O caminho que eu fiz em direção ao quarto dela, poderia ser descrito tortuoso. Decidir partir quando se quer ficar é uma dor lacerante, uma das piores que senti, e de dor, eu posso dizer que entendo bem.
Ela estava dormindo, os seus lábios já estavam mais corados. Deus! Como é linda.
Me aproximei e beijei os seus lábios. Não sabia como seria dali para frente, e nesse momento o que me movia era a sede de vingança. Já não era Athos e sim El Diablo Martínez.
— Pequena eu preciso ir, eu devo isso a ele e a família dele.
Talvez estivesse dizendo isso mais para mim, do que para ela.
Fiquei um tempo ponderando, havia entrado na vida dela como um intruso, ela era o capricho que se tornou vital para minha vida. Pensei ser a vida dela que mudaria ao cruzar o meu caminho. Mas foi a minha que mudou. Estava em silêncio, quando Anne e Flávio entraram no quarto.
— Esta tudo pronto senhor.
Disse ao entrar.
— Pode nos deixar a sós Flávio?
Ele assentiu e deixou o quarto. Ela respirou fundo, e me olhou nos olhos.
— Athos, sinto muito pela sua perda.
— Obrigado.
— Vai voltar depois que resolver o que precisa?
Eu olhei e não disse nada. A minha intenção era desaparecer, tinha receio de retornar e não ter mais nada para mim. Ou de que o caminho que eu decidisse seguir em busca de vingança me afastasse de vez, não é fácil sair da escuridão depois de estar mergulhado nela. Era a primeira vez em tanto tempo que eu não sabia o que aconteceria.
— Conheço a minha menina Athos, se não voltar ela vai atrás de você. Sei que está cheio de dúvidas, mas não se afaste, fui sincera quando disse que faz parte dessa família.
Ela se aproximou e me abraçou.
— E eu sempre estou certa.
Olhei uma última vez para Aurora antes de sair. Flávio já me esperava fora do galpão. Ele se dispôs a me levar até o Hangar.
— Quem fez isso? Quem matou González?
— Aaron, Aaron White. Ele levou alguém que estava sob a nossa proteção.
— Aaron White.
Disse pausadamente, gravando cada letra daquele nome. Aaron White havia assinado a sua sentença de morte, e eu mesmo seria o executor dessa promissória.
Entrei no avião, no fundo, o caixão do meu amigo. Estava com um nó na garganta, movido pelo ódio, esse sentimento corria e queimava minhas veias.
Estava impaciente pela demora em partir daquele hangar. Olhei pela janela e vi um carro estacionar. Era Vincent, ele andou até a porta do passageiro e abriu, ajudando Aurora a descer. Não era para ela estar aqui. Eu desci aquela escada, sentindo o meu peito apertar, seria mais fácil se não precisasse encarar aqueles olhos, pois no momento que ouvi o nome de Aaron, eu decidi que não haveria lugar na terra que me impedisse de chegar até ele. Ela estava segurando em Vincent, mal conseguia ficar de pé.
— O que faz aqui pequena? Deveria estar descansando e se recuperando.
Aurora deu alguns passos e me abraçou, tornando tudo ainda mais difícil para mim.
— Eu sinto muito, sinto muito Athos.
Aprofundei aquele abraço, e pela primeira vez desde que vi a minha mãe naquele chão sem vida eu chorei. Segurei ela em meus braços e a levei para dentro do avião.
— González a muito me fez prometer que se algo acontecesse com ele eu deveria leva-lo até a sua família.
Disse, quebrando o silêncio entre nós.
— Senti tanto medo de não te encontrar, de ser tarde. Esteve comigo Athos, todas as vezes que precisei.
— Obrigado por estar aqui pequena.
— Athos...
— Não faz isso pequena.
Disse com a voz embargada.
— Não pretendia voltar não é?
— Pequena, Eu sei o que acontece agora.
— O que acontece? Athos...
