Davi narrando:
Depois que voltei para o meu quarto, me joguei na cama ainda com raiva. Me virei de um lado para o outro, mas o sono não veio. Em minha cabeça, passava a imagem dos olhos daquela garota chorando e apavorada. Me senti mal. Eu nunca tinha perdido o controle desse jeito.
Já eram 2h30 da manhã, e eu não conseguia dormir. Então, me levantei e fui até a cozinha para beber um copo de água. Passei em frente ao quarto dela e ouvi soluços. Fui até a cozinha, pensei um pouco, bebi água e preparei um copo de leite morno com canela.
Voltei até o quarto dela e parei na porta por alguns minutos, respirando fundo. Sabia que eu era a causa do seu choro, porque fui muito grosso e ignorante.
Bati na porta, e tudo ficou em silêncio. Bati mais uma vez e disse:
— Sei que não está dormindo. Por favor, precisamos conversar.
Ela abriu a porta, triste. Eu pedi desculpas pelo meu comportamento agressivo. