Assim que o dia amanheceu, eu senti que não tinha dormido nada. Confirmei isso ao olhar no espelho e ver minha face de derrotada. Olheiras, olhos caídos, expressão pesarosa, bocejos... Eu estava um caco.
Tomei um banho, me organizei e saí de casa. Ouço a voz da minha mãe chamando por mim, mas ignoro. Hoje não quero falar com ninguém. Não será um bom dia, pelo visto.
Assim que meus pés pisam na calçada de casa, vejo o mesmo carro que tinha nos levado para o jantar na casa dos Prado encostado no meio fio. O motorista aproximou-se, me cumprimentou e avisou que foi designado a me levar para a faculdade hoje. Deixou claro que eram ordens do Sr. Rafael.
Eu não estava nem um pouco interessada em retrucar a tal ordem e nem queria pegar uma condução lotada hoje. Também não vou ficar esbanjando o dinheiro dele fazendo excessos como pegar diariamente carros por aplicativo.
Se ele já me julga uma patricinha mimada apenas pela aparência, imagina se me ver gastando dinheiro à toa?
Agradeço ao motorista, que apresentou-se como Manoel, e entro no carro. Coloco meus fones de ouvido e procuro uma playlist bem triste e sofrida.
Quem nunca esteve na bad e procurou ouvir músicas mais tristes ainda? Eu sempre.
Durante o percurso, recebo uma mensagem de Rafael avisando que iríamos passar o final de semana juntos. Na mensagem tinha todas as informações necessárias sobre a nossa saída.
Guardo o celular na bolsa, mas antes aumento o volume da música e fecho os olhos. Acho importante ressaltar que nesse momento eu estou ouvindo um dos cantores que mais curto na atualidade: James Arthur cantando esse hino de música que é Train Wreck.
Quando piso os pés na entrada do departamento, uma sensação esquisita arrepia meu corpo. Acabo abraçando-me como forma de acalento.
O que aconteceu ontem me marcou tanto assim?
É só o babaca, idiota, cretino, estúpido, insensível, machista e inútil do Derik. Ele não é nada. Não significa nada.
Qual motivo de eu estar sentindo isso? Essa insegurança, esse pavor? Não, não posso dar créditos a isso.
Foi só a atitude de um ex, completamente bêbado e excessivamente idiota. Sorrio com meus pensamentos. É, não devo ligar muito para isso.
–– Ei, gata –– Suze toca no meu ombro e eu instintivamente me assusto e desvio do seu toque. –– O que foi, Isis? Você está com nojo de mim?
–– Nojo? Não, pelo amor de Deus! Não sei o que me deu. Eu só... me assustei e recuei. –– Sorrio na tentativa de amenizar minha atitude impensada. –– Vamos! Quero te contar uma coisa que aconteceu ontem.
Enquanto seguíamos para nossa sala e eu contava sobre a atitude do nosso professor, vez ou outra eu olhava ao redor e me certificava se não tinha ninguém nos seguindo. Quer dizer, nos ouvindo. É, é isso. Nunca se sabe.
–– Isis? Ei, Isis? –– Volto a olhar para Suze. –– O que está acontecendo com você? Está parecendo uma doida, olhando pra todos os lados e com uma expressão assustada. O professor fez alguma coisa com você? Vamos, diga logo. Você não parece legal.
–– Não, não tem nada a ver com o professor Guilherme. É que... Eu estou com vergonha de dizer. –– Deixo meus ombros caírem em sinal de desânimo e cansaço. –– Parece uma besteira, mas nem consegui dormir. Nem eu estou entendendo o motivo disso estar acontecendo.
–– Vem, vamos no banheiro. Lá a gente conversa melhor. Dane-se a primeira aula! Vem!
Suzane me colocou contra a parede e continuou insistindo até eu finalmente contar o que houve. Eu sentia uma coisa ruim, uma vergonha sem tamanho. Parecia que eu tinha cometido um crime hediondo, que era culpada.
–– Vamos matar aquele filho da p...
–– Para! –– Balanço a cabeça em negação. –– Não quero mexer mais nesse assunto. O Rafael bateu nele e com certeza foi suficiente. Meu medo é seu irmão saber.
–– Não vai demorar muito pra chegar nos ouvidos dele, Isis. Ele e Rafael são amigos. Agora é torcer pro Derik sair dessa vivo. Mas me diz: como você está se sentindo? Quer se entreter um pouquinho depois daqui? –– Assinto. –– Combinado, então. Depois das aulas de hoje vamos pegar um cineminha. Soube que está passando um filme de comédia na sessão das 13h. Vamos extravasar sorrindo já que matando iremos presas.
