Meus pais sempre foram pessoas admiráveis. Apesar de sermos pobres, eles sempre fizeram questão de nos incentivar a estudar, porque para eles, isso era algo que jamais ninguém poderia nos tirar. Meu pai tinha um costume de dizer “A lâmina de uma gilete é afiada, mas não corta uma árvore com tanta eficiência” e minha mãe completava a frase dele dizendo “O machado é forte, mas não corta os cabelos com tanta delicadeza”. Eles sempre repetiam isso para mim e para meu irmão Felipe.
Eles nos diziam sempre que todo mundo é importante de acordo com seus próprios propósitos. E que jamais deveríamos olhar para alguém com desprezo ou de cabeça baixa, exceto se fosse para admirar seus sapatos. Eu tinha o maior orgulho dos meus pais, eles poderiam não ter completado seus estudos, mas tinham uma grande sabedoria. Meu pai, mal conseguia assinar seu nome, mas levantava uma casa da planta em poucos dias e sem erros. Minha mãe, era um pouco mais estudada, porém, não conseguiu concluir seus estudos porque engravidou de mim ainda muito nova, e só lhe restou trabalhar, porque foi colocada para fora de casa pelos meus avós, assim se tornou uma excelente cabeleireira e tinha seu próprio pequeno salão.
Eles sempre fizeram questão de pagar pelos nossos estudos, e não nos permitiam faltar um único dia de aula se não fosse pelo fato de doença. Lembro que uma vez cheguei em casa comentando um texto que a professora leu em sala de aula de Mario Quintana que dizia “Os livros não mudam o Mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”. Depois desse dia meu pai passou a ser um grande admirador desse poeta.
Quando concluir meu ensino médio, meus pais fizeram questão que eu cursasse uma faculdade, eu seria a primeira da família a ter curso superior e isso os enchia de orgulho. Eles até permitiram que eu trabalhasse com minha mãe, desde que o valor fosse para ajudar a pagar minha faculdade de fisioterapia, que sempre deixei claro que tinha interesse em fazer, desde o dia que ainda criança, vi esse tipo de médico ajudar o filho de um conhecido nosso, voltar a andar. Achei um verdadeiro milagre e disse naquela época que um dia também seria uma médica que faria milagres.
Certo dia, enquanto estava na faculdade, recebi uma ligação do meu irmão pedindo para eu voltar para casa, pois a comunidade em que morávamos estava sendo invadida pela polícia numa ação de combate à criminalidade. Até tentei ir para casa, mas fui impedida na entrada da comunidade por conta da enorme troca de tiros que estava acontecendo. Resultado desse confronto... Meus pais mortos e meu irmão revoltado com a polícia.
Aquele dia tinha sido o pior dia da minha vida. Não é fácil você perder um pai ou uma mãe de forma trágica, imagina perder os dois ao mesmo tempo. Perdemos a base de nossa família e consequentemente meu irmão perdeu o rumo também de sua vida.
Houve uma grande manifestação em nossa comunidade cobrando justiça por aquelas mortes. Não foram só meus pais que foram assassinados naquele dia, existiram mais outras 4 pessoas mortas por bala perdida. Mas nenhum era traficante e nenhum era policial. A pressão na mídia foi tão grande, pelos erros cometidos naquela operação, que começaram a procurar culpados. Com isso começaram a chegar ameaças as famílias das vítimas mortas naquele dia, o que revoltou ainda mais meu irmão, que apesar de todo meu conselho, se juntou as pessoas erradas para proteger a comunidade, segundo eles.
Eu pensei que após a morte dos meus pais, minha vida já estava muito ruim, mas após a manobra do meu irmão, tudo ficou ainda pior. Quando chegava da faculdade encontrava dentro de nossa casa vários homens que nem conhecia e que muitas vezes me causavam medos. Continue com o salão da minha mãe nos momentos em que não estava estudando, então passava a maior parte do dia fora de casa.
Me mantive a margem de tudo, como meus pais nos ensinaram, cada um é responsável pelos seus atos, nunca deixei de aconselhar ou tentar orientar meu irmão, mas ele já tinha uma opinião formada de tudo aquilo e eu não tinha mais o poder de mudar. Ele ficou fascinado pela facilidade das coisas e entrou de cabeça em tudo.
Certo dia quando cheguei em casa encontrei uma festa rolando. Em todo local para onde olhava existiam pessoas que eu não conhecia. Encontrei meu irmão sentado no sofá conversando com um cara todo cheio de tatuagem e que meu irmão se esforçava para impressionar. No colo desse cara existia uma mulher com uma roupa que mais parecia pedaços de pano, porque não cobria quase nada de seu corpo. Eu estava exausta do meu dia de trabalho, e sonhava com minha cama na volta para minha casa, mas fui surpreendida pelo funk alto que estava tocando, por pessoas amontoadas em tudo que era lugar, mal dava para enxergar com a quantidade de fumaça naquele local, a raiva me consumiu e dirigir aquele sentimento a única pessoa responsável por ele, meu irmão.
Fui até o Felipe cega de tanta raiva. Nunca havíamos brigado por nada, mas sabia que aquela seria nossa primeira vez e não seria bonito. Fui até o som que estava no caminho até ele e simplesmente puxei da tomada, o que chamou a atenção de todos para mim, a estranha no ambiente.
– Felipe, precisamos conversar! – Gritei para meu irmão.
– Você estar louca Amanda! – Ele gritou de volta. – Liga a porra do som agora!
– A casa não é apenas sua, Felipe. Estou cansada e querendo descansar, se você passa o dia todo fazendo sabe-se lá o quer, eu passei o dia todo estudando e trabalhando e tenho o total direito ao descanso, você não acha?
– Você pode ir para casa de qualquer amiguinha metida que você pode ter, hoje prometi aos manos uma noite de festa. – E todos batem palma naquele momento, menos o cara tatuado em sua frente.
– Acho que já aguentei muito de suas palhadas Felipe. Se você quer dar uma festa, isso é um problema seu, mas faça em um local diferente de nossa casa. Nossos pais sempre foram pessoas honrosas Felipe, sempre respeitaram todos os vizinhos e tinham o respeito de todos. Você realmente acredita que eles não estão se sentido incomodados com esse som?
– Quem você pensa que é para me dar lição de moral, sua vadia?
– Calma, garoto, não precisa ofender a dama. Acredito que ela esteja apenas cansada como ela mesma falou. E por um lado ela estar coberta de razão, garoto. Você precisa aprender que não pode se indispor com a comunidade, você precisa dela para se proteger. Quem é você, marrentinha? – Apenas olhei para o cara que saiu em minha defesa.
– O nome dela é Amanda, Bernardinho. Minha irmã.
– Prazer, Amanda, Bernardo ao seu dispor! – O cara vem até mim e estende a mão para que eu possa apertá-la. E ao apertá-la, ele leva minha mão até seus lábios e deposita um beijo. – Muito bem, Amanda. Em consideração a você e aos vizinhos vamos transferir essa festa para minha casa. – O que causa mais euforia na galera ali presente.
– Obrigada, Bernardo. – Agradeço ao cara todo tatuado na minha frente, afinal meus pais me ensinaram a ter educação com todos.
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Atualizado até capítulo 93
Comments
Cleidilene Silva
gostando do início, parabéns autora ❤️❤️❤️
2025-01-13
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Vanda Farias de Oliveira
tô gostando dessa estória
2025-01-21
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Denise Gonzalez
adorando a história
2024-12-12
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