.9.

Cristóvão honrou com o compromisso de quitar todas nossas dívidas emergentes. Rafael enviou todos os valores que era necessário assim que eu enviava os comprovantes que ele solicitou.

Hoje de manhã ele enviou uma mensagem avisando o horário que viria me buscar. Pediu que eu caprichasse, pois me levaria a um local requintado.

Quem esse imbecil acha que sou? Ele acha que eu não sei me produzir à altura dos lugares que sou convidada?

Urgh!

Enquanto eu tomava banho, refleti sobre o rumo que minha vida está tomando pela milésima vez. Não me conformo, mas não adianta ficar lamentando. Só não estou gostando muito do ar empolgado de Rafael. Ele, as vezes, possui um olhar de louco.

Escolhi usar um vestido no modelo tomara que não caia, na cor vermelha e acima do joelho. Como a peça era lisa, fiquei livre para abusar nos acessórios. Quis usar os cabelos soltos e um batom vermelho vibrante. Eu estava feliz com o resultado da minha produção.

Meu pai apareceu na porta do meu quarto e ficou parado, me observando. A porta estava aberta, então foi fácil notá-lo.

–– Vai jantar com o Rafael? –– Apenas assinto enquanto coloco meus brincos. –– Queria pedir um favor, filha.

–– Pode falar, pai.

–– Queria que você visse com seu futuro marido se é possível abrir uma conta lá no Jockey Club Prado para mim, para umas apostas bobas de vez em quando.

–– Pai... –– Passo perfume e pego minha bolsa. –– O senhor precisa é de uma clínica para esse seu vício. Não vou ajudá-lo a afundar ainda mais.

–– Mas...

–– Beijo, pai. Tô indo.

Depois de beijar sua bochecha, passo por ele como um foguete para não dar tempo dele falar mais nada que possa me convencer a fazer a loucura que me pediu.

Assim que passei pela sala, minha mãe estava comendo alguma coisa enquanto conversava ao celular com uma amiga. Ainda consegui ouvir ela dizendo que tinha visto na revista um corte novo de cabelo belíssimo e que estava pensando em mudar.

Lá estava a Maria Marta de sempre outra vez...

Assim que pisei o pé fora de casa, Rafael me aguardava encostado em um carro de cor azul metálico no estilo conversível.

–– Estou aqui plantado por mais ou menos... –– Ele olha no relógio. –– Cinco minutos. Não é boa com horários? Terá que aprender a ser.

–– Larga de ser idiota, Rafael. Pelo menos de vez em quando. –– Suspiro profundamente já me conformando de que essa noite será caótica. –– Vamos logo. Quero que essa noite voe.

–– Até que você está bonitinha, Maria Isis. –– Ele abre a porta do carro pra mim. Reviro os olhos enquanto sento. –– Se você soubesse o que eu imagino com essas suas reviradas de olhos...

Eu não tive coragem de olhar pra ele depois dele ter dito isso. Fingi total concentração em prender o cinto de segurança.

Durante o trajeto, não trocamos nenhuma palavra. Eu me concentrava nas paisagens enquanto ele dirigia compenetrado.

Assim que o sinal fechou, tive o ímpeto de olhar para ele. Ao que parece ele teve a mesma ideia, pois estamos nos olhando.

–– Não vai me dizer que sente necessidade de me observar? Vou pensar que você gosta de mim, hein?

–– Eu só olhei, Rafael. Só isso.

–– Tá estressada demais. –– Balança a cabeça em negação como se tivesse me diagnosticando com uma doença incurável. –– Posso te fazer relaxar depois do jantar.

–– Isso tudo pra você é uma brincadeira? Porque está longe de ser engraçado. Você e seu pai estão me forçando a fazer algo que eu não queria nem em dez vidas. Isso não é nada engraçado.

–– Você está sendo ridícula, garota. –– Ele estaciona e desliga o carro. –– Ninguém está te obrigando a nada. Apenas se você não cumprir o combinado, vocês terão ainda mais dívidas do que as anteriores porque nós seremos mais um na sua lista. A empresa é uma garantia que está vindo junto com você nisso tudo. –– Desce do carro. –– Você faz o que você quiser. Se tem um culpado pelas tragédias na sua vida, não somos nós. Acorda, ô princesinha.

