Submundo, Palácio de pedra, alguns minutos antes.
Boutrix se mantinha estranhamente calmo, e apesar do escolhido ter fugido, ele tinha plena certeza de que seus planos dariam certo.
— Senhor! Não conseguimos delê-lo, apareceu alguém, e acabou com todos os demônios sozinho — Uma voz aparece de repente
— Alguém? — Ele sorri e pensa — Por acaso, esse alguém, também era um demônio?
— Sim senhor! Ele surgiu da superfície, nunca tinha visto nada como ele antes.
— Ótimo, muito bem meu sobrinho, fique mais forte — Ele comenta consigo mesmo — Pode ir agora
— O que devemos fazer senhor? — O demônio parecia preocupado
— Nada! Deixe-o ir, ele voltará.
— Mas, senhor...
— Vá Garen! E vigie seu irmão por mim
— Sim, senhor!
O demônio desapareceu, e apesar de não concordar com suas ordens, nada podia ser feito. Garen, um demônio baixo, magro e loiro, desapareceu seguindo para a superfície, atrás de seu irmão mais velho.
Pensativo Garen se manteve a imaginar o que faria quando encontrasse seu irmão; não queria entregá-lo, mas também não queria desobedecer seu Mestre.
O que o demônio faria?
Passando-se os minutos, Garen os encontra na floresta, parados a conversar, então sorrateiramente, ele se aproxima para escutar a conversa.
— Confie em mim — Garen escuta de longe
Jimmy se posiciona de costas para Dalgaren, que apenas o observa quieto, e segundos depois, o escolhido sussurra algo, e logo Boutrix aparece. Garen fica espantado e decide se aproximar para ouvir mais.
— Jimmy! Que prazer te encontrar novamente — Boutrix sorri alegremente
Os irmãos se espantaram, olhos arregalados e feições de curiosidade surgiram.
— Me conte de uma vez tudo o que sabe — Jimmy diz convicto
— Eu esperei tanto por você, achei que falaríamos sozinhos.
— NÃO! — Ele grita — Dalgaren fica.
— Eu não vou a lugar nenhum — O demônio se exalta
— Calma! — Boutrix diz levando as mãos para cima — Já que insistem.
Ele rodeou o ambiente com os olhos, caminhou para trás se sentando em uma pedra, e olhando Jimmy ele fala.
— Sabe Jimmy, você não é especial! — Ele sorri — Sabe porquê Teledom te deu a espada dele? Sabe o motivo dele gostar muito mais de você, do que dos outros escolhidos? — Se cala como se guardasse uma resposta — Não, claro que não. Ele jamais te contaria isso.
— Me contar o que? Fale de uma vez
— Que você não está aqui porquê é capaz, ou é o único que pode trazer a paz novamente, não, de fato não é por isso; besteiras que contaram para você aceitar sem questionar — Se levanta e caminha em minha direção — Você só está aqui, por causa do que tem dentro de você — Fala tocando em meu peito.
Por mais estranha que essa conversa pudesse parecer, para Jimmy, fazia todo sentido; ele sempre sentiu que existia algo vivo dentro de si.
— Como assim? Do que está falando — Perguntou sem olhá-lo
— Da alma que compartilha seu corpo. Não me diga que nunca sentiu uma sensação estranha? Como se algo te controlasse, te dissesse o que fazer.
Não o respondeu, paralisou no lugar, pensando em toda a sua vida. Sempre teve algo, ou alguém consigo, lhe dizendo o que fazer, mesmo sem que ele soubesse disso. As respostas das provas, até mesmo as decisões mais banais, tudo era guiado por essa alma.
— O QUE É ISSO? QUEM É ESSA ALMA?
— Quem você acha que é? — Ele se assenta novamente — Vou te dar uma dica; a muito tempo, uma criança foi sacrificada para trazer Boru de volta. Você sabe quem era essa criança?
— Eu já ouvi essa história — Parou e pensou — Foi o filho, o filho do Teledom — O demônio sorri com seu comentário
E de repente tudo se encaixou
— Não! Não pode ser! — Falou atordoado andando sem rumo.
— Sim! É por isso que todos tem esse cuidado, não porquê gostam de você, mas sim, por você carregar a alma do filho do Deus da vida. E é só por isso que você importa, depois que cumprir o que ele quer, ele vai tirá-lo de você e te matar.
— Não — Ele sussurra — Ele não faria isso...
— Você acha? Não é filho dele, você só é o portador da alma.
— Não, não é verdade...
— E sim! E você sabe, sabe que ele acordou quando Teledom o trouxe de volta para nós.
Então era isso? Ele era a fonte de tudo? Quando Teledom o trouxe de volta, e aquela luz o dominou, era ele? Seu filho?
— Qual é o nome — Sussurrou arrastado — QUAL É O NOME DELE?
— Leviak.
