Olhei por um momento para o Adam, me perguntando se aquele seria o melhor momento de falarmos. Alguns minutos atrás tínhamos nos beijados, tinha baixado minha guarda e apenas fui a Amanda mulher, aquela que um dia sonhou viver um romance com um cara legal e que viu tudo desmoronar do dia para a noite. Reviver aquilo, o que acontecia sempre que eu falava sobre o assunto, era doloroso.
– Adam, o que posso falar por alto, é que minha vida não foi fácil, como você insinuou. Mas depois de um dia realmente maravilhoso que tivemos, não quero encerrar ele de forma triste. Prometo que em outra oportunidade, quando houve, falaremos a respeito.
– Tudo bem, então! Vou respeitar seu momento. – Percebo que ele ficou um pouco chateado, talvez por imaginar que eu não confiava nele para falar.
– Mas posso te garantir que a decisão de vir para cá, mesmo que de início era algo que não se passava em minha cabeça, foi a melhor decisão que já tomei. Conheci pessoas realmente incríveis.
– Faço parte dessas pessoas incríveis? – Ele pergunta com um sorrisinho no rosto.
– Teria que analisar isso direito, antes de responder. Porque temos que considerar que em alguns momentos você foi intragável.
Isso nos faz rir. Quando olho para o relógio aquela uma hora tinha voado. Hoje realmente foi um dia incrível ao lado dele. Queria poder ter mais dias assim, porém sabia que tinha que colocar freios nos sentimentos que começa a ter por ele. Afinal, esse tipo de relacionamento é considerado antiético.
No nosso meio, quando o paciente se apaixona pelo médico chamamos isso de processo de transferência. A carência, o sofrimento causado pelo acúmulo de problemas e a satisfação por encontrar alguém disposto a se envolver profissionalmente e resolver o problema, faz com que seja comum o surgimento de amor pelo protetor. Então de certa forma talvez isso seja o que esteja acontecendo com o Adam. Mas também existe a contratransferência, ou seja, o meu sentimento por ele. E isso me deixa numa encruzilhada.
Sei que nesse caso, a melhor solução seria interromper o tratamento e indicar outro profissional. Mas conhecendo o Adam, como conheço atualmente, ele se negaria a isso. E seria uma grande decepção para a Carla, uma das pessoas mais incríveis que já conheci.
Ainda bem que hoje é sexta. Teremos um final de semana inteiro para pensar e colocar a cabeça no lugar. Sem falar que como a própria Carla falou hoje faz seis meses que tudo aconteceu, tudo pode estar confuso na cabeça dele. Acredito que quando chegar aqui na segunda-feira já estaremos normais e esqueceremos tudo que rolou hoje.
– Por hoje acabamos, Adam! Nos encontramos na segunda-feira. – Começo a juntar minhas coisas e organizar minha bolsa. – Deixarei com você a bolinha, para você continuar praticando. Adam já fazem 5h do último CAT. E com a falta da enfermeira você ainda não se banhou. Você quer que eu realize ou você vai permitir que sua mãe faça? – Percebo que por um momento seu humor mudou completamente.
– Por um momento eu só queria ser uma pessoa normal. Esquecer toda essa merda que me aconteceu e que me deixou tão dependente das pessoas. Você poderia fazer isso por mim? – Apenas afirmo com a cabeça.
Então pego a cadeira de banho no banheiro, a deixo ali ao lado da cama. Vou até ele e começo a retirar toda sua roupa, percebo que ele fica totalmente constrangido, mas nem toco no assunto. Faço tudo no mais completo silêncio. O transfiro para a cadeira e o levo até o banheiro.
Sei que para ele não deve ser fácil. A mesma mulher que o estava beijando mais cedo, é a que estar dando banho nele agora. Para mim isso não faz a mínima diferença, porque quando o beijei sabia de todas as suas limitações. Enquanto estou ali com todo cuidado do mundo lhe dando banho, ele sofre o que chamamos de ereção reflexa ou espontânea. Vejo que toda aquela situação é ainda pior para ele. E quando o observo vejo algumas lágrimas escorrendo pelo seu rosto e aquilo parte meu coração.
