me salvou de uma vida mais infeliz do que a que eu tive.

É certo que passamos muitas tribulações e dificuldades, mas ele sempre esteve comigo. O mesmo pão que ele comia ele dividia comigo. Sofremos todas as adversidades possíveis juntos.

Não sei o que seria de mim se eu tivesse sido trocado por dinheiro e ficado com Franz Müller. No outro dia teria sido jogado na porta de uma família sofredora de interior, bem capaz de nem ter sobrevivido a tal situação.

A única coisa que me faz pensar em tratar a Maria Isis melhor é o ato do seu pai em se calar ao me deixar nos braços do meu pai. Ele poderia ter chamado a polícia, entregue meu pai e me dado ao Franz para ter minha vida destruída.

Mas se omitiu. Deixou que eu ficasse com Cristóvão e tivesse pelo menos a chance de ficar perto do que mais se aproximou de ser uma família de verdade para mim.

Mas quando lembro da outra parte tenho vontade de atear fogo naquela maldita construtora que foi erguida com o meu dinheiro. Desgraçado!

Durante o jantar, recebi a visita repentina de Amanda em minha casa. Ela entrou esbaforida e agitada, colocando as mãos na mesa e se erguendo para cima de mim.

–– Eu não posso ficar ausente por uns dias e você já se mete em roubada, Sr. Rafael Prado?

–– E que roubada seria essa, Srta. Amanda Velmont? –– Entrelaço os dedos enquanto chamo essa ceninha de patética mentalmente.

–– A Gabi me enviou as fotos que tiraram de você e daquela biscate jantando juntos. O que significa aquilo, Rafael? É sério que você está saindo com ela? –– Ela desarma a pose e senta na cadeira, com ar derrotado. –– O que eu faço pra você parar com essa loucura? Não vê que aquela garota é uma criança pra você?

–– Ela já tem 20 anos, Amanda. Você está bancando a ciumenta novamente e eu não estou gostando muito disso. –– Levo o garfo com comida até a boca e mastigo lentamente demonstrando todo meu tédio com essa conversa.

–– Ok, ok. Eu paro, Rafa. Mas continuo achando que ela não é mulher pra você. Espero que você veja isso antes que isso fique mais sério. –– Ela olha para meu prato e sorri. –– Ainda comendo brócolis e frango nas noites de segunda? Sempre achei estranho esse seu costume.

Convidei-a para se juntar a mim e ela aceitou. Quando não está possuída pelo espírito ciumento, Amanda é uma boa companhia. Como sempre, pediu para tirarmos algumas fotos enquanto jantávamos. Ela postou e eu repostei em minha rede social.

Depois do jantar, Amanda perguntou como estava meu pai e a saúde dele. Quando meu pai passou por uma fase difícil onde ficava fazendo picos hipertensivos, ela ajudou-me indicando bons profissionais para cuidar dele.

Eu conheci a Amanda quando tinha 20 anos. Frequentamos o mesmo curso de administração e isso acabou nos aproximando. Não sei quando que nossa amizade virou amor da parte dela, mas eu gostaria muito que voltasse ao que era.

Ela tornou-se mais pegajosa, ciumenta, controladora e até insistente em relação a mim. Nunca beijei-a, mas sei que é o que ela mais deseja.

–– Eu viajei para refazer meu preenchimento e fazer um check-up de rotina e você nem me ligou. –– Faz beiço. –– Se não fosse pela Gabi eu nem saberia dessas fotos publicadas.

–– Você precisa arrumar outra função para sua amiga. Ser sua cadelinha fiel já está ficando feio. –– Dou um peteleco na sua testa. –– Agora vai embora que eu preciso resolver alguns problemas de trabalho no meu computador.

–– Fico aguardando um convite pra gente jantar fora um dia desses. –– Faço questão de abrir a porta para ela. –– Tchau, chato.

Dou tchau com a mão e fecho a porta. Sigo para o meu quarto e ligo meu notebook. Nádia aparece na porta com uma bandeja na mão e nela estava meu rotineiro e amado copo com suco de maracujá.

–– Obrigado, Nádia. Ai de mim se não fosse você...

–– Para com isso, menino. –– Passa a mão nos meus cabelos. –– Não fica muito tempo no notebook viu? E usa o óculos para não sentir dor nos olhos depois. Boa noite!

–– Ok, Capitã Nádia! Boa noite.

Ela sai do meu quarto sorrindo. As vezes eu esqueço que a vida lá fora é cruel quando vejo Nádia trazer meu suco favorito todas as noites.

Sua presença me traz um acalento sem igual. Fico imaginando como seria se eu tivesse mãe... Acabo me realizando um pouco com ela. Pode ser errado, mas meu coração diz que é certo.

Quando eu penso na palavra mãe agora só me vem uma imagem terrível de uma mulher que aceitou me vender para meu próprio pai biológico. Pensar nisso faz com que eu me sinta uma mercadoria, mero objeto sem valor.

Toda imaginação que antes eu tinha acabou. Cafuné, historinha para dormir, leite com biscoitos, andar de bicicleta, fazer desenhos de família... Tudo isso, hoje, virou um pesadelo.

Agora eu entendo que tudo que eu tenho eu devo ao meu pai. Quando ele diz que me fez rico, me fez forte, ele não está totalmente errado.

Quando eu comecei a trabalhar para o dono da banca de apostas em cavalos, conseguimos juntar uma boa grana e quando o velho bateu as botas ele deixou tudo para meu pai.

Aos poucos, fomos ganhando fama com as melhorias que fazíamos no clube. Tratamos logo de mudar o nome e a logomarca. Era uma atitude arriscada, já que por anos o prestígio do local foi associado ao dono anterior, mas conseguimos fidelizar ainda mais apostadores.

A riqueza veio com muita persistência nossa. Nada foi fácil. Meu pai passou de morrer por várias vezes por culpa dos perdedores inconformados que acusavam-nos de roubo.

Lembro do desespero quando um louco atirou no seu ombro. Foi a partir desse ato que meu pai resolveu ficar nos bastidores, por trás das cortinas. Hoje ele tem bastante gente competente e leal trabalhando para ele.

Não me meto muito nos assuntos do clube, apenas me interesso em administrar meus negócios. Tenho pretensão em ter bem mais haras abertos lidando com cavalos da forma mais humanizada possível.

Meu pai, as vezes, enche a boca para me chamar de pamonha por ver toda a minha devoção pelo meu trabalho. Ele diz que eu deveria abrir mais clubes, investir em coisas com menos riscos do que em animais. Na cabeça do meu pai, todos os meus cavalos podem morrer de uma vez e eu ir à falência em um piscar de olhos.

Mas eu sei que ele diz essas asneiras porque gostaria que eu voltasse todas as minhas atenções na rede imensa de apostas do nosso clube. O que é algo impossível de se acontecer.

Eu amo lidar com o grande protagonista da nossa fortuna, tanto minha quanto do meu pai. São os meus cavalos, cuidados e bem treinados, que garantem bom retorno financeiro a ambos.

Espero que Maria Isis não tenha nada contra esses bichinhos adoráveis. Mas que raios eu fui pensar nessa mimada agora?

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Comments

Rosilene Figueiredo

Rosilene Figueiredo

tô amando essa história

2024-08-30

2

Marcia Santos

Marcia Santos

tô gostando da história

2023-10-03

1

Tania Cassia

Tania Cassia

estou gostando 🥰

2023-08-18

0

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