...NICK...
Eu tinha falado pra Mia que não queria ninguém em casa naquela noite, mas, como ela nunca aceitava um “não” como resposta, ela convidou as pessoas mesmo assim. Eu estava recostado no sofá, com as pernas estendidas e uma cerveja na mão. Eu precisava ficar tranquilo e atento para que nada saísse do controle, porque os amigos da Mia eram mais novos que os meus e podiam ser muito bagunceiros.
A voz do Mason me tirou dos meus devaneios.
- Nick! Quero te apresentar a Isabella. Encontrei-a lá fora com um ar meio perdido. Acho que talvez ela seja sua.
Olhei para Mason, meu irmão postiço, e então para a loira que estava ao seu lado. Eu já tinha visto aquele rosto antes. Ela estava mais velha, mas isso não impediu que eu a reconhecesse. Ela era uma delas. Meus olhos buscaram a Mia pela casa e eu a avistei próxima a porta de entrada fazendo careta. Isso não ia ser nada bom. Será que Mason não tinha desconfiado quem era essa garota?
- É mesmo? Ela pode até ser gata, mas é muito novinha. Não dá para dizer que é minha. – Eu disse, tentando encontrar um meio de tirá-la daqui...e rápido.
A garota se encolheu ao ouvir minhas palavras. Aquele seu olhar perdido não estava ajudando. Ela sabia que não era bem-vinda naquela casa e veio mesmo assim. Por que parecia tão inocente?
Olhei novamente para Mia e vi que ela estava prestes a explodir. Voltei a olhar pra garota à minha frente, a fonte de sofrimento para a minha irmã durante boa parte da sua vida. Ela era deslumbrante. Seu rosto em formato de coração adornava um par de olhos azuis esverdeados e seus cabelos loiros caíram sobre seus seios muito bonitos, que eram exibidos em uma regata justa. É, ela precisava ir embora logo.
- Ah, cara, ela é sua sim... considerando que o pai dela fugiu pra Paris com a sua mãe, eu diria que agora ela é sua, sim.
Mason, esse cretino, estava achando aquilo divertido. Ele sabia muito bem quem ela era e estava adorando o fato de que isso incomodava a Mia. Mason era capaz de qualquer coisa para irritar nossa irmã.
Tomei um gole da minha cerveja e o encarei. Não estava a fim de drama e aquilo já tinha ido longe demais até mesmo para Mason. A garota precisava ir embora e ponto, não tinha o que discutir.
Isabella parecia querer sair correndo dali. Aquilo não era o que ela estava esperando. Será que ela esperava o que: o pai dela ali pra dar as boas vindas? Estava tudo parecendo conversa fiada. Ela conviveu com James durante quatorze anos, enquanto eu estava convivendo a apenas três e já sabia que o cara não valia nada.
- Estou com a casa cheia de convidados e a minha cama também já está lotada. Acho melhor ela ir pra um hotel até eu conseguir falar com o papai dela.
Sem abrir a boca pra dizer nada, a garota tomou a mala dela das mãos de Mason. Notei que seus olhos estavam marejados e senti a consciência pesar. Será que eu deixei passar alguma coisa? Será que ela queria que recebêssemos ela de braços abertos?
Isabella correu pra saída e eu vi a alegria de Mia quando a garota passou por ela.
- Sabia que você é um cretino insensível? – Mason rosnou pra mim. Eu não queria discutir. Mia se aproximou de onde estávamos com um sorriso triunfante no rosto. Ela tinha adorado aquela cena e compreendi o motivo: Isabella era uma lembrança de tudo o que Mia não tivera quando criança.
- Ela continua exatamente como me lembro: pálida e sem graça. – Murmurou minha irmã enquanto se sentava ao meu lado no sofá.
- Você é tão cega quanto malvada. Você pode odiá-la à vontade, mas não pode negar que ela é de dar água na boca. – Mason bufou.
- Não comece, Mason. – Falei em tom de alerta com ele. Mia poderia parecer feliz, mas eu sabia que acabaria desabando se parasse um pouco pra pensar nas coisas.
- Se você não for atrás dela, eu vou, Nick. Vou levar aquela bunda gostosa pra minha casa. Ela não é o que vocês estão pensando, eu conversei com ela. Isabella não sabe de nada, o idiota do James é quem pediu que ela viesse pra cá. Ninguém é capaz de mentir tão bem assim. – Disse Mason olhando com raiva pra mim e pra Mia.
- Até parece...meu pai jamais pediria uma coisa dessas. Ela veio pra cá porque é interesseira. Deve ter sentido o cheiro do dinheiro. Vocês viram a roupa dela? – Mia disse e torceu o nariz de nojo.
- Claro que vi. – Mason deu uma risada. – Porque vocês acham que eu quero tanto leva-la pra casa? Ela é muito gostosa, Mia, e não estou nem aí para o que você diz. A garota é inocente, está perdida e tem um corpo sensacional.
Terminando de falar, Mason virou as costas e se encaminhou para a porta. Ele ia atrás da garota e eu não podia permitir. Era fácil enganá-lo. Posso até concordar com o fato da garota ser um colírio para os olhos, mas ele estava pensando apenas com a cabeça inferior.
- Mason, pode parar aí. Deixa que eu vou atrás dela. – Avisei, me levantando.
- O que?! – Mia questionou, horrorizada.
Mason parou e me deixou passar por ele para fora. Não olhei pra Mia. Mason estava certo: eu precisava saber se Isabella estava fingindo ou se fora chamada para vir até aqui pelo idiota do James. E também queria dar uma boa olhada nela sem nenhuma plateia.