– Adam, olhe para mim! – Mas ele mantém o olhar em qualquer outro ponto, menos em mim. Então seguro seu rosto e o encaro. – Isso já aconteceu alguma outra vez? – Ele nega com a cabeça. – Não quero que você se sinta assim, isso é normal, pode acontecer em certos casos, é o que chamamos de ereção reflexa e não tem motivo de você se sentir envergonhado. Aconteceu apenas porque houve contato direto com seu pênis, o impulso nervoso é levado à medula e volta ao órgão genital, sem precisar chegar ao cérebro. Por isso você não tem controle delas.
– Mesmo tudo isso tendo uma explicação lógica, ainda é totalmente humilhante e vergonhoso. Você é médica, Amanda, talvez já tenha lidado com isso outras vezes, – Afirmo com a cabeça. – Imagina se fosse minha mãe na sua situação, entende agora porque não quero que ela me auxilie?
Olhando por esse lado consigo compreender perfeitamente o que ele estar alegando. Realmente não seria fácil explicar para a mãe o motivo daquela ereção quando ela manipulasse seu órgão genital. Seria totalmente constrangedor.
– Entendo você perfeitamente! Mas não quero que você se sinta assim comigo, estar bem? Sou sua médica, antes de sermos amigos. Então tudo isso é muito profissional para mim. Não quero ver você triste. Tenho certeza que quando você recuperar os movimentos dos braços tudo será muito mais fácil, inclusive poderá tomar banho sozinho. – Olho para ele e dou um sorriso e ele apenas afirma com a cabeça.
Ali mesmo resolvo fazer todo o procedimento do CAT e quando saímos do banheiro ele já estar pronto. Aproveito para trocar os lençóis de sua cama e depois de tudo pronto faço a transferência dele para a cama. Pego uma roupa para ele e antes de o vestir, passo um hidratante pelo seu corpo, o vestindo logo depois. Levo a cadeira para o banheiro novamente e pego o perfume e o desodorante. Assim que termino tudo, ele segura minha mão, então olho para ele.
– Obrigado por tudo! – Olho para ele e lhe dou o meu melhor sorriso. Vou até ele e beijo sua bochecha. – Teria gostado mais se você beijasse minha boca. – Olho para ele surpresa.
– Adam não pudemos misturar as coisas. Aquele momento que rolou foi maravilhoso, mas foi apenas um momento.
– Eu realmente gosto de você, Amanda!
– Tudo isso entre a gente, Adam, pode ser nada mais do que um processo de transferência. Nunca daria certo e poderia nos magoar futuramente.
– Então você não sentiu nada quando me beijou?
– Adam, você prometeu que não falaríamos disso mais!
– Tudo bem, Amanda. Vou deixar passar dessa vez. Mas saiba que eu sei o que estou sentindo, e não é nada disso que você falou. Vou guardar para mim e no futuro falaremos a respeito.
Então ouvimos uma batida na porta, vou até lá e quando abro a Carla me dar um enorme sorriso, então olha para o Adam e estranha.
– Como não sabíamos que horário o enfermeiro da noite chegaria, já fiz o procedimento do CAT e ele já tomou banho.
Ela me olha admirada e novamente me abraça. Acho que hoje foi o maior recorde de abraços que já recebi de uma mesma pessoa. Então vou até minha bolsa, recolhendo tudo e me despeço dos dois.
– A Madalena estar te aguardando e o motorista irá levar vocês. Obrigada por tudo que você fez pelo Adam hoje.
– Não precisa agradecer. Esse bobo já conquistou meu carinho, apesar dele ser insuportável às vezes. – O que os faz sorrir. Então vou embora deixando mãe e filho ali.
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Atualizado até capítulo 93
Comments
Vanda Farias de Oliveira
Acho que vai levar um tempo pra entenderem o que está rolando entre eles
2025-01-21
0
Doraci Bahr
não deve ser fácil para ninguém....mas tudo vai dar certo
2024-11-28
0
Conceição Freire
a situação pra quem estar nela não é nada fácil, não vejo a hora dele começar se movimentar completamente
2024-07-14
3