A penumbra invadia o pequeno cômodo, apenas uma vela ao centro da mesa de madeira, preenchia a iluminação do local; ao meu lado direito, ficavam alguns livros e bíblias amontoados em uma superfície de madeira clara; do esquerdo, apenas uma janela fechada.
Caminhei lentamente, e puxando a cadeira, me assentei frente ao padre; ele permaneceu com um livro em mãos, mas logo o depositou na mesa, se levantou até a pilha de livros, e buscou por outro. Um livro velho com capa vermelha, traços dourados e um título bem ao centro de um círculo
— "Entre Ouro e espada" de "Sr Benjamin James Callaghan"? — Falei confuso.
— Isso — Sua voz ecoou fraca — Sr Benjamin foi um notório cavaleiro que viveu por volta de 1633-1674; nasceu em meio a era negra em Woodwell, seus pais eram meros aldeões, muito pobres, que viviam do cultivo e venda de seus legumes e verduras, sua mãe Mary, fazia deliciosos queijos e especiarias para o Castelo Starford. Quando completou seus dezesseis anos, fora chamado para guerra, assim como todos os outros rapazes de sua idade — Ele parou e bebericou de sua taça — Sua mãe ficou arrasada, mas nada se podia fazer, eram tempos difíceis, e todos tinham que fazer sua parte. A vida de Benjamin estava só começando, não demorou muito até ele se destacar entre os guardiões, o rapaz era forte e valente, e isso chamou a atenção do grão Mestre — Cessou a fala tossindo um pouco — Me perdoe! Onde eu estava? Ah! Ele fora promovido para Guarda Real não muito tempo depois de ser convocado, e após salvar a vida do grão Mestre em um ataque ao Castelo, conquistou seu título de cavalheiro; a cerimônia fora curta pois não podiam se descuidar. Mas sua vida estava prestes a mudar, quando, após uma batalha, ele não voltou.
Meus olhos se arregalarão
— O que aconteceu com ele?
— Todos pensaram que ele havia morrido na guerra; mas isso não era verdade. Sr Benjamin havia sido escolhido, como você, e fora capturado por Boru.
— Então ele era um escolhido? — Minha voz saiu alegre por conhecer outro como eu
— Sim ele era! Você não é o primeiro enviado dos deuses aqui em Nightmare — Parou por um instante pensativo — É aqui que a história se confunde, ninguém sabe o que aconteceu com ele enquanto estava sob o domínio de Boru, mas subitamente, dez anos depois, em 1661 ele apareceu. Sua feição era diferente, vazia, com olhos sem vida, e seus cabelos, pretos como a mais sombria escuridão; em suas mãos, ele levava um livro; esse livro, escrito pelo próprio e ditado por Boru. Seu conteúdo não interessava a mais ninguém, todos achavam loucura as palavras escritas naquele pedaço de papel; um tormento eterno e sem fim em forma de palavras. Não restava muito tempo para Sr Benjamin depois disso.
— Mas porquê ele ficou assim? O que esse livro fez com ele? — Perguntei assustado.
— O livro não era o problema; o problema era que um escolhido não pode viver sem seu núcleo. O núcleo de um escolhido, é a fonte de todo o seu poder, não é a mesma coisa que a alma, pois escolhidos comuns não possuem almas. E Benjamin já não tinha seu núcleo; todos pensaram que ele havia ficado louco, por causa das terríveis coisas vividas por ele nas mãos de Boru. Não era de tudo uma mentira, Benjamin sucumbiu sim, mas não pelos motivos que achavam. Ele era como uma casca vazia, já não falava, não se mexia, apenas paralisado no mesmo lugar, até o dia em que seu corpo padecesse em pó.
— Isso é horrível! Mas porquê está me contando isso?
— Você precisa saber, que para um escolhido, existem destinos piores que a morte.
Sua fala me assustou muito, então é isso que acontecerá comigo? Quando Boutrix disse que não queria me matar, ele pensava em roubar meu núcleo?
— Senhor! O que eu tenho que fazer? Como eu impeço isso? — Gritei repentinamente.
— Mantenha a calma criança, eu disse que escolhidos comuns não podem viver sem o núcleo. Mas você não é um simples escolhido, não é? — Ele sorria estranhamente — Ele lhe deu a espada, não deu? A besta dourada, porquê acha que ele fez isso?
Fechei meus olhos por longos segundos, suspirei pesado, tentando achar a resposta para aquela pergunta, mas nada me vinha a mente. Quando de repente, uma forma se materializa das sombras atrás do padre, e com suas garras, segura o pescoço do mesmo.
— O que pensa que está fazendo, em? Seu velho tolo — A sombra agarra em seus cabelos — O que eu te disse? Não banque o herói, conte a ele só a história do primeiro escolhido, nada mais.
Meus olhos permaneciam arregalados com aquilo, mas quando eu ia me mover, uma voz veio em minha direção.
— NÃO! Não faça isso criança, eu já vivi muito. Tudo depende de você...
A sombra não o esperou terminar, cortou sua garganta em um só passar, jogando ao chão com força seu corpo desfalecidos; logo após ele saiu da escuridão, tomou forma, e Boutrix apareceu.
— Velho idiota! Não conseguiu armar uma simples emboscada. Mas não importa, você está aqui afinal.
Subitamente ele voou tão rápido, grudou uma de suas mãos em minhas bochechas, as apertando, e com força, lançou meu corpo contra a parede; ele se mantinha a minha frente, seus olhos surfavam por cada detalhe meu.
— Já se decidiu? Perguntou a verdade a ele? — Ele para e sorri — Não, você não teve coragem, não é? Não quer magoar seus amiguinhos. Como você é ingênuo.
