Após a sobremesa, Cristóvão sugeriu que Rafael mostrasse a casa para mim enquanto conversavam. Tive que me esforçar muito para não demonstrar que tinha odiado a sugestão.
Eu estava com tanto ódio desse cretino que seria um perigo ele me levar para conhecer a cozinha. Talvez sabendo disso, nem passamos perto desse cômodo. Subimos até o último andar e nos direcionamos até uma enorme varanda.
Provavelmente estão discutindo os termos desse casamento enquanto eu estou aqui, olhando o tempo passar. Eu me sinto tão cansada e isso tudo mal começou.
–– O que você tem contra mim, Rafael? –– Questionei sem olhá-lo. –– É nítido que as suas ações lá na fazenda foram falsas e que esse é o seu verdadeiro eu. Poderia me dizer o motivo disso tudo?
–– Qual a graça em falar? –– Ri. –– Não se preocupe, serei um bom marido. Do jeito que você merece.
–– Isso é uma brincadeira pra você? Porque não tem graça nenhuma. Vocês já são ricos, o que querem com uma empresa que está afundada? Poderíamos fazer isso sem que eu precisasse me casar com você.
–– Casar comigo é uma ideia tão terrível assim? Estou magoado. –– Ele põe a mão no peito e eu reviro os olhos. –– Não tenho nenhum motivo meu contra vocês, mas para meu pai ter se interessado tanto na sua família é porque ele deve ter vários. E se ele tem eu sou obrigado a ter também.
Bufei perdendo totalmente a vontade de permanecer conversando com ele. Ele é só um fantoche, pelo que acabei de notar. Preciso descobrir o que Cristóvão tem contra o meu pai. Já percebi que eles não são tão próximos.
–– Quero seu número. –– Ele estende o celular em minha direção. –– Melhor ser bem obediente. Não preciso lembrar sempre que você e seus pais dependem agora da nossa boa vontade. Evitar aborrecimentos é o melhor caminho, baby.
Pego o aparelho de sua mão, digito meu número e salvo. Entrego o aparelho e resolvo sair dali, mas uma das suas mãos agarra o meu braço.
–– Calma. Preciso deixar umas coisas bem claras entre nós. Aliás, em breve estaremos subindo no altar. Melhor não arriscar sermos descobertos. Temos que ser convincentes.
Rafael começa a inventar uma historinha de como estamos criando laços para que quando vierem questionar já termos algo definido a dizer. Eu revirava os olhos com muita força a cada vez que ele dizia que eu precisaria me esforçar para aparentar bem apaixonada. E que eu parasse de revirar os olhos. Revirei novamente.
Outra coisa totalmente fora do comum que ele me disse era que para conquistar alguns benefícios eu precisaria cumprir metas. Essa parte ele jurou que me explicaria depois.
–– Sexta vamos jantar fora. Será nossa primeira aparição juntos. Esteja bem linda.
–– Babaca!
–– Também amo você, Maria Isis! Muito.
Descemos para a sala a tempo de ouvir meu pai aos berros com Cristóvão. Corri até ele, segurei em seu rosto e pedi mil vezes para ele se acalmar.
–– Desculpe. Desculpe o vexame. –– Digo direcionado ao anfitrião da noite.
–– Não peça desculpas a esse verme, Maria Isis. –– Meu pai berra mais uma vez e eu coloco meus dedos na frente dos seus lábios pedindo silêncio.
–– Vejo que sua filha tem um pouco de bom senso. Escute-a, Heitor, ou posso perder a paciência.
Notei que minha mãe estava acuada, sem piscar e de lábios entreabertos. O excesso de calmantes não tem feito nada bem a ela.
Agradeci a noite, peguei meus pais cada um pela mão e tirei-os daquele lugar. O carro nos esperava no mesmo lugar que nos deixou. Isso foi um alívio. Logo estávamos retornando para nosso lar.
Meu pai resmungava enquanto minha mãe permanecia parada, olhando as paisagens passando pela janela. Eu só queria chorar e sumir.
Mandei mensagem para Suze avisando que iria esperá-la amanhã na frente da faculdade. Eu precisava conversar um pouco, tentar distrair a mente. Quem sabe eu me sinta melhor.
Ela mandou mensagem confirmando. Guardei o celular e tentei não pensar na noite desastrosa de hoje. Mas era impossível. Meu celular vibra outra vez avisando que uma nova mensagem chegou. Deve ser bem Suze desmarcando. Típico dela fazer isso.
Assim que desbloqueio o aparelho, noto que a mensagem é de um número não salvo. Abro a mensagem e leio.
^^^A noite de hoje foi inesquecível. Espero ansioso por sexta.^^^
^^^Cheio de saudades, Rafael.^^^
Mas é um cretino de marca maior mesmo! Enfio o celular na bolsa e resmungo coisas feias demais para ser dita em alta voz dentro do carro.
Assim que descemos do carro, agradeço ao motorista e levo meus pais para dentro de casa. Minha mãe segue para o quarto sem falar com ninguém. Meu pai se joga no sofá, afrouxa a gravata e passa as mãos nos cabelos.
–– O que foi aquilo, pai? O senhor e o Cristóvão não são tão amigos assim não é?
–– Um dia já fomos, Isis. –– Levanta-se. –– Isso é uma história para depois. Preciso de um banho e ver como sua mãe está. Boa noite e desculpe mais uma vez.
Enquanto ele ia embora, pensei em que tipo de época eles dois poderiam ser amigos. Mais pareciam velhos inimigos do que tudo. Preciso insistir nessa história ou nunca saberei a origem de tanto interesse de Cristóvão assim.
Tiro os saltos e sigo para o quarto. Depois de um banho bem demorado, coloco um pijama bem fresquinho e ligo o computador. Preciso postar sobre a composição que usei hoje no jantar. Um pouco de distração vai me fazer bem.
