Depois do episódio terrível que passei, a única para quem liguei foi a Nayara, e ainda assim não tive coragem de contar o que me aconteceu, apesar dela ter dito que eu estava estranha.
– Tem certeza absoluta que você estar bem? – Ela me perguntou pela décima-primeira vez.
– Sim, Nayara, estou bem! Apenas ansiosa para embarcar naquele avião e me ver livre do Bernardo. Amanhã passo em sua casa e combinamos tudo.
Em dois dias estaríamos embarcando para nossa nova vida. Queria deixar esse inferno para trás e com ele tudo que passei. Não me lamentava pelo meu irmão, ele fez as escolhas dele e com certeza, cedo ou tarde, colheria as consequências.
No dia seguinte, quando me preparei para sair de casa, me sentir culpada e aliviada simultaneamente. Culpada por estar deixando para trás tudo que meus pais se sacrificaram para conseguir, e aliviada porque não teria mais o Bernardo em minha vida.
Para não ficar muito na cara que estaríamos viajando, a Nayara falou com a Bruna, uma colega nossa da faculdade e deixou nossas malas lá. A Bruna estava ciente do que estava acontecendo, então topou nos ajudar. Então me arrumei e fui para a casa da Nayara, solicitamos um Uber, porém fomos barradas no momento de sairmos da comunidade.
– O que houve, martelo? Estamos atrasadas para a festa de nossa amiga. – Nayara pergunta a um dos garotos.
– Ordem da chefia, caso a fiel queira sair da comunidade ele precisa ser comunicado.
– Como é? Eu agora preciso da autorização dele para sair? – Pergunto revoltada.
Nesse momento Bernardo chega de moto. A Nayara pede para eu ter calma, e levar o Bernardo a banho-maria, estamos deixando a comunidade e precisamos que ele autorize nossa saída. Encaro ele descendo da moto, e ele faz uma análise dos meus pés à cabeça.
– Para onde você estar indo, marrenta?
– Estamos indo para uma festa na casa de nossa amiga da faculdade, Bernardo. Provavelmente voltaremos durante a madrugada.
– Quem vai estar nessa festa?
– Todos da faculdade que ela convidou, ué!
– Se eu souber que você andou se pegando com alguém, sabe o que acontece, né?
– Bernardo, aceitei ser sua fiel, e não sou o tipo de mulher que sai de mão em mão, imaginei que eu tinha provado isso a você também! – Olho para ele cruzado meus braços.
– Você provou, minha marrentinha.
Ele se aproxima de mim e me puxa pela cintura, mesmo eu querendo distância dele, naquele momento tenho que ser uma boa atriz. Então ele me beija diante de todos e eu retribuo o beijo. Depois disso, ele permite que eu e a Nayara seguíssemos nosso caminho. Para despistar qualquer um que tenha nos seguido, resolvemos dispensar o motorista após chegar ao apartamento da Bruna.
Solicitamos então um novo Uber e a Bruna autoriza na portaria o veículo entrar no subsolo para podermos colocar nossas malas dentro dele. Nos despedimos de nossa amiga e seguimos rumo ao aeroporto. Meu coração parecia que ia sair pela boca, de tão acelerado que ele se encontrava. A Nayara segurou minha mão e nos olhamos com um sorrisinho de ansiedade no rosto. Acho que só vamos respirar aliviada quando estivermos dentro daquele avião e ele deixar o solo.
Quando chegamos no aeroporto, damos entrada em todos os trâmites necessário para nosso embarque, enquanto aguardamos no saguão, algo me chama atenção. Mas distante avisto Bernardo, o Felipe e mais um de seus soldados. Mesmo sendo final de noite, o aeroporto estar bem movimentado, e isso nos dar cobertura. Tínhamos uma desconfiança que ele tinha mandado alguém nos seguir, mas agora tive essa certeza.
Peguei a mão da Nayara e fiz sinal para que ela me seguisse. Só poderíamos embarcar daqui a 30 minutos, precisávamos ganhar tempo. Puxei a Nayara e entramos no banheiro feminino. Se meu coração estava acelerado antes, agora estava preste a fazer um buraco no peito.
– O que vamos fazer? Se ele nos pegar não sairemos viva disso tudo. – Nayara me fala apreensiva.