Depois que ele entregou a chave ao manobrista, seguimos para a entrada do restaurante mais tradicional e mais bem frequentado da cidade. Fomos encaminhados até a nossa mesa, que estava reservada, e depois o cardápio chegou até nós.

–– É o seguinte: você é filha do CEO da Construtora Gusmão e eu sou filho do CEO do Jockey Club Prado. Sem contar que também possuo um haras focado em reprodução e treinamento de cavalos para competições. Somos pessoas levemente famosas na sociedade e vamos usar isso ao nosso favor. –– Ele abre o cardápio e o olha de forma despretensiosa. –– Contratei um paparazzi que irá atiçar outros paparazzis para nos fotografar.

–– Isso é uma merda.

–– Você tem uma boquinha suja... Que me dá nos nervos. Mas vamos ao que importa. –– Faz sinal para chamar o garçom. –– Tente aproveitar essa noite. Sorria, relaxe. Já que em breve vamos casar temos que fazer isso direito.

O que eu poderia fazer? Apenas concordei. Ele fez o pedido, inclusive pediu o menu degustação da casa harmonizado com os vinhos escolhidos pelos sommeliers do local.

Apesar de viver numa classe social mais elevada, eu nunca curti estar em locais tão sofisticados assim. Normalmente, só quando tinha vontade ou quando Suze insistia muito.

Como sempre fui estudante, preferia os lugares mais populares para encontrar a galera. E para divertimento; as baladas e as festas em locais alugados.

Acredito que se vim três vezes nesse restaurante foi muito. Uma delas foi com meus pais, para comemorar meu aniversário de 18 anos. As outras vezes foi com Suze.

Enquanto nossos pratos estavam sendo preparados, fomos servidos com um bom vinho. Provei um pouco e relaxei automaticamente. Vinho tem esse poder sobre mim.

–– Você contou a alguém sobre nosso acordo? –– Nego com um gesto de cabeça. –– E nem vai.

–– Não vejo o porquê. Suze é minha melhor amiga. Não é justo esconder isso dela.

–– Não quero que essa história saia do nosso controle. E sua amiga é irmã do meu amigo, que inclusive tem intenções em você. Não conte para ninguém.

–– Ok, Rafael. Ok. Mais alguma coisa? Estou farta desse jantar e ele mal começou.

–– Calma que daqui para a sobremesa eu te dou uma boa notícia. –– Ele ri. –– Olha, lá vem o primeiro tempo do menu. Seja mais simpática. Sua cara está péssima. Vai acabar odiando as fotografias.

Como é irritante esse jeito dele!

Meu Deus, que insuportável!

Tentei sorrir, fingir que estava curtindo tudo, mas eu queria mesmo ir embora. Apesar da comida e do ambiente serem agradáveis, a companhia da noite era intragável.

Assim que estávamos concluindo a sobremesa, diga-se de passagem que eu estava mais do que cheia, Rafael pegou minha mão e fez carinho. Meu primeiro instinto foi querer puxar, mas depois entendi que era encenação.

–– Prometi que te daria uma boa notícia. –– Assinto e sorrio, entrando na vibe da encenação. –– Vou pagar seu curso. Sei que é algo que você gosta bastante. E eu odeio a ideia de que você pode ser vista como uma dondoca fútil que não faz nada da vida. Mancharia minha imagem.

–– Sei que pedirá algo em troca. O que eu vou ter que fazer?

–– Coisas simples, baby. –– Beija o dorso da minha mão e depois relaxa na cadeira com seu típico sorriso no rosto. –– Ser bem obediente, muito apaixonada por mim na frente das pessoas... Você só tem a ganhar, Isis.

–– Já vi tudo. –– Rio em total descrença. –– Você quer brincar comigo, vê até onde eu aguento. Não é? Acha isso divertido mesmo? –– Ele gargalha. –– Você e seu pai devem ser dois malucos. Sinto que vendi minha alma ao diabo.

