... Rosana explicou tudo que aconteceu nesses meses que esteve sumida. Franz tinha alugado um apartamento pequeno para ela enquanto pensava no que iria fazer com toda essa situação.
Estava sendo tratada a pão de ló e eu, idiota e trouxa, sofrendo pra conseguir um gole de café requentado pela manhã. Mas eu fui besta e aceitei ela novamente.
Heitor tinha descoberto que Franz estava se envolvendo com alguém e, ao questioná-lo, o alemão acabou contando quem era e a situação que Rosana estava.
Os planos foram por água abaixo e Franz pediu para Rosana desapropriar o apartamento e procurar um local pra ficar enquanto ele arrumava um jeito de fazer o exame de DNA sem a mídia saber.
–– Pai... Como o senhor escondeu tudo isso de mim? –– Atrapalho sua narração.
–– Cala a boca, Rafael. A história está no início agora. Larga mão de ser apressado, garoto. –– Assinto a contragosto. –– Continuando... Rosana continuava afirmando que você era meu filho, mas que precisaria arrancar dinheiro do Franz antes do exame ou iríamos nos dar mal. –– Ele ri. –– E lá estava eu sendo feito de otário outra vez. A verdade é que você não é meu filho biológico, Rafael. Sua mãe sabia o tempo todo e tinha planejado vender você para Franz em troca de cinquenta mil reais. Ela iria fazer isso e me deixar pra trás logo depois. Mas eu acabei descobrindo e me preparei para esse momento.
... Quando Rosana foi ter bebê, ela me proibiu de ir até o hospital. A troca iria ser feita no hospital mesmo. O dinheiro por você. Eu a segui e vi quando Franz chegou acompanhado de Heitor. Era óbvio que ele estaria metido nisso, pra variar. Mas não era nenhum problema.
Arrumei uma roupa de funcionário da limpeza e entrei facilmente no hospital. Fiquei fingindo limpar o chão perto da porta do quarto onde Rosana estava tentando parir de parto normal. Franz e Heitor estavam na recepção, conversando perto da maleta que provavelmente tinha o dinheiro.
Assim que você nasceu, Rafael, eu tive uma ideia ainda mais louca do que só pegar o dinheiro e sumir. Eu queria você também. Não sei como, mas consegui despistar as enfermeiras e pegar você no berçário.
Quando Franz percebeu que a criança tinha sumido, acabou indo embora e deixando Heitor e a mala sozinhos. Como bom samaritano que é, Heitor foi ver como Rosana estava. Acabou deixando a mala sem vigilância e foi aí que eu peguei-a.
Eu tinha colocado você na minha mochila de costa, torcendo que você não acordasse e começasse a chorar. Quando eu estava prestes a entrar no táxi, Heitor grita por mim. Ainda acabei virando-me por poucos segundos para olhá-lo, mas desisti de falar qualquer coisa e entrei no carro. Ofereci o dobro do valor para o motorista pisar fundo no acelerador.
–– Pai... –– Levanto totalmente perdido em tantos pensamentos. –– Não... Para. Eu não quero ouvir mais nada.
–– Rafael...
–– PARA! –– Grito. –– Você... Você... Meu Deus! Como você me conta isso assim, com essa frieza? Meu Deus...
–– Eu te fiz forte, Rafael. Eu te fiz rico. Eu sou seu pai e sempre vou ser. –– Ele continua fumando seu charuto tranquilamente. –– Só achei que era a hora de começar a te contar toda a história por trás do meu ódio contra Heitor. Você precisa ouvir o restante. Você precisa saber que eu não sou o único monstro aqui, que nessa história não há mocinhos.
Eu sentei novamente porque estava zonzo, com ânsia de vômito e com um nó terrível na garganta. Meus olhos queimavam e eu sentia que tinha perdido todo o chão debaixo dos meus pés.
Mesmo não querendo ser ainda mais dilacerado sentimentalmente, permaneci ali para ouvir essa história terrível que mais parecia ficção. Eu ainda tentava entender quem era aquele homem que estava à minha frente.
–– Eu não contava que o paspalho do Heitor iria pegar um carro e me seguir. Eu tinha tirado você da mochila porque tive medo de você morrer sem ar, mas o motorista ficou com medo e parou o carro numa rua deserta me mandando descer. Sem saída, fiz o que me pediu.
... Heitor surgiu alguns minutos depois. Mas eu já tinha arrumado um caco de vidro para ameaçar matar você, claro que de fingimento, se ele tentasse alguma coisa que me impedisse de fugir. Aquele idiota não iria estragar meus planos.
–– Entregue o menino, Cristóvão. Você pode fugir com o dinheiro. Ainda tem chance.