Gargalho com a loucura de Suzane. As vezes penso que não mereço uma amiga tão incrível assim. Voltamos para a sala e assistimos o restante das aulas.
Eu estava me sentindo um pouco mais tranquila. Acredito que falar ajudou bastante. Mas ainda quero me distrair com Suzane. Tenho certeza que teremos uma tarde incrível.
E realmente foi. Comemos pipoca, rimos de ficar com a barriga doendo, tomamos sorvete, comemos diversas guloseimas...
Valeu a pena ter topado.
Senti que o dia passou mais rápido que o habitual. Como eu tinha dispensado o motorista, Suze me levou até em casa.
–– Quando que você vai ter seu carro, hein? Carro é independência, sua boba.
–– Quem sabe no meu aniversário de 21 anos. –– Dou de ombros. –– Não tenho pressa. Vivo muito bem assim, pegando carona com uma amiga linda e perfeita.
–– Sabe bem como me deixar feliz, dona Maria Isis. –– Nos abraçamos como despedida. –– Espero que você esteja melhor. Odeio te ver pra baixo.
–– Está tudo bem. Acho que eu hipervalorizei a atitude escrota do Derik. –– Sorrio e desço do carro. –– Até amanhã.
Depois que Suze foi embora, encarei minha casa do lado de fora. Acabei me rendendo a vontade de sentar na calçada.
Preciso urgentemente falar com meu pai sobre tudo que estamos vivendo agora. Se formos depender por um tempo do dinheiro dos Prado, precisamos descer um pouco nossos gastos.
Não podemos continuar morando nesse lugar de luxo, onde o condomínio quase chega o valor de um carro popular. Minha mãe não pode continuar usando os cartões de forma desenfreada e nem meu pai pode continuar apostando ou jogando dinheiro fora com seus ternos extravagantes de caro.
Isso precisa mudar. Quero depender o mínimo possível da ajuda de Rafael. Continuar nesse padrão de vida e ainda permanecer com o discurso de que não sou apegada ao dinheiro soa como hipocrisia.
Difícil vai ser convencer meus pais dessa mudança. Acho mais fácil convencer a humanidade que a terra é plana.
Levanto do chão e sigo para o interior da minha casa. Logo na porta, Nita me avisa que meus pais estão bebendo e conversando na área externa da piscina. Sigo até lá.
–– Filhota! –– Minha mãe vem até mim e beija a lateral da minha testa. –– Eu e seu pai estávamos falando de você. Acredita que repentinamente nos deu uma imensa vontade de ir às ilhas gregas?
–– Com que dinheiro, mãe?
–– Como assim? Como "que dinheiro", Maria Isis? –– Sua expressão espantosa me faz rir. –– Estamos revertendo toda situação ruim, filha. E tudo que quisermos fazer ou comprar, Rafael ou Cristóvão manda o valor para você. Qual problema de fazer uma viagem?
–– Qual o problema de fazer uma viagem? –– Repito sua pergunta. –– Mãe, pai, não temos dinheiro pra viagens ou excessos. O que temos é um acordo com eles e eu sou a que mais está sofrendo com isso. E é justamente sobre isso que eu quero falar com vocês. Nós temos que nos mudar para uma casa com despesas mais baratas, cortar o uso descontrolado dos cartões e aprender a economizar dinheiro. Preciso saber, pai, o que vai acontecer com a construtora. Quando iremos começar a ver dinheiro nosso entrando.
Os dois se entreolharam, como se o que estivesse em sua frente não fosse sua filha, mas um alien que não consegue estabelecer nenhuma comunicação efetiva.
–– Maria Isis, a empresa não vai gerar capital nem tão cedo. Estamos com muitas dívidas para serem quitadas e isso só será possível quando você casar com Rafael. –– Desvio do olhar deles. –– Eles só estão sanando nossas dívidas pessoais, mas a construtora ainda está afundada.
–– E já que eles estão sanando essas dívidas sem reclamar, não há motivos para diminuirmos nossos gastos, Isis. –– Dona Marta volta a sentar e beber do seu champanhe favorito. –– Vou ser honesta com você, Isis, eu não sei como é ser pobre novamente. Você não sabe dos perrengues que eu e seu pai passamos para chegarmos até aqui. Fizemos coisas que não devemos nos orgulhar, mas aqui estamos. Mesmo na pior, há sempre uma saída. O que não podemos é desistir de tudo que alcançamos.
