O meio da semana chegou mais rápido do que eu gostaria. Hoje a noite será o jantar que irei conhecer a minha futura família.
Eu queria ter dito que não derramei uma lágrima por esses dias. Mas não posso mentir. Meu pai não tem ido trabalhar e minha mãe continua histérica. Ela vive discutindo com meu pai por ter nos colocado nessa situação.
Eu apenas existo. Os dias foram monótonos e enfadonhos. Vivo na expectativa de saber em que buraco eu estou me metendo. Hoje será decisivo.
Enquanto mexia no meu notebook, minha mãe entra no meu quarto sem bater. Como não adianta mais falar nada, apenas olhei de relance e voltei minha atenção ao que estava fazendo.
–– Vim te ajudar a escolher uma roupa para o jantar. –– Ela senta na minha cama. –– Não é isso que as mães fazem?
–– As mães protegem as filhas da maldade do mundo. Isso que elas fazem. –– Me arrependo no exato momento que concluo a frase. –– Desculpa, mãe. Eu... Eu...
–– Eu sei, Maria Isis. Eu sou uma péssima mãe. –– Largo o notebook e sento perto dela. –– Me desculpe pelo que seu pai fez. Eu penso seriamente em me divorciar dele. –– Ela ri. –– Depois que ele recuperar a fortuna, claro. Não sou boba de sair disso sem ser devidamente recompensada.
–– Você sempre pensando em dinheiro... –– Acabo rindo. –– O que esse maldito dinheiro fez com a nossa família? Meu pai jamais se meteria em apostas se não visse tantos zeros sem destino na sua conta. –– Suspiro. –– O que vai ser de mim agora, mãe? Vou sacrificar a minha vida por dinheiro. Que fim terrível!
Eu sabia que não adiantaria de nada reclamar, esperniar e chorar. Não iria trazer de volta tudo que as apostas nos levou. Mas era inevitável. Eu não conseguia parar de reclamar sempre que possível.
Deixei que minha mãe escolhesse o que eu iria vestir enquanto observava cada gesto seu. A forma como ela enrugava a testa ao ver minhas mini saias, seus lábios encurvando-se quando está pensando e até a coçadinha na cabeça quando está altamente indecisa.
Os anos estão passando...
Minha mãe já não é tão nova quanto me lembrava. Nem meu pai. É mais do que justo eu me sacrificar pra poder proporcionar a eles uma vida confortável.
Eles sacrificaram tantas coisas por mim. Não imagino o quanto as coisas foram difíceis pra eles. Eles não nasceram ricos. Me pego imaginando o quanto se preocuparam quando eu estava doente e não tinha dinheiro para os remédios. Ou quando precisavam comprar roupas novas porque as minhas estavam ficando pequenas.
–– Mãe –– Ela continua mexendo nas minhas roupas, mas resmunga como sinal de que está ouvindo. –– Obrigada. Por tudo tá?
–– Do que você está falando? –– Ela para o que está fazendo, mas continua de costas.
–– Não posso pensar só em mim agora. Vocês devem ter passado a maior barra antes de melhorem de vida. Não se preocupa, mãe. As coisas vão melhorar novamente. Eu prometo.
Vi quando seus ombros começam a chacoalhar e então corro até ela. Minha mãe, as vezes, parece uma perua louca, mas sei que no fundo ela é uma manteiga derretida. Ela tem seus motivos para se esconder por trás das suas futilidades.
Depois de consolá-la, ela mostrou o vestido que escolheu e eu aprovo sua escolha. É um vestido que comprei em Paris, muito belo. Azul anil, alças grossas e cumprimento acima do joelho. Bem simples, mas com os acessórios certo fica elegante.
Minha mãe me deixou sozinha e pediu que eu não me atrasasse. Tomei um banho demorado e comecei a me arrumar lentamente. Olhei no espelho e concluí que precisava fazer uma expressão melhor ou pensarão que sou uma chata de galocha.
Fiz um coque baixo deixando alguns fios soltos na região do rosto. Colar e brinco de pérolas, alguns anéis e salto médio. Eu estava uma verdadeira moça de família rica; comportada e elegante. Como manda o estereótipo.