–– Se o pai não quis saber, qual motivo de você se importar? Larga de ser intrometido, Heitor. Eu ficarei com a criança e com o dinheiro. Eu o criarei melhor do que se ele fosse criado pelo Franz, se sentindo um bastardo no meio deles. A Rosana que merece levar a culpa por tudo. Ela foi uma prostituta, vadia sem coração. Como que ela iria vender o próprio filho ao pai?
...Heitor suspirou e revelou que Franz não tinha pretensão de criar você. Ele iria te abandonar em uma cidadezinha qualquer do interior onde ninguém saberia da sua origem. E ele estava ajudando-o em tudo. O próprio idiota me confessou isso, em voz alta, como se eu fosse a merda de um padre que fosse absolver seus pecados.
Ele viu que era muito melhor eu permanecer com você. Mesmo vendo que estava descontrolado pela grande bosta que Rosana fez comigo, ele sabia que eu não iria fazer nada contra você. E foi então que ele deu alguns passos para trás, entrou no carro e foi embora.
Eu consegui um carro e fugi para o mais longe que eu pude com você. Ao abrir a maleta, vi que a insensível da Rosana iria ser passada para trás. O valor naquela mala estava longe do combinado. Tinha apenas trinta mil reais e uma carta dizendo que o restante do valor seria entregue depois.
Não tinha mais como voltar atrás. Eu resolvi encarar a vida criando você sozinho, mas sabia que voltaria a vê-los um dia. Uma hora ou outra eu voltaria.
Quase sete anos depois, vi no jornal que Franz, o grande e bondoso homem da mídia, tinha perdido a mulher e os dois filhos em um acidente de avião. Na foto da matéria, adivinha quem estava ao lado dele, o consolando? Óbvio que era Heitor.
Eu sabia que era a oportunidade perfeita para aparecer com você e exigir que ele o resgistrasse. Pelo menos você estaria assegurado pelo resto da sua vida com algo que era seu por direito.
Deixei você com a vizinha, que de vez em quando tínhamos algo, e viajei até a cidade onde eu sabia que encontraria Franz Müller dando uma de bom moço com suas doações exacerbadas.
Quando entrei na sala, dei de cara com Heitor, que me aguardava com mais dois homens. Ressalto que armados. Ele me disse que tinha sido uma péssima ideia ter reaparecido. Ordenou que me dessem uma surra e deixou um aviso para mim:
NUNCA MAIS APAREÇA OU NÃO VERÁ MAIS O DIA RAIAR.
Depois eu descobri que Franz estava doente e que tinha se apegado a filha de Heitor e Maria Marta, deixando-a como herdeira da sua fortuna.
Aquela fedelha ficou com tudo que deveria ser meu. Quer dizer, primeiramente seu. Heitor conseguiu construir a empresa, mesmo que para não levantar suspeitas tenha feito isso lentamente.
–– Eu preciso de um ar.
–– Lembre-se, Rafael: aquela fedelha teve tudo que era seu. Enquanto você comia pão seco ou teve que ser obrigado a trabalhar aos 12 anos para comprar as coisas, ela estudava nas melhores escolas e nunca soube o que era passar privações.
Saio da sua casa antes de ouvir mais das suas palavras massacrantes. Eu sentia minha cabeça rodar e meu estômago revirar. Acabei vomitando perto do meu carro.
Pego o celular e, mesmo sem ter muita consciência do que iria falar, liguei para Maria Isis. Liguei e liguei, mas ela não me atendeu. Dirigi feito louco até minha casa. Não contei quantas vezes eu bati no volante na tentativa de extravasar toda minha raiva.
Quem sou eu, afinal?
Qual meu sobrenome verdadeiro?
Quem eu haveria de ser se tivesse sido abandonado em uma cidadezinha qualquer do interior pelo meu pai biológico?
Agradecer Heitor por se calar diante do que meu pai fez ou puni-lo por roubar o que ele sabia que era meu por direito?
Minha mente está uma bagunça e eu não consigo ter um pensamento organizado. Pego a minha garrafa favorita de whisky, abro e coloco na boca. O líquido quente desce rasgando minha garganta, mas me traz a sensação de adormecimento que eu tanto quero.
Não sei por quanto tempo fiquei sentado no chão do meu quarto, mas despertei dos meus trilhões de pensamentos quando ouvi meu celular tocando. Era a diaba da Maria Isis.
A sua voz fingindo meiguice causou em mim um incômodo que eu jamais tinha sentido antes. Era como se apenas o fato dela respirar ameaçasse a qualidade da minha respiração. Como se o fato dela existir, nesse exato momento, ameaçasse a minha existência. Como posso estar sentindo isso?
Acabei brigando com ela pelo fato dela não ter me atendido e também pelas fotos extravagantes que o Maurinho tinha postado. Ela, como sempre, debocha e me deixa furioso encerrando a ligação.
Ao saber que ela iria ficar de rolêzinho amistoso com Maurinho e Suzane, mandei mensagem convocando todos os caras do grupo para a noite da bebedeira comigo sendo o pagante da vez. Não teve um que recusou, inclusive quem eu queria.
