Capítulo 09

...ISABELLA...

Quando acordei, não havia ninguém acordado na casa. Os pratos e taças sujos ainda estavam em cima da bancada. Eu os recolhi e joguei o resto da comida que estava na panela fora, vez que tinha ficado a noite inteira fora da geladeira. Era triste de ver o desperdício. A comida tinha um cheiro incrível quando eu chegara na noite anterior.

Na sequencia joguei fora a garrafa de vinho. Coloquei a louça na maquina de lavar, liguei e passei um pano na bancada e no fogão. Aposto que Nick nem iria notar, mas eu me sentiria melhor com o fato de estar morando na casa dele sem pagar aluguel.

O sol estava bastante forte e Darla não me permitia prender o cabelo em um rabo de cavalo. De acordo com ela, os homens o preferiam solto. Estava morrendo de calor, por isso peguei um cubo de gelo dentro do cooler, esfreguei-o no pescoço e o joguei dentro da camiseta. Já estava passando pelo 15º buraco pela terceira vez.

Lá estava reunido um pessoal mais jovem, que eu já tinha visto quando passei pelo 3º buraco. Eles compravam bastante e davam excelentes gorjetas, então eu me sentia na obrigação de ficar aguentando as cantadas que eles me faziam. Era bem improvável que algum deles queria mesmo sair com uma menina do carrinho de bebidas, eu não era idiota.

- Ah, a minha garota preferida finalmente voltou. Está um calor infernal, moça, preciso de uma ou duas bem gelada.

- Olha ela aí... – disse outro dos caras quando parei ao seu lado com um sorriso.

Estacionei o carrinho e fui até o cooler pegar as bebidas.

- Outra? – perguntei a ele, orgulhosa por me lembrar do seu ultimo pedido.

- Quero, sim, gatinha. – respondeu, piscando pra mim. Ele chegou mais perto, o que me deixou um pouco constrangida.

- Ei, eu também quero uma. Vê se deixa um pouco pra gente. – disse outro e eu mantive meu sorriso no rosto enquanto pegava as bebidas.

- Mais alguém? – perguntei e um rapaz de cabelos loiros ergueu a mão. – Corona, certo?

- Acho que eu estou apaixonado. – O rapaz loiro disse. – além de ser linda, ela lembra a cerveja que eu bebo e ainda abre a porcaria da garrafa pra mim. – Pude ver que ele estava brincando quando colocou uma nota na minha mão e uma no meu bolso.

Realmente, aqueles caras não se importavam mesmo em jogar dinheiro fora. Somando as gorjetas que eles me deram, somavam mais de US$100,00. Tive vontade de lhes dizer para não me dar tanto assim, mas achei melhor permanecer calada.

- Qual o seu nome, moça? – perguntou um deles.

- Isabella. – respondi, enquanto entregava sua bebida.

- E você tem namorado, Isabella? – Ele perguntou, passando o dedo na lateral da minha mão em uma carícia.

- Não, não tenho namorado. – respondi, sem saber se seria melhor mentir ou falar a verdade nessa situação. Ele estendeu a mão pra mim com o pagamento e a gorjeta.

- Prazer, eu sou o Carter. – falou.

- P-Prazer, Carter. – falei em resposta.

Fiquei nervosa com a intensidade dos seus olhos escuros. Ele parecia perigoso. Além disso, ele era um cara refinado. Ele fazia parte da elite e sabia disso. Por que ele estava me azarando?

- Ah, Carter, assim não vale. Só porque seu pai é dono daqui não quer dizer que você pode escolher primeiro. – brincou um deles.

- A que horas você sai? – Carter perguntou, ignorando completamente o amigo.

- Trabalho até o final do expediente. – expliquei, enquanto entregava a cerveja para o ultimo dos quatro e pegava o dinheiro.

- Que tal eu vir te buscar e leva-la pra jantar? – perguntou Carter, diminuindo a distancia entre nós, da forma que eu trombaria nele, caso me virasse.

