Morte
O sopro gélido da morte me alcançava cada vez mais; não importa para onde eu me virasse, ela estava sempre lá.
Me assombrando.
Quanto mais eu tentasse fugir, mais próximo eu ficava deste maldito destino, que me revira a cabeça.
Nem o amparo caloroso dos braços de Petter, me desviava a atenção, da ameaça eminente de morte vinda do Deus da vida. O vazio da madrugada já coroava os céus, eu estava de volta ao escuro, mas desta vez, o frio não me alcançou, pois a luz de Leviak estava lá, mais viva do que nunca, e ao me aproximar do clarão, a visão a minha frente ganhava forma, um lugar muito familiar aos meus olhos.
O parque King Rama IX, em Bangkok, onde costumávamos ir em família, antes do falecimento do meu pai. Leviak estava parado a apreciar a calmaria das águas do Lago; me aproximo lentamente dele, e percebendo sua feição alegre, ele suspira e fala.
— Lembra quando viemos aqui pela última vez? Você ainda era uma criança, seu pai caminhou com você nos braços, e você lembra o que ele falou?
— "Não se esqueça pequeno ursinho, você sempre pode cortar o fio vermelho do destino" — Respondi tristonho pelas lembranças.
— Por que acha que ele te disse isso? — Ele me olhava com um brilho nos olhos
— Eu não sei! Ele sempre estava falando coisas estranhas.
— O que aconteceu depois disso? Você se lembra?
— Voltamos para casa, ele saiu, e não voltou mais...
— Não Misoun! O que ele te disse antes de sair?
— Disse que iríamos conversar quando ele voltasse — Estranhei suas perguntas — Por que está me perguntando essas coisas?
Ele sorri meigo
— Não é nada, não se preocupe — Começa a caminhar — Talvez um dia nós possamos voltar aqui juntos, separados — Termina rindo
— Isso é possível mesmo? — Me espantei criando esperanças
— Claro! Mas não do jeito que meu pai quer, não se deixe enganar por ele. Me prometa, que não importa o que ele fale, não vai aceitar morrer só para que eu volte com ele?
Sua revelação me espantou, embora eu já soubesse o que Teledom quer. A possibilidade de devolver a vida a Leviak, me passou pela cabeça inúmeras vezes desde que o conheci, mesmo que isso signifique abrir mão da minha.
— Me prometa Jimmy? — Ele falava sem ser ouvido — Jimmy?
— O que? Ah! Sim, tudo bem, eu prometo. Mas, como eu posso te ajudar?
— Não tente enxergar além do que seus olhos podem ver, pequeno Misoun. Já tem muitos problemas, não se preocupe com isso, sim? Apenas por hora, deixe as coisas como estão.
— Tudo bem!
— Agora vá, está na hora de acordar.
Ele para repentino, seu corpo translúcido quase se camuflava com a paisagem, ele ergue uma de suas mãos em minha direção, com sua palma erguida, e eu faço o mesmo, aproximando minha mão da sua; o calor de seu ser aos poucos ofuscava minha visão, e já com os dedos entrelaçados, a luz toma conta de tudo, e então eu acordo.
Abrindo meus olhos de vagar, percebendo que Petter estava a dormir, sereno a meu lado, com seus braços entrelaçando minha cintura, seus lábios semicerrados, completamente em paz.
Levanto sem fazer alardes, caminhando em direção a sala de reunião; a penumbra dos cômodos só era iluminada pela luz natural do ambiente, que vinha da vidraça da janela. Chegando na sala, consigo ver alguém sentado sozinho em plena escuridão encarando a janela; me aproximando, percebo ser Derek que estava assentado ali.
— Derek? Já vai amanhecer, você não dormiu nada?
— Como ele está? — Pergunta desviando o assunto — Você falou com Leviak de novo, não foi?
— Sim! Ele vem todas as noites, como um sonho — Respondi sorrindo
— Eu fico feliz por vocês se darem bem, apesar de você ter sido criado só para sustentar a alma dele. Agora são como irmãos, e isso é incrível.
— Leviak falou sobre nós separar. Isso é mesmo possível?
— Claro que sim, ele vive, como você bem sabe. Teledom recuperou a alma dele, mas o corpo físico havia sido destruído, foi por isso que ele fez você — Ele levanta e me olha — Se encontrarmos outro receptáculo, forte o suficiente para aguentar a alma do Leviak, poderemos separá-los, mas — Suspira pesado antes de continuar — Isso pode custar muito, seu corpo pode não aguentar o processo de separação, e não sabemos como o outro receptáculo vai reagir, o poder da alma do Leviak pode destruir a dele.
— Mas ainda tem uma chance, não tem? Então nós temos que tentar, não importa os riscos — Disse me exaltando um pouco.
— Petter não vai aceitar isso! Arriscar sua vida para salvar uma alma desconhecida
— Não importa! Petter não tem que aceitar nada. Eu vou ajudar o Leviak
— Tudo bem pequeno, você que manda — Seu sorriso engrandece — Eu vou tratar de encontrar o receptáculo perfeito, mas por hora, não conte nada a Petter, e tome cuidado com Teledom.
— Não se preocupe.
— Agora vamos, me ajude a acordar os outros, temos muito a fazer — Caminha me puxando com ele.
Descemos a escada, desviando dos corpos espalhados por todos os lados; pessoas dormindo no chão, nos degraus, por onde se via, havia alguém dormindo. Então ao chegarmos no final, uma voz um tanto familiar roubou a atenção.
— Que bom vê-lo de novo anãozinho branco.
O mesmo homem de outrora, cabelos escuros, roupas negras e pele alva.
— Ah! Você — Parei o observando — Como é seu nome mesmo?
— Pode me chamar de açougueiro — Ele sorri de lado
— Legal! Mais alguma coisa? — Derek pergunta ríspido — Vamos Jimmy — Caminha apressado me puxando — Olha pequeno, não se aproxime muito dessas pessoas, não é só porquê estão do nosso lado, que são boas pessoas, a maioria não se importa com quem você é, tome muito cuidado com eles. Principalmente o açougueiro.
— Porquê esta me dizendo essas coisas? Quem é ele
— Nós o encontramos em Oldport, depois de um massacre horrível a uma família que devia a ele.
— Eu entendo o que você quer dizer, mas ate aí, ele não é muito diferente do Petter, você não acha?
— É! Você está certo — Ele sorri — Então fique longe do Petter também.
Ambos sorrimos juntos, e descemos para o subterrâneo, onde a maioria dormia.
Embora caminhássemos juntos, ninguém fazia ideia do que fazer, ou qual seria nosso próximo passo.
E o mais importante
Qual dos lados atacaria primeiro?
Seria Teledom reclamando Leviak?
Beatrix terminando o que começou a três anos atrás?
Ou
Boutrix querendo trazer a era negra novamente?
Fosse como fosse, estávamos no fio da navalha, apenas a espera do ataque que seifaria nossas vidas. Cercados por todos os lados, nos arrastando por uma migalha de esperança, como tolos.
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Atualizado até capítulo 56
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