A noite estendeu o véu estrelado, Derek ainda permanecia lá fora; pensativo, temeroso, sua feição parecia carregar o peso do mundo nas costas.
Ele encarava a penumbra do oriente, com olhos fixos e brilhantes, como quem buscava suas respostas no vazio da escuridão; Teledom já havia ido a algum tempo, mas ele ainda permaneceu lá, sozinho, quase catatônico.
Eu o observava pela janela, e por alguns segundos relutei em ir falar com ele, mas ao vê-lo tão perdido, me partia o coração. Então me aproximei lentamente, sem chamar sua atenção, e o vendo ainda de costas eu falei.
— Não se culpe pelas atitudes dele, nada disso é culpa sua.
— É sim! É minha culpa pequeno. Eu poderia ter feito diferente, mas escolhi seguir as ordens dele, mesmo o conhecendo muito bem — Ele fala sem me olhar — Eu temo o que ele pode fazer com você, não vai aceitar a rejeição do Leviak assim, tão fácil.
— O que ele pode fazer? Me matar? Eu não importo, eu vou morrer mesmo no final.
— Não fale assim pequeno! — Vira caminhando até mim — Deve haver outro jeito de cumprir o destino sem que vocês tenham que morrer.
— Se houver, nós encontraremos, pode ter certeza! — Sorri tentando acalmá-lo.
— Sim, você está certo — Sorri de volta
— Vá Iteak, preciso falar com ele
Repentinamente uma voz ecoou pelo ar, roubando a atenção, ele aparece sereno atrás de nós; Teledom, e em suas mãos, carregava um pequeno pingente de estrela dourada, preso a uma fina corrente de ouro.
— Ammian não...
— Tudo bem Derek, pode ir — O interrompi com um sorriso.
Ele caminhou relutante e adentrou a Torre, enquanto Teledom se mantinha fixo em mim; e assim que teve certeza que não nos ouviam, ele proferiu suas palavras duramente em minha direção, como quem cravava uma faca no próprio coração.
— Eu confiei a alma dele a você, e você o rouba de mim
— Eu não roubei nada, Leviak escolheu por sua própria vontade. Ele não é uma coisa que eu possa roubar, sabia?
— Ele não sabe o que quer, é uma criança, o lugar dele é com a família — Disse ríspido
— Uma criança? Ele tem mais de duzentos e quarenta anos, aposto que ele sabe muito bem o que quer — Respondi já impaciente
— Não ouse me contradizer criança, eu te criei, e posso muito bem destruí-lo em um piscar de olhos.
— NÃO PAI...
Subitamente minha visão escureceu, era como estar dormindo ainda acordado; eu já não era dono do meu corpo.
— Leviak...
— Pai, por favor, não faça nada com o Jimmy. Por favor, deixe ele em paz.
— Meu filho! Você não sabe o que está falando, ele é só um receptáculo, dispensável. Você tem uma família, um reino inteiro a sua espera, não pode viver com esse simples humano.
— Ele não é um simples humano, é meu irmão, meu Misoun. Eu não vou permitir que você o machuque, não importa se é meu pai ou não. Fique longe dele.
— Leviak você não está pensando direito. Me escute — Fala colocando a mão em meus ombros — Escute seu pai, sim? Ele não vai durar muito mais, o tempo dele está acabando, então venha comigo, vai se machucar se continuar aqui.
— ESPERA AÍ, O QUE? Como assim ele não vai durar mais ? O QUE VOCÊ VAI FAZER? — O menor se descontrola.
— O que eu já devia ter feito, o tempo desse escolhido está contado.
— NÃO — Grita o empurrando com força — Se encostar nele, nunca mais me chame de filho, eu vou acabar com você.
As palavras de Leviak soaram como a mais terrível praga, alcançaram tão fundo na alma do Deus, que ele sentia que suas entranhas estavam sendo arrancadas com os dentes.
Seus olhos lacrimejaram, e de repente nada mais fazia sentido. Porquê estava fazendo essas coisas? Porquê estava brigando com seu filho? E porquê não conseguia aceitar o fato dele ter escolhido um simples humano, a viver na imortal Iteon como um celestial? Nem ele mesmo sabia, a única coisa que entendia naquele momento, era a dor, uma profunda dor que crescia em sua alma, como um lamento de milhares de pessoas, uma agonia que fora se transformando em raiva, e faria o Deus se arrepender de suas palavras mais tarde.
— Vai se arrepender de ter escolhido esse humano — Sua voz saiu carregada de ódio
— Parece que o Deus da vida é muito egoísta. Se você quer mesmo, entrar em guerra por causa disso, tudo bem, experimente tocar nele.
Teledom fixou seus olhos, nas profundezas esbranquiçadas dos olhos do escolhido, suas lágrimas escorriam e resplandeciam pela luz da lua; a raiva momentânea nublou seus pensamentos, suas atitudes não foram dignas do status que o Deus da vida se orgulhava em ter; muito pelo contrário, agiu com frieza e rancor, e jurou tomar de volta a alma de seu filho, nem que para isso, tivesse que ir contra os seus próprios princípios.
— Você ainda vai voltar comigo...
Fora só o que ele disse, antes de desaparecer furtivamente.
Mas não demorou muito para o Deus cair em si; e a caminho de Iteon, Teledom se arrependeu de ter declarado guerra contra o seu próprio filho, feito uma criança mimada, se arrependeu de não permitir que seu filho viva como um humano. Ele quis voltar, na mesma hora, quis voltar e concertar as coisas, quis fazer as pazes com os dois, mas seu orgulho o impediu de dar um passo na direção certa.
E ao invés de apaziguar conflitos como sempre fazia, o Deus da vida, agora planejava uma guerra contra um de seus escolhidos, imaginava como iria convencer seu filho a voltar para casa, mas antes disso, imaginava o que iria fazer com Jimmy, o Deus julgava que todos os seus problemas eram culpa dele; a rejeição de Leviak, e até mesmo, a frieza de Iteak para com ele, todos faziam de tudo pelo escolhido, e Teledom odiou isso, a inveja do amor, que todos nutriam por Jimmy; e acima de tudo, ele odiou a si mesmo, por ter feito tudo aquilo.
E apesar de ainda haver esperanças, o Deus era orgulhoso de mais para fazer alguma coisa, não daria o braço a torcer por duas crianças desesperadas
Só ficariam juntos por cima do seu cadáver.
E Leviak ficou lá, pela primeira vez em toda sua vida, pôde constatar a beleza do céu estrelado sendo ele mesmo, pois sentia que mesmo não tendo um corpo físico, Jimmy e ele, eram um só, uma só alma, um só corpo. E antes de devolver o corpo para Jimmy, ele suspirou profundamente, sentindo o cheiro salgado do mar, ouvindo o barulho das ondas batendo contra as pedras, os pássaros voando no céu, e sorrindo alegremente...
Ele se foi.
O corpo de Jimmy desfalece abrupto nos braços de Petter, que ouvia tudo, apenas a espera de um movimento busco do Deus, pronto para defender seu amor.
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Atualizado até capítulo 56
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