Capítulo 04

ISABELLA

Depois que passei pela porta da casa, enxuguei os meus olhos e me forcei a respirar fundo. Eu não podia desmoronar agora. Não tinha desmoronado quando segurei as mãos da minha mãe enquanto ela dava seu ultimo suspiro de vida; não desmoronei quando seu caixão fora baixado para dentro da terra; e também não desmoronei quando vendi o único lugar que tinha para morar.

Não ia ser agora que eu iria desmoronar. Eu iria sair dessa, tinha certeza que daria um jeito de dar a volta por cima. Eu não tinha dinheiro para pagar um quarto de hotel, mas tinha a minha picape. Eu poderia morar nela. Teria que arrumar apenas um lugar seguro para estacionar durante a noite.

Eu teria que gastar meus últimos US$20,00 em gasolina. Talvez eu poderia ir para uma cidade maior, estacionar atrás de um restaurante e arrumar um emprego de garçonete. Nesse cenário ideal, eu não precisaria de gasolina para ir e voltar do trabalho.

Minha barriga roncou, lembrando-me de que eu não tinha comido nada desde a manhã, quando peguei estrada. Precisaria gastar alguns dólares com comida e rezar pra arrumar um emprego assim que amanhecesse. Eu ficaria bem. Eu tinha que ficar bem. Não tinha outra alternativa pra mim.

Antes de engatar a marcha ré, eu virei a cabeça para olhar atrás da picape e um par de olhos me encaravam. Dei um grito antes de perceber que era o tal de Nick. O que ele estava fazendo ali? Será que ele tinha ido conferir que eu estava indo embora? Eu realmente não queria falar com ele.

Girei as chaves, mas ao invés de ouvir o barulho do motor, tudo o que ouvi foi um clique. Rezei para estar enganada. Eu não poderia estar com o tanque vazio. Ainda tinha alguns quilômetros, eu sei que tinha. O marcador estava quebrado? Estava, mas eu prestei atenção na quilometragem.

Bati com as mãos no volante e xinguei minha picape várias vezes, mas nada aconteceu. Eu estava ferrada. Será que Nick iria chamar a policia? Ele até veio conferir que eu fosse embora, mas agora que eu não conseguia ir embora, será que ele mandaria me prender? Pelo menos na cadeia eu teria uma cama e comida de graça.

- Problemas? – Ele perguntou enquanto eu descia da picape.

- Acabou a gasolina.

Minha frustração era grande que eu não sabia o que dizer. Nick deu um suspiro e eu permaneci em silêncio. Decidi que, na minha situação, o melhor a se fazer era esperar pra receber o veredito.

- Quantos anos você tem?

Hã? Serio mesmo que ele estava perguntando a minha idade? Que cara estranho: ele queria que eu fosse embora da casa dele, eu estava presa na entrada de carros e, em vez dele falar sobre minha possíveis alternativas, ele perguntava minha idade. Vai entender.

- Dezenove.

- Serio? – Ele perguntou erguendo as duas sobrancelhas.

- Serio.

Juro que eu estava me segurando para não ficar irritada. Eu precisava que ele tivesse compaixão de mim e ele ficava ali fazendo suas perguntas aleatórias? Me forcei a engolir o comentário irônico que estava na ponta da minha língua, mas eu apenas sorri. Nick eu de ombros.

- Foi mal, mas é que você parece mais nova. – Ele parou de falar e seus olhos desceram pelo meu corpo e tornaram a subir. Eu me senti constrangida e senti o calor chegar ao meu rosto. – Retiro o que disse. Seu corpo tem toda pinta de dezenove. Na verdade, é o seu rosto que parece de uma pessoa muito mais jovem. Você não usa maquiagem?

Esse cara estava me irritando. O que ele estava fazendo? Onde ele estava querendo chegar? Eu queria saber o que o futuro estava me reservando e não ficar falando sobre o fato de usar ou não maquiagem.

- Olha aqui, Nick, minha gasolina acabou e eu tenho apenas US$20,00 na bolsa. Meu pai fugiu e me abandonou depois de prometer me ajudar. Acredite em mim quando digo que ele seria a ultima pessoa para quem eu pediria ajuda. E não, eu não uso maquiagem. Tenho problemas maiores no momento do que cuidar da minha aparência. – Fechei a minha boca para encerrar o meu desabafo. Eu me senti pressionada e não consegui segurar a língua.

Nick ficou me olhando em silencio, o que estava me deixando bastante desconfortável. Eu tinha acabado de compartilhar informações demais com aquele sujeito e, se ele quisesse, poderia dificultar bastante a minha vida.

- Olha, Isabella, eu não gosto do seu pai e, pelo tom da sua voz, você também não. Tem um quarto vazio hoje a noite e vai ficar vazio até que minha mãe retorne de viagem. Minha empregada vem fazer faxina apenas uma vez por semana, então você pode ficar no quartinho que tem embaixo da escada. É pequeno, mas tem uma cama.

Ele estava me oferendo um quarto? Será que eu estava entendendo direito? Eu não iria cair em prantos, poderia fazer isso mais tarde e, pelo menos, não iria para a cadeia. Graças a Deus.

- Minha alternativa é dormir na picape. Então posso te garantir que o que está me oferecendo é bem melhor do que eu tenho. Obrigada.

- Cadê sua mala?

Fechei a porta da picape e fui até a traseira pegar a mala, mas, antes que eu pudesse estender a mão, um corpo quente com um cheiro desconhecido e delicioso se esticou por cima do meu. Congelei enquanto Nick pegava a minha mala e a puxava para fora. Eu me verei e o encarei. Ele piscou pra mim.