Na hora certa, peguei minha bolsa e desci para a sala principal. Meus pais já me esperavam. Senti um pouco de vergonha, pois já fazia muito tempo que tínhamos saído juntos, como família.
–– Você está linda, minha filha. –– Minha mãe diz, com lágrimas nos olhos. –– Ai, quero chorar, Heitor. Olha nossa filha, que perfeita.
–– Você está muito bonita, filha.
–– Vamos logo que soa desrespeitoso atrasar em um primeiro encontro.
A família Prado enviou um carro com motorista para buscar-nos e eu achei uma gentileza sem tamanho. Como estamos sem motorista e com quase nada de gasolina no único carro que nos sobrou, essa atitude foi de grande valia.
Minhas mãos estavam suadas e geladas de tão nervosa que eu estava. Não pedi detalhes ao meu pai porque eu estava evitando essa conversa a todo custo. Eu não sabia se iria casar com um senhor de 40 anos ou um hippie de 30. Eu não fazia a menor ideia.
Quão rico eles são? Ou melhor, quão ambiciosos eles são?
Casar comigo garantirá ao meu marido total liberdade na empresa e as ações que são minhas. O que querem com nossa empresa?
Entramos no condomínio que eles moram e nos deparamos com algo mais sofisticado do que o que moramos. Minha mãe não para de soltar expressões de espanto a cada vez que passa por alguma casa de arquitetura fabulosa.
Eu não me impressiono com essas coisas, mas tenho que assumir que eu moraria tranquilamente em um local tão bem cuidado e organizado assim. Dá gosto ficar observando. Até lago tem.
O motorista para em frente a uma casa belíssima de três andares que gritava luxo e sofisticação. Meu pai abre a porta para mamãe e o motorista abre para mim. Agradecemos e seguimos para a entrada. O motorista avisa pelo rádio para alguém que já estávamos aqui.
A porta abriu-se e uma funcionária sorriu para nós pedindo que entrássemos. A sala principal era um luxo só. Meu pai teve que conter a minha mãe ou ela iria sair tocando em tudo.
–– Boa noite, meus queridos. Sejam bem-vindos!
Um homem na faixa de idade do meu pai, baixo, gordo e com uma face esquisita, surge sorrindo e aparentando felicidade ao ver-nos.
–– Deixe-me apresentar, por favor. Sou Cristóvão Prado, muito prazer.
–– Maria Marta. –– Ele beija a mão da minha mãe.
–– Maria Isis. É um prazer. –– Ele faz o mesmo comigo. –– Bela casa. Parabéns!
–– Obrigado. Olá, Heitor. Por favor, sentem-se.
Meu pai apenas ofereceu-lhe um olhar intenso e acenou com a cabeça. Então foi com esse homem que meu pai apostou e perdeu...
–– O meu filho logo aparecerá. Peço perdão pelo atraso dele. Desde que inventou de morar sozinho desaprendeu a usar o relógio. –– Gargalha. –– Esses jovens...
–– Maria Isis também é assim. Um caso perdido. –– As vezes eu tenho uma raiva da boca de maritaca da minha mãe...
Nos serviram champanhe enquanto aguardávamos a chegada do... meu noivo? Que pesadelo!
Meu pai levantou-se e pediu para falar a sós com Cristóvão. Minha mãe e eu ficamos admirando os quadros e as pequenas esculturas que adornavam o ambiente.
Eu estava na metade da segunda taça quando a porta é aberta. Permaneci admirando um lindo vaso enquanto todos vão até o recém chegado para cumprimentá-lo.
Eu estava nervosa, querendo adiar o inadiável. Ouço minha mãe me chamando e então resolvi atendê-la. Deixei a minha taça em cima de uma linda mesinha de canto e caminhei de volta para a sala principal. Os vasos estavam expostos em um corredor depois da sala.
–– Desculpe, é que eu estava admi...
Eu não consegui concluir minha frase, pois assim que meus olhos pousaram no recém chegado eu senti que todo meu fôlego foi roubado.
Todos estavam parados, aguardando alguma reação, mas eu permaneci inerte. Como assim? Como pode ser?
–– Co-como... Você...
