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Dormir é um dos maiores desafios que enfrento nos últimos dias. Olhando minha mochila pronta para partir de manhã, sinto a ansiedade se instalar no meu corpo, correndo pelas minhas veias e se espalhando por cada uma das minhas células.

As feridas causadas pelos lobisomens se recusam a cicatrizar e a fraqueza colateral por ter usado tanto poder em um estado debilitado se mostra um verdadeiro problema. Ainda assim, me levanto e me acomodo próxima a mesa de escritório nos fundos do quarto. Com papel e uma caneta tinteiro em mãos, começo a redigir uma carta mágica endereçada a minha mestra.

É difícil ter certeza do que dizer a ela depois de tantos anos. Nós nunca brigamos realmente, mas é desconfortável lhe escrever como se nada tivesse acontecido mesmo sabendo que eu praticamente reneguei seus ensinamentos sobre o amor depois de uma decepção estúpida.

Antes de começar, aperto a caneta e fecho os olhos, respirando fundo.

— Fenrir, eu sei que você está prestando atenção em tudo o que faço e possivelmente até no que eu penso... Mas eu preciso de privacidade agora. Entro em contato quando terminar.

Um longo minuto de silêncio se segue, antes que um tremor atravesse meu corpo. Como se um grunhido ecoasse pela minha pele. Sinto como se um peso ao qual já me acostumei fosse tirado de mim.

Acabo de enviar a carta quando uma sensação de torpor se apodera de cada parte minha. Me sentindo tonta, só tenho tempo de caminhar até a cama antes de perder completamente a consciência.

................

— Terminou de enviar a sua carta estúpida? - a voz grave e animalesca ecoa ao meu redor.

— Você é muito impaciente...

Murmuro, sentindo meu corpo estranho, como se fosse feito de névoa. Olho na direção do lobo, que se encontra deitado confortavelmente, me olhando com um ar preguiçoso.

— Você tá fraca pra um caramba depois de dar aquela surra nos licantropos malditos... E só pra te avisar, você não vai se curar sozinha. Pelo menos não na sua condição atual.

— Lamento estragar seu prazer, mas isso não é uma novidade para mim. - digo cansada, me sentando no chão de frente para ele, abraçando meus joelhos.

— E o que você pretende fazer em relação a isso?

— Não faço a menor idéia... Mas não se preocupe, eu não vou morrer antes de te tirar dessas correntes estúpidas.

— Mas se você morrer depois, não vai poder me impedir de matar aquele velho e iniciar o Ragnarok.

— Nesse caso, vou ter que confiar em você para impedir a sí mesmo de fazer isso... Eu gosto dos nove mundos, mesmo que não conheça todos. Seria uma pena se eles realmente fossem destruídos.

— Você é maluca ou só não têm um pingo de amor a sua vida, hein? Não parece sequer fazer um esforço para ter um futuro depois de ajudar os lobos.

— Eu tenho amor o suficiente pela minha vida. Talvez até mais do que eu preciso... E existe a possibilidade de que a gente encontre a Lupa ou alguém que saiba sobre ela lá em Roma. Então, não é certeza que eu não tenha um futuro. Só as deusas do destino sabem com certeza sobre isso.

— Você acha que chega até Roma sã e salva desse jeito?

— Obviamente... Você me subestima demais para alguém que está contando comigo.

— Tanto tempo de prisão me ensinou a ser muito cético em relação ás pessoas. Até porquê, caso não esteja sabendo, eu só estou preso aqui agora por ter confiado em alguém.

— Eu sei... Tyr...

Meu tom de voz é mais amargo do que eu gostaria, e Fenrir não deixa passar. Seu olhar me estuda com atenção total por vários minutos antes que ele volte a se pronunciar.

— Parece que não sou o único que foi traído, no fim das contas... Será que é essa a razão pela qual você quer tanto me libertar?

— Com certeza não.

Me levanto e caminho até ele, tomada por uma irritação impulsiva. Quando estou á poucos centímetros de seu focinho, paro, olhando em seus olhos. Ele não esboça nenhuma reação, apenas o ar quente de sua respiração tranquila soprando levemente meus cabelos.

— Meus motivos para fazer o que estou fazendo não são da sua conta. Nosso acordo é simples: Eu te liberto, você ajuda meus amigos e não inicia a merda do apocalipse. Cumprindo sua parte, é livre para fazer o que quiser.

Minhas palavras soam mais hostis e frias do que eu planejava, mas ainda assim não recuo. Por alguma razão, a idéia de querer usar Fenrir como vingança contra Tyr é ofensiva para mim. Talvez porquê bem lá no fundo, a idéia parece mais tentadora do que eu ousaria admitir.

Nós ficamos nos encarando em silêncio, até que finalmente suspiro e dou as costas ao deus lobo, pronta para procurar um jeito de voltar ao meu quarto. Porém, as palavras que saem da boca dele me fazem parar imediatamente, petrificada.

— E se eu quiser ser considerado como seu amigo também? O que eu deveria fazer nesse caso? - a voz dele soa de forma nada agressiva pela primeira vez desde que consigo me lembrar.

Olho em sua direção por cima do ombro, desconfiada. Sem que eu possa impedir, meu coração reage a mudança de atitude do lobo.

— Que motivo você teria para querer ser meu amigo? Pensei que estivesse interessado apenas em sair daqui...

— Meus motivos também não deveriam ser da sua conta... - ele suspira, evitando meu olhar quando me viro novamente em sua direção. - Eu vi você lutando por eles. E tudo o que está fazendo, com riscos e ferimentos. Eu quero entender isso. Porquê ninguém jamais fez ou faria algo parecido por mim.

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Comments

Valda Martins

Valda Martins

O amor é lindo

2024-04-06

0

Silvia Araújo

Silvia Araújo

amor 💘

2024-01-23

2

Rozineide Oliveira

Rozineide Oliveira

acho que vai dar namoro estes dois

2023-08-23

1

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