- Estou exausta e tudo o que eu vou querer depois do expediente é tomar uma ducha e dormir.

- Está com medo de mim, Isabella? Não precisa ficar, eu sou inofensivo.

Eu simplesmente não sabia como reagir em relação a Carter. Nunca fui boa em azaração. Depois que terminei com meu ex-namorado, meus dias revezavam entre estudar e cuidar da minha mãe. Eu não tinha tempo pra mais nada. Os caras nem se davam mais ao trabalho de me paquerar.

- Não estou com medo de você, Carter, eu só não estou acostumada com toda essa azaração. – Eu parecia uma idiota falando aquilo pra ele. O sorriso que ele abriu nos lábios me deu vontade de sair correndo e me esconder.

- Como uma mulher inacreditavelmente gostosa como você ano está acostumada com essas coisas, Isabella? – sua pergunta me deixou ainda mais nervosa. Eu precisava dar um jeito de sair dali e rumar para o 16º buraco. - É que eu passei os últimos anos bastante ocupada para dar atenção as azarações. – Eu dei o meu melhor sorriso. – Se vocês não quiserem mais nada, vou seguir meu caminho. Os jogadores do 16º buraco já devem estar bravos comigo.

- Ainda vamos conversar mais a fundo sobre o assunto, tenho certeza, Isabella. – Disse Carter dando um passo pra trás. – Mas, por enquanto, vou deixar você voltar ao trabalho.

Subi no carrinho de bebidas e rumei para longe dali. No 16º buraco estavam reunidos um bando de aposentados. Nunca fiquei tão feliz na minha vida por ser alvo de olhares cobiçados de idosos. Pelo menos eles não iam direto ao ataque.

...—xx—xx—xx—xx—...

...NICK...

Recebi uma mensagem da Blaire, dizendo que não seria necessário ter mandado nenhum presente pra ela. Era a melhor forma de acabar com as nossas trepadas ocasionais. Pelo menos fiquei me sentindo menos culpado.

Eu estava correndo pela orla da praia. Eu corria sempre que precisava limpar a mente e pensar. Essa noite eu precisava correr. Não queria estar em casa quando Isabella chegasse. Não queria encará-la. Não queria ouvir a voz dela. Tudo o que eu queria era distância.

Ela merecia a minha ajuda? Merecia, mas era apenas isso. Eu não queria conhece-la. Não queria ser seu amigo. No dia em que fosse embora, eu poderia respirar normalmente de novo. Mas, novamente, o destino tinha um jeito irônico de debochar dos meus planos.

...—xx—xx—xx—xx—...

...ISABELLA...

Ao voltar pra picape, fiquei aliviada ao ver que não tinha sinal do Carter em lugar nenhum do estacionamento. Talvez tivesse entendido que eu não queria nada com ele. Afinal, ele era o meu patrão. Pegando o dinheiro que eu havia ganhado de gorjeta hoje, decidi que não tinha problema eu me dar ao luxo de uma refeição melhor.

Passei pelo Mc Donald’s, comprei um cheesburguer com batatas fritas e fiquei feliz em ir comendo durante meu trajeto pra casa. Eu hoje não iria surpreender Nick transando de novo, eu me recusava a passar pelo mesmo da noite passada. Entrei e parei no hall. A porta estava destrancada, mas não havia indícios de que tinha alguém em casa.

Eu precisava de uma ducha antes de ir dormir. Estava muito suada. Entrei na cozinha e chequei se tinha alguém na varanda, para confirmar se não havia nenhuma estripulia sexual. Como estava tudo vazio, tomar uma ducha seria fácil.

Fui até o meu quarto, peguei minhas roupas de dormir, sai de casa e inspirei profundamente a brisa do mar. Só agora parei pra pensar que era a minha terceira noite ali e eu ainda não tinha dado um mergulho. Estava chegando em casa tão cansada que nem tinha disposição pra isso.