–– Olá, Srta. Gusmão. –– Ele sorri e caminha até perto de mim. –– É um prazer finalmente conhecê-la. Sou Rafael Prado de Albuquerque, seu futuro marido. Desculpe a demora.
Apenas assenti ainda perdida com a recente informação. Eu vou me casar com ele? Mas... Claro! Claro, Maria Isis! Ele já sabia desde a festa. Que cretino!
Fomos direcionados até a sala de jantar e no caminho minha mãe me questionou se eu estava me sentindo bem. Dei a desculpa que o champanhe meu deu uma leve dor de cabeça. Ela pareceu comprar minha desculpa.
Devidamente sentados, os funcionários começaram a apresentar e a servir as entradas. Eu não conseguia prestar atenção em mais nada.
Rafael sorria, conversava, gesticulava e, de vez em quando, direcionava alguns olhares em minha direção. Minha mãe estava caindo de amores por ele. Meu pai era o menos comunicativo.
–– O que me diz das entradas, Maria Isis? Estão do seu agrado? –– Cristóvão tenta chamar a minha atenção.
–– Ah, sim. Estão deliciosas. –– Mas era óbvio que ele sabia que eu não tinha tocado na comida por isso fez a pergunta. Comecei a comer para evitar constrangimentos.
O prato principal estava muito bem apresentado. O cheiro também estava bastante convidativo. Mas eu mal comi. A comida não queria entrar de tão travada que eu estava.
–– Está tudo bem, Isis? –– Rafael me questiona. –– Você parece estar mal.
–– Onde fica o banheiro? Preciso molhar um pouco o pescoço. Acho que devo estar com muito calor.
–– Claro! Vou mostrar-lhe.
Pedi com licença e segui Rafael para o andar de cima. Assim que entramos no imenso banheiro espelhado, ele fecha a porta e se vira para mim. Seu olhar tinha mudado.
–– Confessa que você está surpresa até agora. –– Cruza os braços. –– Vamos nos casar, Isis. Acho que será um ótimo negócio contando que nos demos muito bem na festa do final de semana.
–– Você sabia de tudo, não é? O que foi tudo aquilo, então? Teste drive? Pra saber se eu valia o esforço?
–– Ah, sem ressentimentos, por favor. Você vai impedir que seu pai viciadinho e sua mãe fútil não passem fome. –– Aquele não era o Rafael que eu conheci... –– E no combo ainda vai poder dormir comigo e continuar sua vidinha de dondoca. Do que você está reclamando? Sua vida vai ser perfeita, Maria Isis!
–– Lave bem essa sua maldita boca suja pra falar dos meus pais ou...
–– Ou o quê? –– Ele me empurra na bancada do banheiro. –– Hum? O que você vai fazer? –– Ele fica a centímetros do meu rosto. –– Você vai voltar lá e agir como uma boa filha que adorou conhecer seu futuro marido. Não conte com um homem paciente porque você não o terá, Maria Isis. –– Ele beija meu rosto e eu o empurro. Ele ri. –– Não demore. Gosto de admirar suas expressões faciais.
Assim que ele foi embora, a vontade que deu foi arremessar todos os objetos que estavam ao meu alcance em todos os espelhos dali.
Como ele pôde ser tão sujo a ponto de inventar ser de um jeito só pra se aproximar de mim? Que nojento!
Como eu fui cair naquele papo de amigo? Eu beijei aquele idiota, me abri com ele, cheguei a quase transar com aquele verme... Que ódio!
Ele estava se divertindo às minhas custas. Imagino quantas risadas ele deve ter dado da cara da palhaça aqui... Ah, se arrependimento matasse...
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Atualizado até capítulo 64
Comments
Dulce Tavares
eu pensei que ele ia tratar ela bem depois da conversa 😡😡😡
2023-12-12
5
Marcia Santos
Nossa coitada, parece que ele é um idiota mimado 🤬😡
2023-10-02
2
Alessandra Garcia não vi essa cena.
sério isso??? já estou perdendo a vontade de ler. o pai perdeu ela em uma aposta e com certeza ele não pretende parar. pois está viciado e vai perder tudo de novo
2023-09-04
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