– Calma, tenho uma ideia. – Digo para a Nayara.
Enquanto estávamos dando entrada em nossos documentos fiquei lendo alguns cartazes informativos na parede, um deles dizia para que número deviríamos ligar para denunciar algo suspeito. Meu pai dizia que eu tinha memória fotográfica, eu acreditava que era apenas facilidade em decorar as coisas. Peguei meu celular e liguei para o número que havia decorado da polícia federal no aeroporto.
– Olá, boa noite! Moro na comunidade do Bode, e acredito que nesse momento o chefe do tráfico de lá, encontra-se aqui no aeroporto tentando impedir uma moça de embarcar. Ele é bastante perigoso, provavelmente encontra-se armado, e existe uma recompensa pela captura dele. Só que no cartaz não mostra sua foto, por isso ele circula com tanta facilidade.
– A senhora se encontra nesse momento aqui no aeroporto? Pode se identificar?
– Sim, estou aqui no aeroporto nesse momento e me chamo Amanda.
– Certo, senhora, poderia nos passar características desse individuo para facilitar sua captura?
– Terei o maior prazer em fazer isso.
Dessa forma passei todas as características do Bernardo para a pessoa do outro lado da linha, rezando para que eles fizessem a divulgação. Mesmo se não capturassem ele, o afugentaria aqui do aeroporto, e assim conseguiríamos embarcar.
Quando faltava apenas 5 minutos para nosso embarque, puxei a Nayara e seguimos para a área de embarque, já com nossos documentos em mão. Como havia previsto a quantidade de policiais circulando havia aumentado, assim que entregamos nossos documentos ao rapaz responsável e ele permitiu nossa entrada, escutei meu nome ser gritado. Quando olhei para trás, avistei meu irmão me encarando, com um olhar acusatório.
– Sinto muito, Felipe! Você fez a sua escolha, eu agora estou fazendo a minha. Adeus!
E assim segui para embarcar na aeronave. Tentei segurar as lágrimas que teimam em rolar pelo meu rosto. Minha amiga tentou me confortar, porém, sabia que tudo aquilo era a única saída que me restava. Se eu ficasse estaria nas garras de um traficante impiedoso, não poderia escolher isso para minha vida.
Quando chegamos aos EUA, a Nayara e a Natasha, sua amiga, já haviam adiantado tudo que precisaríamos aqui. Nossa prova também já estava agendada para daqui a alguns dias, porém enquanto isso, poderíamos ir auxiliando alguns outros médicos no hospital onde seríamos contratadas. As nossas referências foram ótimas para conseguirmos essa vaga aqui, esperava apenas não ser reprovada no teste.
Enquanto aguardava o resultado da prova que havíamos feito naquela semana, tentava me acostumar com a rotina de um hospital de primeiro mundo. Sem gente falando alto para serem ouvidas, nada daqueles corredores superlotados que mal dar para você circular, e nada de equipamentos quebrados que lhe impedia de salvar uma vida. Não seria difícil me acostumar a tudo isso.
Assim que nossos resultados saíram, tivemos uma noite das meninas. Precisávamos comemorar mais uma de nossas conquistas. Estava me destacando no meu setor, tinha tido um professor maravilhoso no Brasil, que desenvolvia algumas técnicas alternativas para obter êxitos nos tratamentos. Me espelhando nele, estava usando essas mesmas técnicas aqui e o resultado estava sendo bem aceito. Também comecei a atender alguns pacientes de forma particular que eram indicados a mim, porque não tinham condições de serem atendidos em hospitais, aqui. Diferente do Brasil, os valores cobrados eram exorbitantes. E comecei a fazer o que chamamos de obras sociais no Brasil. Não cobrava nada pelo meu atendimento, mas o retorno que obtinha era imensurável. Eu oferecia mais do que eles estavam esperando, e o agradecimento por parte deles passava de uma gratidão para um encantamento, e sem perceber comecei a me tornar conhecida.
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Atualizado até capítulo 93
Comments
Vanda Farias de Oliveira
Muito tenso esse capítulo espero que as duas sejam.felizes
2025-01-21
0
Cleidilene Silva
poisé eu pensei a mesma coisa, aquele idiota.
2025-01-13
0
Doraci Bahr
e que ela não tenha engravidado por favor autora
2024-11-28
2