Ao ouvir o nome, todo o seu corpo se eletrificou e a raiva dominou sua alma. Ele não era nada, além de uma casca, um peão no jogo doentio do Deus. Sua respiração descompassou, seu peito subia e descia rapidamente; atordoado, não pode esperar mais, saltou acelerado na direção de Lakemare, precisava falar com Derek imediatamente.
— JIMMY? JIMMY? — Dalgaren grita correndo atrás em direção a ele
— É só uma questão de tempo até ele vir para a escuridão — Boutrix fala sozinho — Se ele ficou assim, só por saber disso, imagina quando descobrir a verdade sobre a morte do pai — Ele gargalha e logo desaparece
Jimmy corre sem parar até voltar ao rio, parando abrupto quando percebe que não há como atravessar.
— Jimmy, por favor mantenha a calma — Dalgaren diz ao se aproximar
— Não me peça para ter calma, eu preciso de um barco AGORA!
— Não precisa não! — Ele fala o puxando pela cintura — Me perdoe por isso.
— O QUE? O que está fazendo? — Jimmy tenta se livrar dos braços do Demônio.
— Você quer atravessar o mais rápido possível? Não quer? Então cale a boca e segure-se em mim.
Não houve tempo para argumentar, Dalgaren posicionou Jimmy em seus braços e virando fumaça, ele desaparece atravessando o Rio com toda a velocidade.
Alguns minutos depois, já estavam em Lakemare, seguiram rumo a Torre Sheldorn, e parando frente a ela, Dalgaren aparece subitamente; Jimmy não disse nada, apenas correu adentrando a mesmo sem esperar mais.
— De nada! — Ele sorri indo atrás do menor
Já na Torre Sheldorn, Jimmy subia as escadas com presa, mas ao chegar perto do escritório, ele para, congela no lugar ao ouvir vozes vindas do outro lado da porta, conversando sobre ele.
— Jimmy já deveria ter chegado — Petter fala caminhando de um lado para o outro.
— Fique calmo, ele não está sozinho — Derek tenta confortá-lo.
— ÓTIMO! Como se isso ajudasse.
— Controle seu ciúmes, ele já deve estar chegando — Leon é quem diz.
— Você não acha que ele vai mesmo voltar, acha? — Petter diz indo até Derek.
— Ele vai sim! E não podemos impedir. Não pode protegê-lo mais.
— Por que?
— PORQUE EU VOU MORRER — Jimmy empurra a porta abrupto
Todos se assustaram com sua chegada repentina, suas palavras causaram espanto e dúvidas em todos.
— Me diz que não é verdade? Diz que não é só por ele que eu estou aqui?
— Jimmy...
— DIZ — Grita o interrompendo — Diz que ele não vai me matar quando acabar?
— Como assim? Do que ele está falando? — Petter tentava compreender.
— Jimmy, se acalme, e me diz, do que está falando?
— Leviak
Os olhos de Derek se arregalarão, feições de estranheza ao nome citado surgiam de todos que ouviam a conversa. Por longos segundos, Jimmy se calou, a espera de uma resposta, algo que pudesse afastar os demônios de sua cabeça, mas nada fora dito, Derek não disse uma palavra.
— Não pode me dizer isso, não é? Seu silêncio já diz tudo.
Jimmy partiu, deixando todos em uma completa confusão, somente Derek, Dalgaren e Jimmy compreendiam o que havia acontecido ali. O escolhido adentrou em direção ao quarto dos fundos; Petter queria confortar seu amor, mas fora impedido por Derek.
— Não vá, deixe-o sozinho, só vai piorar as coisas. Não podemos correr o risco dele se perder na escuridão.
— Isso pode acontecer? — Bermac pergunta assustado — Ele pode se virar contra nós?
— Ele não é obrigado a seguir o caminho que Teledom escolheu para ele, assim como todos aqui, Jimmy pode escolher entre o bem e o mal.
— Não podemos ficar parados enquanto ele escolhe. Se ele ir para a escuridão, está tudo acabado. Ninguém vai poder detê-lo.
Todos estavam indignados, mais uma vez, Derek os pedia para sentar e esperar, esperar que a solução, caísse do céu. Mas Petter estava cansado disso, cansado de esperar, ele sentia que Jimmy precisava dele mais do que nunca, então contrariando a todos, o demônio se foi, caminhou rumo a seu amor, e quando o encontrou, de costas, apenas a observar a janela, ele o abraçou, sem dizer uma única palavra, apenas um caloroso e reconfortante abraço.
E fora retribuído
Ambos ficaram ali, sentindo o carinho terno um do outro, e era do que precisavam, palavras só machucariam mais; então o amor que nutriam um pelo outro, o amor que contrariava até mesmo o destino, tratou de curar as feridas que sangravam incessantemente.
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Atualizado até capítulo 56
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