Coloquei minhas coisas no banheiro, tirei meus tênis e caminhei pela areia até que a água encontrasse com meus pés. A areia ainda estava quente do calor do sol e o frio da água me espantou e eu fiquei ofegante, mas permaneci com os pés na agua salgada. Eu ergui o rosto para o céu e sorri ao lembrar do sorriso da minha mãe ao me contar sobre a vez em que havia brincado no mar.

Ouvi um barulho à minha esquerda, o que interrompeu os meus pensamentos. Me virei e dei de cara com Nick aparecendo na escuridão. Ele estava correndo. E, mais uma vez, não usava camisa. O short pendia baixo nos quadris estreitos.

Fiquei hipnotizada com a aparência daquele corpo definido correndo na minha direção. Não sabia se deveria mexer ou se ele tinha terminado até ele desacelerar e parar ao meu lado. O suor escorrendo pelo seu peito nu estava reluzindo à luz do luar e, por mais estranho que poderia parecer, senti vontade de esticar minha mão e tocá-lo. Nada do que aquele corpo produzisse poderia ser nojento, era impossível disso acontecer.

- Você voltou. – ele disse, respirando fundo algumas vezes.

- Acabei de sair do trabalho. – falei, tentando manter meus olhos nos seus ao invés de encarar seu corpo.

- Então, quer dizer que você conseguiu arrumar um emprego?

- Sim, no Country Club. – respondi.

Não sabia ao certo se deveria estar revelando as coisas pra ele. Ele não era meu amigo e era evidente que nunca eu o consideraria como sendo da minha família. Nick levantou as sobrancelhas e deu um passo mais pra perto de mim. Pegou meu queixo nas mãos e virou meu rosto pra cima.

- Você está der rímel. – disse ele, enquanto examinava meu rosto. – deixa você com cara da sua idade.

Tirei meu queixo das suas mãos. Não gostava que ele me tocasse, mesmo me deixando dormir na sua casa. Ou talvez estivesse gostando e esse estava sendo o problema. Não gostaria de gostar que ele me tocasse, mas, de certa forma, eu gostava.

- Você é a garota do carrinho de bebidas do campo de golfe, certo? – Ele deu um passo pra trás e passou a avaliar minhas roupas.

- Como você adivinhou?

- Pelas roupas. – Ele acenou pra mim com uma das mãos. – Shortinho juto e camiseta polo. Esse é o uniforme. Aposto que você deve estar fazendo um estrago, não é mesmo? – Perguntou em tom de quem acha graça.

Respondi dando de ombros. Em apenas dois dias de trabalho, eu já havia ganhado cerca de US$500,00 em gorjetas. Pode ser que para Nick esse valor não seja um estrago, mas pra mim era.

- Pode ficar aliviado que, ao passo que as coisas estão indo, vou sair daqui em menos de um mês.

Nick simplesmente não reagiu. Comecei a dizer alguma coisa, mas ele se aproximou ainda mais de mim.

- Provavelmente eu deveria ficar aliviado, só que não estou, Isabella. – Ele se inclinou ainda mais pra perto, parando com seu rosto do lado do meu e sussurrou no meu ouvido. – Por que será? Fique longe de mim, Isabella. Você não vai querer chegar muito perto. – Ele engoliu em seco. – Ontem a noite... não consigo parar de pensar na noite de ontem: saber que você estava vendo, me deixa louco. Então, o conselho que te dou é: fique longe de mim.

Ele se virou e começou a correr em direção à casa enquanto eu ficava ali parada, tentando me manter em pé com as minhas pernas bambas. O que ele quis dizer com aquilo? Ele sabia que eu os tinha visto?

Quando vi que a porta se fechou atrás dele, eu rumei para o banheiro. Era certo que suas palavras me fariam ficar acordada por boa parte da noite.

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