–– E que coisas seriam essas, mãe? Que vocês não podem se orgulhar?
–– Sua mãe já está levemente alcoolizada, Isis. –– Meu pai tira a taça da mão dela e coloca na mesa. –– Vem, Marta. Vamos, eu te levo pra cama. Pode jantar sem nós, filha. Com licença.
A sensação de que meus pais escondem algo de mim volta com tudo. Eu tinha essa sensação quando tinha meus doze para treze anos. Quando eu os ouvia cochichando e me aproximava, eles sempre mudavam de assunto. Fiquei obcecada com a ideia de que meus pais estavam doente e não queriam me contar.
Depois que um tempo passou, eu tirei essa paranóia da cabeça. Provavelmente era coisa de adolescente. Mas agora, depois de ouvir essa meia confissão da minha mãe, sei que realmente eles escondem algo. Essa minha vida está quase parecida com os dramas asiáticos que vez ou outra assisto. Será que o final feliz também será similar?
Espera aí... Não que eu deseje viver um grande amor com ninguém. Longe disso. Mas espero que tudo fique bem no final. É só isso.
Nita surge atrás de mim, com uma expressão compadecida. Odeio quando ela presencia essas discussões entre mim e meus pais. Nita tem um carinho muito especial por mim e eu sou muito grata por esse sentimento.
–– O que eu faço com meus pais, Nita? Não é possível serem tão irredutíveis quando o assunto tem dinheiro no meio. Não é possível!
–– Seus pais são difíceis, menina, mas amam você. Isso que importa.
–– Não quero soar uma adolescente em crise existencial, mas as vezes eu duvido disso, Nita. –– Cheiro seus cabelos. –– Não coloque a mesa de jantar hoje. Vou comer no quarto mesmo.
Pego minha bolsa, que no calor da emoção acabei jogando no chão, e subo para o meu quarto. Eu estava tão aborrecida que quase quebrei a porta de tão forte que bati.
Eu estou odiando essa montanha russa que está a minha vida. Em um momento são só lágrimas, no outro; sorrisos e no outro; mais lágrimas. Estou enfadada!
Enquanto estava no banho, ouço meu celular tocar de forma insistente, mas resolvo não apressar o meu momento. Provavelmente deve ser Rafael. Ele adora me ligar em momentos inoportunos. Devidamente pronta, com direito a pijama brega no estilo tie die, pego meu celular e verifico o histórico de chamadas.
O número era desconhecido. Coloquei o aparelho para carregar e desci atrás de comida. Nita preparou uma bandeja maravilhosa e me entregou. Claro que antes ela foi extremamente insistente para que eu a deixasse fazer seu trabalho e levar a bandeja para mim.
Mas eu a convenci e subi quase que correndo para não correr o risco dela me convencer a entregar a bandeja para ela. Enquanto jantava, novamente meu celular tocou.
No visor, piscavam as palavras que indicava que o número não era visível para mim. Aguardei cerca de mais quatro segundos e atendi.
–– Alô? –– Ninguém responde. –– Alô? Quem está ligando?
Desliguei quando notei que quem quer que seja que estava do outro lado da linha não estava muito a fim de falar. E eu também não sou idiota de ficar na chamada fazendo papel de palhaça.
Concluí meu jantar, de sobremesa comi uma pêra e depois me joguei na cama. Eu não estava muito a fim de mexer nas minhas redes sociais, então peguei um livro para ler. Adoro ler romances, desses bem recheados de reviravoltas e diálogos intensos entre os protagonistas.
A hora rapidamente passou e o sono acabou chegando. Enquanto eu escovava os dentes, recebo uma mensagem. Era Rafael.
^^^Não que eu me importe com você, mas gostaria de saber como você ficou depois do incidente. Manoel me disse que você o dispensou ao final das suas aulas. Está tudo bem?^^^
Olhei para o celular por vários segundos e depois balancei a cabeça em negação com um sorriso debochado no rosto. Não custava nada ele ser mais cuidadoso com as palavras. Qual a necessidade de iniciar a mensagem dizendo que não se importa comigo e logo depois se contradizer perguntando se estou bem? Mas é um paspalho mesmo!
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Atualizado até capítulo 64
Comments
Tania Cassia
A Rafael você está morrendo de amor por ela desde de o começo 🥰
2023-08-18
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