O Oriente acinzentado resplandecia através da janela, o calor reconfortante dos braços de Petter, me trazia um acalento exacerbado. Nada fora dito, e nós ficamos ali, juntos pelo resto do tempo que nos restava.
Pela primeira vez, desde que voltei para Nightmare, me permiti descansar; meu corpo cedeu a seus pedidos silenciosos, aos poucos, fora adormecendo nos fortes braços do Demônio a minha frente.
Uma luz me tomava, o clarão alvo vinha até mim, crescendo gradativamente até que tomasse todo o meu ser; uma luz que acalentava e pacíficava todos os meus temores. Logo uma voz surgiu, uma voz doce e familiar, parecida com a minha, mas ainda sim, tão diferente...
— Eu esperei muito por esse dia Jimmy — Uma voz surgiu da luz — Por favor não pense mal de mim, mas eu gostaria muito de poder conversar com você, finalmente.
A silhueta alva aos poucos fora ganhando forma, um garoto surgia a minha frente, sua pele clara quase transparente brilhava com a luz, seus cabelos negros como a noite e olhos profundos com um tom preocupado, me causavam um aperto no peito, mesmo que nunca tivéssemos nos visto, sua feição tristonha desolava minha alma.
— Eu sei que não gostou da ideia de ter seu corpo invadido assim, mas eu fiquei muito feliz quando soube de minha existência — Ele dizia com um largo sorriso.
— Q-quem é... — Não terminei — V-você é ele? Leviak
— Sim! — Ele se alegra — Sou eu Jimmy, venha, vamos conversar.
Ele caminha a minha frente, e mesmo sem querer, eu o segui. O garoto de minha estatura era como um espelho meu, era como estar vendo a própria alma.
— Sabe Jimmy, mesmo que você não soubesse, eu estive com você desde que nasceu — Ele dizia sereno — Nós crescemos juntos, sorrimos juntos, choramos juntos, e a essas altura de nossas vidas, não há nada que eu não faria por você — Para repentino e me olha — Por isso eu achei que essa era a melhor hora para nos conhecermos finalmente. Eu sinto seu desespero, sua tristeza, então me permita guiá-lo por um outro caminho.
Seus olhos escuros se mantinham fixos nos meus, seus sorriso meigo cresceu em instantâneo. Leviak era como a mais profunda certeza, como um sonho bom do qual ninguém quer acorda, tão familiar e tão desconhecido ao mesmo tempo; estar com ele, fora como ser lançado em um precipício de incertezas mais certas.
— Agora você acha que só existem duas escolhas, seguir o destino escolhido para você ou abraçar a escuridão. Mas eu quero que saiba, não é só porquê meu pai lhe criou, que deve viver e morrer seguindo suas ordens. Você pode escolher o que quer fazer, não precisa viver em subserviência cega a ele.
Suas palavras eram confusas, mais ainda sim, faziam todo o sentido.
— O que você quer dizer com isso? Eu não entendo.
— Escolha o seu próprio destino, siga seu coração, e escreva seus própria história. É o que eu quero que você entenda, não se martirize por isso, ninguém pode lhe dizer pelo que você deve morrer, olhe dentro de você, e escolha porquê lutar.
— Você está me dizendo, para ir contra seu pai? — Estranhei suas atitudes.
— Sim! Estou dizendo para cuidar de si, antes de querer cuidar do mundo — Ele levou suas mãos até meu rosto — Eu amo meu pai, e graças a você, eu pude conhecê-lo. Mas você é meu Misoun, compartilhamos o mesmo corpo, e eu não quero te perder — Senti minhas lágrimas descerem — Então por favor, não deixe que meu pai descida sua vida, faça isso por mim, sim? Viva por nós, seja feliz e eu serei feliz também.
— Eu entendo! Você tem razão, obrigado. Eu farei isso por você, por nós, não por que ele me obrigou.
— Esse é meu Misoun! — Ele esfrega meus cabelos com um largo sorriso.
— Embora eu não o visse, eu sempre soube que estava comigo.
— Sim, e sempre estarei! Agora vamos, está na hora de acordar.
Ele passa seu braço por volta do meu ombro, e juntos, nós caminhamos rumo a luz outra vez. E durante o caminho, Leviak não parava de sorrir, e sua felicidade me dominava, não haviam mais temores, angústias ou dúvidas; sobrara apenas a certeza de que agora, mais do que nunca, eu queria viver, não por Teledom, Derek ou Petter, mas por mim, pela primeira vez, por mim, e por ele. Leviak, meu irmão e meu Misoun.
A curta conversa com ele, me trouxe acalento, me proporcionou a certeza que eu tanto precisava agora; a certeza de um caminho a seguir, o caminho que eu escolher, nem certo ou errado, nada de luz ou escuridão, Boru ou Teledom; apenas eu e Leviak.
— Vá Jimmy! E lembre-se, que nunca esteve sozinho — Termina com um abraço apertado — E não deixe meu pai te separar de mim.
— Obrigado! — O abracei de volta — Eu não vou deixar, eu prometo.