Enquanto estava digitando, meu celular vibra. Resolvo ignorar, mas alguns minutos depois ele vibra novamente. Decido ver do que se tratava. Abro as mensagens.
^^^Eu e meu pai decidimos que você ficará responsável por nos enviar algum comprovante de cada gasto que possuem. Assim, enviaremos para você o montante certo para pagar cada gasto. Vai tirar a barriga da miséria, baby.^^^
^^^Ah, e nós dois teremos alguns acordos para que você tenha direito a alguns luxos. Sexta conversaremos sobre isso. Boa noite, baby.^^^
Eu não tinha muito o que responder. Apenas enviei um ok. Temos algumas dívidas urgentes, então trato de enviar foto dos boletos que já tenho em mãos. Condomínio, contas de luz, água, salário atrasado de Nita e dos outros funcionários da casa, cartões...
Ele respondeu minha mensagem perguntando se meu pai não tinha noção de que dinheiro é finito, principalmente quando se aposta diariamente. Ignorei suas gracinhas.
Não quero ficar pensando no fato de que meu pai nos colocou nessa situação. Acaba me levando a ter muita raiva dele e esse é um sentimento que eu não gostaria de ter entre a gente. Já estamos passando por muitas coisas difíceis.
Faço a postagem na minha rede social e recebo uma notificação de que @Rafaa_Pradoo acabou de me seguir. O cretino curtiu minhas últimas dez postagens.
Desligo o notebook e coloco para carregar. Escovo os dentes e volto para a cama. Eu só quero que esse pesadelo termine o mais rápido possível. Se eles pensam que vão ficar brincando comigo... Estão muito enganados.
...
Assim que desci do ônibus, segui até a frente da faculdade. Tinha vindo o mais discreta possível já que é muito provável encontrar pessoas conhecidas.
Sentei em um dos bancos de concreto que fica na pracinha lateral e aguardei Suze aparecer. Ela só teria três aula, então iria largar cedo.
–– Olha quem resolveu aparecer... –– Derik senta ao meu lado e mexe no meu cabelo. –– Fazendo o que por aqui hoje, gracinha?
–– Me deixa em paz, Derik.
–– Calma, Isis. Você está me tratando como se eu fosse um estranho. –– Reviro os olhos. –– Já fomos namorados, se não se lembra.
–– Não chegamos a isso, Derik, como você mesmo disse quando te peguei ficando com a Daiane no banheiro do seu departamento. Não seja idiota. Agora vaza daqui.
Ele fala umas porcarias e depois vai embora. Derik foi o cara que eu realmente levei a sério. Nós ficamos por 5 meses e eu jurava que era sério pra ele.
Suze me dizia que encontrava ele de conversinha com outras meninas, mas eu nunca iria associar as conversas às "traições".
Na minha cabeça nós namorávamos, então eu era fiel. Não fiquei com nenhum outro cara. Até nas festas e calouradas que íamos juntos nós só ficávamos um com o outro.
Eu realmente gostava desse idiota. Gostava tanto que confiei nele pra perder minha virgindade. Foi péssimo, não durou quinze minutos, mas na minha cabeça fantasiosa tinha sido incrível. Dois dias depois Suze descobriu que ele tinha marcado de ficar com a colega de sala dele no banheiro e me avisou.
Tremendo, segui o covarde e peguei ele quase transando com aquela mocreia. Ele teve a coragem de dizer na minha cara que não éramos namorados, portanto ele não me devia fidelidade.
Derik simplesmente ferrou com meu emocional a ponto de eu não querer papo com relacionamentos. Mas o que aconteceu agora? A vida veio e me pregou uma peça. Eu simplesmente irei casar.
–– Que carinha pensativa é essa? –– Suze me abraça por trás e depois senta ao meu lado.
–– Derik apareceu aqui. Já sabe né? –– Ela assente. –– Mas não vim aqui falar daquele encosto. Quero o colo da minha amiga.
Paramos numa sorveteria ali perto e conversamos um pouco. Acabei descobrindo que Maurinho ficou com raiva porque fiquei com Rafael na festa da fazenda. Se ele descobrir que agora somos praticamente noivos...
–– Maurinho é um bobo. Eu já disse a ele que o que ele sente é só tesão reprimido. Não vou ficar com ele. Não quero acabar com nossa amizade.
–– Eu já falei para aquele paspalho que ele não tem chance com você, mas ele continua fantasiando. Deixa aquele mané sofrer. Tenho zero paciência.
Eu não tinha coragem de contar para Suze sobre o acordo que vai salvar minha família e a empresa do buraco. Só falei que estava triste com tudo que anda acontecendo, mas que há boas previsões para as coisas melhorarem. Inventei a existência de um investidor.
Eu sei, é covardia mentir, mas eu não tenho coragem. Não agora. Eu ainda me sinto uma prostituta de luxo, que topou sair com o Rafael em troca de dinheiro. Isso soa assim no meu cérebro. Que merda!
–– Mas me diz, se o Rafael chamasse para outra festa você iria?
–– Estamos conversando, amiga. –– Eu preciso começar a fazer o Rafael se tornar comum entre as conversas e nada melhor do que citar que estamos nos conhecendo. –– Iremos jantar sexta.
–– Maria Isis do céu, não me diga que você já está encantada com o Rafael? Até rimou de tão trágico que é.
–– Exagerada. –– Rio. –– Não é nada demais. Não seja espalhafatosa, por favor. Agora tome seu sorvete e vamos embora. Já terminei o meu.
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Atualizado até capítulo 64
Comments
Marcia Santos
Acho que ela teria que contar para amiga 😔 sobre o acontecido
2023-10-02
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