- Posso carregar sua mala. Não sou tão babaca assim.

- O-Obrigada. – Ela agradeceu sem tirar os olhos inocentes de mim.

Os olhos de Nick eram inacreditáveis de tão lindos que eram. Seus cílios grossos e pretos emolduravam seus olhos parecendo um delineador. Ele tinha um realce natural em volta dos olhos. Que injustiça. Eu daria tudo para ter cílios como os dele.

- Ufa, ainda bem que você a deteve. Eu estava dando alguns minutos antes de sair pra me certificar de que não tinha afugentado totalmente a garota.

A voz conhecida de Mason me fez sair do transe em que estava e eu me virei, agradecendo a interrupção. Estava encarando os olhos de Nick feito uma retardada.

- Ela vai ficar no quarto da empregada até eu conseguir falar com o James. Tome. - Ele entregou minha mala para Mason. – Mostre o quarto a ela, tem gente me esperando lá dentro.

Enquanto Nick se afastava, eu precisei de toda a minha força de vontade para não ficar olhando ele ir embora, principalmente porque o seu traseiro naqueles jeans justos era muito tentador. Ele não era alguém por quem eu devesse me sentir atraída.

Mais uma vez me tirando dos pensamentos impuros, a voz de Mason soou como musicas aos ouvidos.

- Esse meu irmão é mal-humorado demais.

- Pode deixar que eu levo minha mala pra dentro. – Falei estendendo minha mão para pegá-la.

- Ei, eu sou o irmão gentil. Não vou deixar você carregar esta mala tendo um par de braços fortes para carrega-la.

- Irmão? – Perguntei.

- Ops...acho que eu esqueci de dizer que eu sou filho do marido numero dois da Charlotte. Ela ficou casada por doze anos com o meu pai. Quando se separaram, eu tinha 3 anos e Nick 4. O simples fato do meu pai ter se divorciado da mãe dele não mudou o fato de que nós já éramos irmãos. Tanto que fomos para a faculdade juntos.

- Quantos maridos a Charlotte teve?

- O seu pai é o número quatro. – Mason deixou escapar uma risada curta e dura.

Caminhando para dentro da casa, não parava de pensar no quanto meu pai era um idiota completo. Aquela mulher parecia trocar de marido como trocava de roupa. Quanto tempo ela iria demorar até se livrar dele?

Mason andava alguns passos à minha frente em silêncio. Seguimos na direção da cozinha, que era um cômodo imenso, com bancadas de mármore preto e aparelhos aparentemente complicados. Me lembrava aqueles lugares que saem nas revistas de decoração.

Ele abriu uma porta que parecia uma grande despensa com espaço para uma pessoa entrar. Sem entender, olhei em volta e o segui até lá dentro. Ele foi até o fundo e abriu uma outra porta. Havia espaço suficiente para nós dois ali. Ele colocou minha mala em cima da cama. Olhando em volta, era perceptível que estávamos embaixo da escada. Tinha um criado-mudo espremido entre a cama e a parede e, tirando isso, não tinha mais nada.

- Este quarto é bem pequeno. Não tenho nem ideia de onde você vai guardar suas coisas. Honestamente, é a primeira vez que venho aqui. – Mason suspirou. – Se você quiser, pode ir comigo e ficar no meu apartamento. Pelo menos eu tenho um quarto no qual tenha mais conforto.

Mason estava se mostrando ser uma pessoa bastante gentil, mas eu não estava disposta a aceitar sua oferta. Ele não precisava de uma hospede indesejada ocupando um dos seus quartos. Pelo menos naquele quartinho eu poderia passar desapercebida e ninguém iria me ver. Ali eu não tinha a sensação de que estava impondo a minha presença a eles.

Esperava que Nick pudesse deixar eu ficar ali até que eu arrumasse um emprego. Com dinheiro suficiente em mãos, eu iria embora dali.

- Obrigada pela oferta, mas aqui está perfeito pra mim. Pelo menos assim eu não atrapalho a vida de ninguém, inclusive a sua. Além do mais, amanhã o Nick vai ligar para o meu pai e descobrir quando ele volta.

- Detesto deixar você aqui, parece errado. – Ele corria os olhos pelo lugar com a cara feia.

- Pra quem ia passar a noite na picape, esse quartinho está mais do que ótimo.

- Você ia dormir na picape? – Mason franziu o cenho.

- Eu ia, mas agora tenho um pouco mais de tempo pra decidir qual será meu próximo passo.

- Você me promete uma coisa? – Pediu, enquanto passava as mãos pelos cabelos desgrenhados. – Se Nick te expulsar de casa, não vá embora antes de ligar pra mim.

- Mas eu não tenho o seu número.

- Onde está o seu celular pra eu poder gravar meu número?

- Eu não tenho celular.

- Não tem celular? Por Deus, Isabella, não é à toa que você anda armada, mulher.

Então ele colocou as mãos nos bolsos e encontrou um papel amassado. Eu tirei da bolsa uma caneta e entreguei pra ele. Mason anotou o número rapidamente e me entregou o papel e a caneta.

- Estou falando sério, Isabella, liga pra mim se precisar de qualquer coisa, ok?

- Eu vou. – respondi, mesmo sabendo que jamais ligaria.

- Espero que você durma bem aqui.

Ele olhou em volta com um ar preocupado, mas assentiu e saiu do quarto, fechando a porta logo depois que passou por ela. Esperei até que ouvi ele fechando a porta da despensa para a cozinha antes de me sentar na cama. Aquilo estava bom. Eu poderia me virar com o que tinha conseguido até aqui.

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!