— Eu não acredito em você, Derek nunca varia aquilo — Falei com dificuldade
— Você acredita mesmo nisso? Não sabe nem da metade do que aquela alma podre já fizera, escolhido. Mas não se preocupe, nós teremos muito tempo para conversar, e nem pense em chamá-lo, seu não, eu o mato, e a todos os seus amiguinhos na sua frente. Você não quer isso, quer?
Eu não respondi, por mais que Derek e Petter escondam segredos de mim, eu jamais permitiria que um deles se machuca-se.
— Bom garoto! Que bom que estamos entendidos, vai adorar sua nova casa.
Nós desaparecemos; o livro que antes estava em minha mão, caiu ao chão, e lá ele ficou...
Em algum lugar do submundo
Reaparecendo em meio a escuridão, um lugar sombrio, como uma masmorra de pedra, com luzes avermelhada, e velas acesas presas a suportes nas paredes, e correntes arrastando pelo chão.
— Alot? — Ele grita procurando por algo
— Sim senhor? — O outro demônio surge em reverência.
— Ah! Ai está você Alot. Por favor queira conduzir o escolhido, as suas novas acomodações — Ele sorria sórdido — E não fique com medo Jimmyzinho, o submundo é um lugar ótimo, logo eu irei te ver.
— Agora mesmo senhor!
Sem a menor cerimônia, o demônio me arrastou, pelos corredores de pedra, até uma sala elegante, inteira decorada no estilo vitoriano; a direita, uma porta vinho; em seu interior, um quarto perfeitamente decorado, com uma cama de casal grande.
— Que lugar é esse? — Perguntei confuso e deslumbrado.
— Sinta-se honrado escolhido, está no quarto do Mestre.
O que?
— Porquê aqui? Eu não quero ficar perto dele.
— Se não quiser, tenho celas ótimas para você, os outros demônios vão adorar saber que a um celestial entre nós. Se preza pela sua segurança, não saia de perto do Mestre, sem ele, você não dura um segundo aqui.
Fora só o que ele disse, e logo sumiu, me deixando completamente só, naquele quarto gigantesco; a janela estava fechada, mas ainda dava para ver a paisagem grotesca e sórdida que o submundo proporcionava; e o quarto de Boutrix se privilegiava de uma vista extensa de toda a pequena Cidade.
Perdi alguns minutos olhando aquela paisagem, observando todos vivendo suas vidas presos aqui, até ter minha atenção roubada pelo dono do quarto.
— Gosta do que vê? — Ele aparece escorado a parede.
— Isso é terrível, como essas pessoas podem viver assim...
— Nos não temos escolha, a maioria nasceu aqui e por isso não sabem, mas os mais velhos se lembram, de como era viver na superfície.
— Vocês viviam na superfície? — Me espantei com sua revelação.
— Sim! Nos habitávamos Nightmare muito antes dos humanos aparecerem aqui e tomarem nossas casas, nossas vidas, e nos expulsarem como cães sarnentos. Não nos culpe por querer de volta o que já era nosso.
Eu não tinha palavras, a história de Nightmare era mais sombria do que eu imaginava.
— Eu não vou te acorrentar, mas peço que não saia deste quarto sozinho.
— Eu sei, seu criado já tratou de me avisar.
— Perdoe Alot, ele nasceu aqui, não está acostumado com visitas.
— O que vai fazer comigo?
— Não seja apressado escolhido, vai estragar a surpresa.
E novamente ele saiu, trancou a porta e me deixou ali, sem saber o que fazer...
Oldport, Catedral salta Shell
Derek se sentia inquieto, caminhava para lá e para cá, se sentava e levantava, estranhando toda aquela demora.
— Que droga está acontecendo Jimmy? — Ele diz passando a mão nos cabelos — Que se dane, eu vou entrar
Derek caminhou apressado até a porta, e sem fazer cerimônia, adentrou o cômodo com toda rapidez;
— Jimmy?
Seus olhos se arregalarão em imediato ao constatar a cena dantesca esquecida ali.
— MERDA! Petter vai me matar.
Ele saiu correndo em disparado da Catedral, gritando aos quatro ventos que Jimmy havia sumido.
— Jimmy sumiu, e o padre está morto!
Disse ele sem rodeios, e vendo as expressões de surpresa com o seu comentário repentino.
— O QUE? — Gritou Petter — Que merda aconteceu aí?
— Eu não sei, Jimmy tinha que entrar sozinho.
— Você deixou ele sozinho? Seu maldito guardião inútil — Petter parte para cima dele, mas é impedido por Bermac
— Olha, as coisas não funcionam do jeito que você quer, Jimmy tem uma missão, e precisa fazer sozinho, querendo ou não, ninguém pode ajudá-lo, nem eu e muito menos você. E você sabe porquê.
Petter ficou quieto, pois sabia muito bem do que Derek estava a se referir.
— O que vamos fazer agora? — Petter suspira pesado.
— Eu não sei, Boutrix deve ter pego ele.
— Eu vou arrancar a cabeça daquele demônio maldito — Ele ardia em raiva
— Precisamos de ajuda, de alguém que conheça Boutrix melhor do que ninguém — Bermac se pronuncia.
— Nem pensar! Não mesmo, ficou maluco? — Petter recusa
— Mas é o único jeito de salvar Jimmy.
— Ele está certo! Se quisermos salvá-lo, teremos que ir até ela. — Derek sobrepõe
— QUE MERDA! Ela não vai nos receber.
— Nós não, mas, você, ela vai. Afinal, se trata de sua mãe, e seu tio. Uma reunião de família — O Guardião termina sorrindo.
— Maldito! — Ele para e pensa — Tudo bem, mas vamos agora mesmo. Esta na hora rever minha mãe.
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Atualizado até capítulo 56
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