Leviak sumia em meus braços, a luz nublava minha visão, pouco a pouco, meus olhos entreabriam, dando lugar a imagem do teto da torre sobre minha cabeça; virei lentamente para os lados, percebendo já estar deitado na cama, o ambiente estava escuro, a janela aberta, dava a visão do céu noturno. O silêncio reinava dentro do pequeno cômodo, lentamente, me assentei na cama, lembrando de cada palavra dita por Leviak, sua imagem não saía de minha cabeça, e agora, sozinho no quarto, levo minha mão direita até meu peito, e sentindo os batimentos do nosso coração, eu falo.
— Não se preocupe Leviak, nós não vamos perecer, é a minha vez de cuidar de você!
Levantei abrupto correndo para fora do quarto; de longe eu podia ouvir as vozes alteradas, discutindo nosso próximo passo e preocupações elevadas sobre minha possível ida para a escuridão podia ser vista, então sem que percebessem, me encosto na parede, apenas os ouvindo falar.
— Fale com ele Petter, convença-o! — Bermac diz alterado
— Não seja tão precipitado, ele não vai ficar mal só por causa disso, sua raposa maldita.
— PETTER, BERMAC! — Leon grita — Vamos manter a calma, nada está decidido, ele só precisa descansar, vai pensar melhor quando acordar.
Eles discutiam sobre mim, sem se quer prestar atenção ao seu redor.
— Exatamente, ele vai ficar bem! — Derek garante — Ele vai cumprir seu destino.
— Não! Eu não vou — Todos se espantam me olhando.
— JIMMY — Petter levanta de repente — Você acordou.
— O que você quer dizer com "Não vou"? — Derek pergunta assustado.
— Eu não vou fazer o que você quer — Respondi ríspido — E não vou morrer por ele.
— Jimmy, pense melhor, você...
— NÃO DEREK! — O interrompi — Eu já me decidi, não vou morrer por um mundo que não é meu, por pura obrigação.
— Então você vai... — Bermac tenta falar, mas perde a coragem.
— Não, eu não vou. Tenho os meus motivos para continuar com vocês, mas de uma coisa você pode ter certeza, eu não vou cumprir esse seu destino doentio, não vou morrer por que ele decidiu que seria assim, e vocês dois, não vão tirá-lo de mim. Entendeu? — Paro olhando Derek — Nós vamos acabar com Boutrix, impedí-lo de trazer a era negra, recuperar Nightmare, e depois disso, acabou. Sem escolhido, sem profecia, sem destino, sem nada dessa MERDA, você vai voltar para sua realidade, e vai me deixar em paz, com ele. Será que eu fui claro? Guardião — Terminei com desdém.
Derek fecha os olhos, respira fundo soltando todo o ar de uma vez, e me olhando ele fala.
— Tudo bem, se é o que você quer, que assim seja. Quando tudo acabar, eu vou embora, e falarei com Teledom, sobre você e Leviak, eu prometo.
— Obrigado!
— Espera, quem é Leviak? — Petter diz em um tom Bravo e confuso.
— Ele é o meu Misoun!
Feições ainda mais confusas surgiram.
— Você falou com ele? Como? Isso não pode acontecer — Derek diz atônito.
— Eu não sei como, só sei que ele vive, nós crescemos juntos, e agora que eu finalmente posso falar com ele, não vão tirá-lo de mim.
— Espera, O QUE... — Petter parecia ainda mais confuso a cada palavra dita.
— Tudo bem pequeno, tudo bem, como quiser.
Fora só o que ele disse, e logo se retirou. Caminhou para fora da torre, fechou os olhos, e sussurrando ele chama por ele.
— Você ouviu, certo?
— Eu não imaginei que isso fosse acontecer, o que adianta saber o passado e o futuro, se as coisas não param de mudar — Teledom diz de costas.
— Admitia! Perdeu o controle sobre ele, Leviak pode ser seu filho, mas ele não te conhece, não tem laço nenhum com você. Ele não vai permitir que mate Jimmy, só para poder voltar a vida.
— Você não sabe... Ele é meu filho, o lugar dele e comigo — Ele diz atordoado.
— Se fizer isso ele vai te odiar. Por favor, só uma vez, me escuta, deixe eles escolherem seu próprio caminho, você que os colocou juntos, quando ninguém queria, agora que querem, você quer separá-los? Deixe-os Ammian, eu to te pedindo, por mim?
Mas Teledom não respondeu, jogou sua luz e desapareceu repentinamente, atordoado pelos recentes acontecimentos.
O Deus não sabia o que fazer, não podia aceitar a rejeição de seu filho. Como ele pode ter escolhido o receptáculo e não ele? Era o que pensava, e por alguns segundos, Teledom se arrependeu de ter escolhido Jimmy, de ter o deixado com seu filho; poderia ter escolhido qualquer outro; mas justo Jimmy, seu irmão de alma ou sua alma gêmea como dizem na terra.
Mas ele não podia imaginar, que existiria um vínculo tão forte assim entre alma e receptáculo; um não podia viver sem o outro.
Então, o que fazer? Ele sabia, mas os riscos eram grandes de mais.
Inimagináveis.
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Atualizado até capítulo 56
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