— Aurora, eu vi a sua família, o que vocês têm um com os outros, eu não sei se consigo dar isso a você. Não posso deixar que viva dividida pequena, disse que a mesma medida que eu desse você me daria, e vivemos na medida que poderíamos dar um ao outro. E foi o melhor, o melhor tempo da minha vida. Mas, e se não puder lhe dar mais? Você merece mais Aurora.
Ela estava com os olhos cheios de lágrimas, e segurava a minha mão.
— E pequena, eu sei que esta confusa, desde que soube dele, não tivemos tempo de conversar sobre isso, mas está confusa e sabe disso.
— Athos... É difícil lidar com tudo que surgiu. Foi tudo tão rápido, em um dia ele estava morto... E no outro...
— Pequena, lembra que me perguntou se tudo poderia ter sido diferente? Senti a dor em cada uma daquelas palavras.
— Isso não anula o que vivemos Athos, eu... eu, não quero que as coisas terminem assim entre nós.
— É por isso que estou escolhendo por você Aurora. Eu não estou em paz, estou com raiva, com ódio, e tudo que me move nesse momento é o desejo de vingança, por Gonzáles e por você. Não vou descansar antes de ter Aaron e Petrova nas minhas mãos. Não vou te arrastar para isso.
— Athos...
Ela levou a mão em direção ao meu peito.
— Não se preocupe pequena jamais conseguiria machucar o meu coração, continua a ser minha luz. Eu a amo. E é por isso que estou fazendo isso.
Aurora se sentou no meu colo, as suas lágrimas caíram e molharam a minha camisa, aspirei o perfume dela e a abracei forte. Por mais que eu quisesse ficar, eu já tinha decidido partir.
— Eu te amo Athos.
Ela me beijou, um de nós precisava seguir em frente. E eu sabia que seria ela. Eu torcia para que fosse ela.
— É a melhor parte da minha vida pequena.
Com ela nos braços e uma ferida no peito, a levei de volta, coloquei ela no carro, Aurora ainda segurou a minha mão e me puxou, beijando-me novamente. Me afastei e entrei no avião novamente. Enquanto ouvia o choro dela. Não olhei para trás. Não poderia. Alguns momentos depois Flávio entrou no avião e sentou, certamente à mando dela. Um dos inúmeros gestos de cuidado que havia recebido dela.
Fui em silêncio a viagem toda, lutando contra os meus próprios pensamentos. Flávio não me dirigiu a palavra.
Ao chegarmos, fomos direto para a cerimônia fúnebre. Juana vestida de preto e inconsolável chorava por ele, González havia salvo a vida dela, e aquele ato se tornou amor. Eagora ela precisava dizer adeus.
Melissa mal conseguia processar o que estava acontecendo ali, tinha apenas seis anos, ora chorava pela falta do pai, e no momento seguinte já estava tentando caçar borboletas. Matteo ainda no ventre nem ao menos conheceria o pai. Aaron havia tirado isso dele.
Enquanto estava ali me lembrei de que González havia se voltado contra a tirania dos punhos de ferro, enquanto o homem que era meu pai me alimentava com lavagem e comidas mofadas, González quando estava em serviço sempre dava um jeito de me alimentar.
Ele orquestrou o motim que me livrou das mãos daquele desgraçado, deixou a jaula aberta, e depois que acertei as contas com todos aqueles que me deviam sangue, González esteve ao meu lado, não como um soldado, mas como um amigo, e até mesmo como família que nunca tive.
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Atualizado até capítulo 122
Comments
Maria Do Socorro Bezerra
O sofrimento de Athos foi surreal, não consigo pensar nele sem faltar ar, esse monstro cruel mereceu cada castigo que teve
2024-05-04
3
Allana Lopes
chorei no livro da aurora e tô chorando de novo
2024-05-01
2
Juliana Do Vale
sempre choro nessa parte da aurora.
2024-04-28
1