Isabella andava em direção a uma picape bastante velha e detonada quando abri a porta e saí. Fiz uma pausa imaginando se a camionete era realmente dela ou se alguém a tinha velado até ali. Estreitei os olhos na escuridão tentando enxergar se tinha alguém dentro do veículo, mas não consegui ver nada devido à distância.
Ela abriu a porta do motorista e fez uma pausa, respirando fundo. A cena poderia até ser considerada dramática se ela soubesse que estava sendo observada, mas pela forma que seus ombros arquearam, ela não fazia ideia.
Ninguém poderia questionar que ela era linda, mas ela havia sido criada por um homem que não passava de um aproveitador. Ela poderia ser uma grande manipuladora: usa da beleza para conseguir o que quer, sem se importar com quem poderia machucar pelo caminho.
Eu desci as escadas da porta da frente e caminhei em direção da picape. Isabella ainda estava sentada no banco do motorista e eu queria que ela fosse embora antes que Mason caísse em seus golpes. Ele era um alvo fácil pra ela, caso ela quisesse se aproveitar dele.
Ela se virou e nossos olhares se cruzaram pouco antes dela soltar um grito. Seus olhos estavam vermelhos, dando a real impressão de que ela estava chorando de verdade. Talvez aqui realmente não fosse um golpe, até porque não tinha ninguém ali fora pra ela dar show.
Sem dizer nada, ela apenas virou para o volante e girou a chave na ignição. O carro não pegou e ela começou a ficar histérica ao tentar fazer a picape pegar, mas, pelo barulho, imaginei que não houvesse uma gota de combustível no tanque.
Confesso que vê-la frustrada, dando tapas no volante, foi uma cena bem engraçada. De que adianta dar esse show se ela tinha deixado o tanque vazio? Se não fosse tão inocente quanto aparentava, posso dizer que ela era uma excelente atriz.
- Problemas?
- Acabou a gasolina. – Respondeu ela, baixinho.
Pela sua expressão, ela não queria dizer que não conseguia ir embora. Me lembrei de que ela era filha de James Wynn e que ele a havia criado, a que ele preferia, abandonando a Mia durante todos aqueles anos. Eu não sentiria pena dela. Eu não poderia deixa-la voltar pra casa. Se deixasse, teria que lidar com a Mia. Do contrário, seria Mason quem cuidaria dela e, então, tinha grandes chances de que ela se aproveitasse dele.
- Quantos anos você tem?
Eu já deveria saber a resposta, mas pensei que ela fosse mais velha do que aparentava. Ela arregalou os olhos e a expressão assustada fazia com que a garota parecesse mais nova. O único sinal de que ela era mesmo maior de idade era a forma como ela preenchia a regata e os jeans.
- Dezenove.
- Serio? – Perguntei, sem saber se deveria ou não acreditar nela.
- Serio.
- Foi mal, mas é que você parece mais nova. - A testa franzida dela era uma graça, mas eu não podia pensar dessa forma. Droga. Ela significava problemas e eu não estava precisando de problemas como esses agora. Passei meus olhos pelo corpo dela, para que ela soubesse que eu não era confiável. – Retiro o que disse. Seu corpo
tem toda pinta de dezenove. Na verdade, é o seu rosto que parece de uma pessoa muito mais jovem. Você não usa maquiagem?
- Olha aqui, Nick, minha gasolina acabou e eu tenho apenas US$20,00 na bolsa. Meu pai fugiu e me abandonou depois de prometer me ajudar. Acredite em mim quando digo que ele seria a ultima pessoa para quem eu pediria ajuda. E não, eu não uso maquiagem. Tenho problemas maiores no momento do que cuidar da minha aparência.
Era impressão minha ou eu tinha sentido um desprezo pelo seu querido pai em sua voz? Tinha quase certeza de que sim. Parece que James estava na sua lista negra. Eu estava ponderando o fato de que Isabella seria outra vitima de James Wynn. Ele abandonou Mia e parecia ter abandonado Isabella também e, com isso, eu estava prestes a fazer algo pelo qual poderia me arrepender mais tarde.
- Olha, Isabella, eu não gosto do seu pai e, pelo tom da sua voz, você também não. Tem um quarto vazio hoje a noite e vai ficar vazio até que minha mãe retorne de viagem. Minha empregada vem fazer faxina apenas uma vez por semana, então você pode ficar no quartinho que tem embaixo da escada. É pequeno, mas tem uma cama.
- Minha alternativa é dormir na picape. Então posso te garantir que o que está me oferecendo é bem melhor do que eu tenho. Obrigada.
Serio mesmo que eu estava deixando essa garota dormir dentro do carro na rua? Aquilo era bem perigoso.
- Cadê sua mala?
Isabella fechou a porta da picape e foi até a traseira pegar a mala. Vendo que ela poderia não conseguir levantar por cima da carroceria, estendi o braço por trás dela e peguei a bagagem. Ela se virou assustada, o que me fez sorrir.
- Posso carregar sua mala. Não sou tão babaca assim.
- O-Obrigada. – Ela agradeceu sem tirar os olhos inocentes de mim.
Caramba, ela tinha olhos lindos e eu não estava costumado a ver garotas sem maquiagem com muita frequência. A beleza natural de Isabella era espantosa, o que me fazia lembrar que ela representava problemas. Uma coisa era certa: teria que manter distância dela.
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Atualizado até capítulo 22
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