Terminamos a sobremesa, ele realiza o pagamento e depois nós saímos. Ressalto que fizemos isso de mãos dadas. Deu pra sentir o peso dos olhares assim que nos direcionamos até o carro.

Enquanto eu colocava o cinto de segurança, Rafael mexia em alguma coisa no celular. Segundos depois o mesmo começa a tocar. Ele atende.

–– Oi, Amanda. Não, não estou em casa. Sim, estou com alguém. Depois eu te ligo, Amanda. Tchau.

–– Você e a Amanda tem algo? Ela parece muito interessada em você. –– Ele ri e eu me arrependo por ter perguntado isso. –– O que foi?

–– Você vai precisar bancar a ciumenta com a Amanda. Ela gosta de mim de um jeito que não gosto dela. Mas aquela cabeça de vento parece não entender isso. –– Sério isso? –– Só não vai pegar pesado com ela.

Faço uma careta e resolvo permanecer em silêncio o restante do trajeto. As vezes, eu olhava para ele enquanto dirigia e como que esse filho da p_t@ é bonito! Que azar ele ser um bosta.

Eu devo ter dedo podre pra macho mesmo! Não tem outra explicação.

–– A partir de segunda-feira você já pode retornar às aulas. –– Paramos em frente de casa. –– Não vai me dar um beijo de agradecimento?

–– Se toca, Rafael! Não tem plateia aqui, então nada de beijo. –– Saio do carro. –– Obrigada pelo jantar. Idiota!

Ele ainda grita avisando que iria mandar mensagem quando chegasse em casa. Esse imbecil ficou bêbado ou é louco assim mesmo?

Quando entrei em casa, Nita foi a primeira a vir até mim. O carinho que esse mulher sente por mim chega a me constranger. As vezes eu acho que ela me tem mais amor que meus pais.

–– Você deve estar cansada não é, minha filha? –– Suas mãos gordinhas acariciam minhas bochechas enquanto assinto. –– Prometo que nesse fim de semana eu faço um bolo de prestígio pra você se animar.

–– Obrigada, Nita. Vou dormir. Até amanhã.

Joguei minha bolsa em cima da mesinha, arranquei meus sapatos dos pés e fui diretamente tomar um banho. Minha cabeça estava muito cheia.

Saio do quarto de pijama e vou diretamente para minhas redes sociais. Preciso postar foto da minha produção de hoje.

Assim que abro meu aplicativo, vejo que alguns perfis me marcaram em suas postagens. Quando abro a publicação vejo que são fotos do jantar de hoje com o Rafael. Reviro os olhos ao constatar que escolheram as fotos que mais aparentava que o jantar foi magnífico.

Não demorou muito e meu celular começou a tocar. O nome de Suze piscava no visor trazendo a sensação horrível de saber que tenho que mentir pra ela.

–– Oi, Suze.

–– Meu Deus, Maria Isis! Vocês foram fotografados jantando. Conte-me tudo. Agora.

Fiquei horas a fio narrando de forma fantasiosa o jantar de hoje. Suze resmungava o tempo todo afirmando que queria ser uma mosca para ver como foi ao vivo esse jantar.

Ela me convidou para passar a tarde de amanhã na casa dela. Irei aproveitar e dizer que vou voltar a frequentar o curso. Ela vai saltar de alegria. Eu devo ter faltado duas semanas ou mais. Preciso me inteirar de tudo que perdi.

Assim que encerrei a ligação, recebo uma mensagem do Rafael perguntando se eu tinha gostado das postagens. Ainda teve a audácia de dizer que eu não sou nada fotogênica e que eu preciso ser mais convincente porque agora estamos oficialmente ficando.

Olha que tragédia!

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Comments

Maria Do Carmo Oliveira

Maria Do Carmo Oliveira

ainda bem que é ficção, porque na vida real jamais faria algo deste tipo

2024-10-30

0

Verônica Soares

Verônica Soares

cretino.....vendeu a filha e ainda quer continuar na jogatina.

2024-04-02

3

Anonymous

Anonymous

Parece que vai ficar boa essa história

2023-08-25

4

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