Já fazia um mês que eu estava em minha casa. Um mês também que vinha fazendo exercícios e mais exercícios, e o máximo que conseguir foi um pequeno movimento dos dedos de uma das mãos. Cada dia eu estava me sentindo mais revoltado com tudo e com todos. A forma como os funcionários me olhava quando precisavam entrar no quarto, a forma positiva como minha mãe olhava as coisas, me tirava a paciência.
Muitas vezes eles até evitavam entrar no meu quarto para não ter que escutar meus gritos. Chegou numa situação que muitas vezes passava horas ali sozinho, e sinceramente eu preferia assim, não gostava de ver o olhar de pena de ninguém toda vez que me olhavam. O coitado do aleijado... Tenho certeza que era assim que eles pensavam.
Era muito humilhante para mim ter que depender de alguém até para limpar minha bunda. Se eu tivesse uma oportunidade, eu mesmo tirava minha vida para não ter que viver dessa forma. Lembro que uma vez até comentei com a Emily sobre isso depois que assistimos ao filme "Como eu era antes de você". E naquela época eu havia dito que se fosse comigo tomaria a mesma atitude do Will, o que resultou em eu e ela brigados. Essa ironia do destino até me faz sorrir, porque na época até disse que não queria brigar com ela por algo que nem existia a possibilidade de acontecer, e agora estou preso a uma cama, dependente dos outros, como aquele personagem.
Minha mãe entra com minha alimentação. Uma vez me recusei a tomar qualquer medicamento e terminei no hospital novamente. Se não bastasse tudo isso, ainda estou tendo algumas ereções involuntárias, o que é muito constrangedor na presença de minha mãe ou de algumas funcionárias.
– Filho trouxe seu almoço. Estava conversando com a Marlene na cozinha e ela me falou de uma médica que reside próximo a ela que trabalha com pessoas como você, ela disse que essa médica é brasileira e muito procurada. Estou pensando em verificar se ela pode lhe atender.
– Mãe, a Marlene falou se essa médica fazia milagres?
– Claro que ninguém é capaz disso, meu filho!
– Então não adianta, mãe. Até quando você vai ficar procurando uma solução para mim? A única solução para mim é a morte, mas eu devo ter cometido um castigo muito grande, para nem a isso eu ter direito.
Minha mãe me olha sem acreditar no que estou dizendo. Ele nem perde mais tempo discutindo comigo. Parece que todos já estão anestesiados com meu terrível humor.
Alguns dias depois minha mãe entra no quarto toda alegre conversando com uma moça que eu ainda não tinha visto ali. Realmente ela era muito linda, parecia ser médica pela forma como estava vestida, mas diferente dos outros médicos, ela era muito jovem. Enquanto minha mãe falava, ela prestava muita atenção em tudo que estava sendo dito, tinha um olhar determinado e quando minha mãe falou algo que foi provavelmente engraçado, ela abriu um sorriso deslumbrante, que me prendeu completamente nela. Quando minha mãe percebeu que eu estava olhando, ambas adentraram no quarto e minha mãe apresenta a moça toda sorridente.
– Adam, meu filho, essa é a Amanda, aquela médica que falei que a Madalena indicou.
– Eu falei para a senhora, que se ela não fizesse milagres, não tinha necessidade de vir.
A moça diante de mim, tem uma imperceptível mudança de postura, minha mãe pode não ter notado, mas ela me chamou muita atenção para que eu não notasse. Ela me olha sentado naquela cadeira de roda e simplesmente me ignora, como se não tivesse me notado ali.
– Carla, a senhora pode me mostrar os exames, feitos no hospital? Preciso deles para analisar a situação do seu filho.
Aquilo me surpreendeu, primeiro porque todos os médicos que vinham aqui já tinham conhecimento de quem eu era antes do acidente, então meio que me tratavam com pena no olhar pela minha carreira profissional ter terminado de forma tão trágica. Mas aquela médica simplesmente me ignorou. Como se eu nem tivesse ali e isso me causou um pouco de ressentimento. Minha mãe levou ela até uma mesa ali próximo onde se encontravam todos meus exames. E ela foi analisando um por um com muita atenção.
– Se você não notou, eu sou o paciente aqui! Você pode fazer a sua avaliação em mim, já que dizem que você é tão boa.
Falo querendo verificar sua atitude. Minha mãe abaixa a cabeça meio constrangida, mas a médica continua me ignorando e analisando os exames. Assim que ela termina o último, ela volta a sua atenção a mim.
– Sr. Adam, primeiro, notei que o senhor era o paciente desde o momento que chegamos aqui, não sou cega, pode ter certeza disso. Mas a Carla é a pessoa que estar me contratando, então é a ela que vou me dirigir, mesmo o senhor sendo o paciente. Segundo, pela pouca interação que tivemos, e pelo pouco progresso que os médicos anteriores tiveram, posso concluir que o senhor não tem conhecimento aprofundado dos seus problemas, então precisei olhar seus exames, para saber se consigo ajudar, antes de aceitar ou não o trabalho.
Ela me olha como se tivesse olhando para um paciente comum. Sem pena no olhar e sem se importar de quem eu era antes do acidente. Isso me deixou sem reação no momento e tenho que admitir que me fez admirá-la por um momento.
– Sra. Carla, pelo que pude verificar nos exames do seu filho, as lesões que ele sofreu foram graves, porém nada que não seja reversível, ou que pelo menos ele consiga ser um pouco mais independente. Acredito, que com os exercícios certos, muita força de vontade e esforço podemos conseguir.
– Então a senhora vai aceitar tratá-lo? – Minha mãe perguntou esperançosa.
– Não, senhora, porque antes de eu aceitar, a senhora vai precisar conversar com seu filho e ele vai ter que aceitar ser tratado, porque eu não faço milagres. Esse tratamento é algo feito em equipe, médico/paciente, sozinha seria perda de tempo, e meu tempo é valioso demais para ser desperdiçado dessa forma. Caso ele aceite a senhora pode voltar a me ligar que terei muito prazer em ajudá-la. – Aquela insolente fala para minha mãe, me ignorando completamente.
Minha mãe me olha com um sorrisinho no rosto, enquanto eu observo aquela ogra sair do quarto sem nem me dirigir um olhar.
– Adorei ela, isso, sim, é médica! – Minha mãe fala toda sorridente.
– Pois eu não gostei nem um pouco dela, depois de todos os médicos que passaram aqui, a senhora acredita mesmo que ela consiga fazer o que disse?
– Só vamos saber se você tentar, Adam. Como ela mesma falou, é um trabalho em equipe. Ela é a tampa perfeita para sua panela, Adam.
– O que a senhora quer falar com isso, mamãe?
– Nada, meu filho, apenas pensei alto demais.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 93
Comments
Denise Gonçalves das Dores
Gostei da postura dela. Já mostrou pra ele que milagre ela não faz, mas pode ajudar se ele quiser.
2024-12-23
0
Cleidilene Silva
amei atitude dela, pois ele está amargurado se sentindo um lixo.
2025-01-13
0
Doraci Bahr
gostei do desempenho dela
2024-11-28
0