Saí do chão, tomei um banho rápido, me arrumei e fui para o local de carro alugado. Eu já estava levemente bêbado, não iria sair dirigindo se a intenção é voltar nem sabendo meu nome direito.
Quando cheguei na boate, boa parte dos caras estavam lá. Obviamente que no início era notável o clima estranho entre mim e Maurinho. Mas depois de algumas doses tudo voltaria ao normal. E, de fato, voltou.
Nathan tinha convidado um primo, Otto, que estava passando as férias por aqui para se juntar a nós. Eu já estava estressado com a forma que ele se dirigia a qualquer mulher que passava por nós. Era um babaca de marca maior.
Ícaro, repentinamente, começa a falar sobre as fotos que vazaram onde eu e Isis aparecemos juntos. Geral começou a comentar sobre isso e o jeito era falar também. Mesmo não estando com a cabeça boa para esse assunto, um plano precisava ser seguido. Se eu me esquivasse iria parecer que ela não tem importância alguma para mim. Era necessário comentar alguma coisa.
–– O que é que tem a Maria Isis? Já beberam o suficiente pra ficar cogitando coisas que ainda não existe entre a gente? Foram só algumas fotos, pessoal. Já ficamos, mas é só isso. Mal nos conhecemos. Estamos indo com calma.
–– Calma? –– Nathan ri. –– Já estão fazendo programinhas de casal e tudo. Não dou um mês e veremos o status de relacionamento dos dois mudarem nas redes sociais.
A risada foi geral. Entrei na onda também. Preciso fazer de tudo para não aparentar estar um caco. Odeio demonstrar fraqueza. Eu só queria beber e falar sobre amenidades masculinas. Mas já vi que o assunto Maria Isis não vai sair da roda nem tão cedo.
–– Relaxem, pessoal. –– Otto ergue o copo de cerveja para o alto. –– Todo homem tem orgulho da capacidade de insistir muito em uma mulher até comê-la algumas vezes, enjoar e descartar. Tenho certeza que isso acontecerá com nosso amigo pagante da noite.
Eu e Maurinho nos levantamos ao mesmo tempo, só que foi o meu soco que acertou a cara desse bastardo primeiro. Otto caiu por cima da mesa ao lado, onde garrafas e copos foram ao chão fazendo a maior bagunça.
Segurei-o pelo colarinho e soquei seu rosto mais uma vez. Só pra ele não esquecer da merda que fez ao achar que todos somos iguais a ele.
–– Nathan, tira esse louco de cima de mim! –– Grita, que nem um marica.
Afastei-me dele, mas ainda vi quando Maurinho e mais dois deram alguns chutes nele. O idiota teve que sair correndo para não morrer de tanto apanhar.
–– Mesmo sabendo que vocês tinham toda razão de fazer isso, eu preciso ir atrás daquele idiota. Ele não sabe andar por aqui. –– Nathan se despede. –– Desculpa, pessoal.
Assinto entendendo claramente seus motivos. O gerente do local veio até nós, provavelmente nos passar bronca, mas eu me antecedo e digo que pagarei por todo dano.
Aviso que irei me afastar para ligar para Maria Isis, mesmo sob os protestos de Maurinho me dizendo que ela provavelmente já estivesse dormindo. Os caras ainda debocham dizendo que isso é atitude de homem apaixonado, mas resolvem encerrar as gracinhas quando ergo o punho machucado por bater naquele idiota.
Esbarro em duas cadeiras antes de conseguir achar um local mais silencioso para fazer a ligação. Para a infelicidade de Maurinho, ela me atendeu.
Quando ouço sua voz, me dou conta de que não sei o motivo de ter ligado para ela. Mesmo afetado pelo álcool, consigo inventar a desculpa de que liguei para avisar que irei levá-la ao curso na segunda-feira.
No meio da conversa acabo dizendo que precisava vê-la quando eu deveria ter dito que precisava ser visto em sua companhia. Envergonhado, tento me explicar e desligo.
Ainda assim, resolvo enviar uma mensagem dizendo que acabei me expressando mal por causa dos meus amigos que estavam perto.
Eu jamais diria isso para ela. Minha relação com Maria Isis é puramente falsa. Eu nunca faria questão de vê-la se não for para o meu benefício.
Pode ter certeza que se eu me confundi foi por culpa do álcool. Nada a mais. Volto para a roda dos meus amigos e bebo mais um pouco. Preciso decidir o que eu vou fazer com tudo que agora eu sei.
Ignorar ou tripudiar? Eis a questão.
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Atualizado até capítulo 64
Comments
Marcia Santos
Que armadilha para a Maria Isis, coitada 🫢 tomara que ele se apaixone por ela
2023-10-03
4
Tania Cassia
É muito armação🙄🙄
2023-08-18
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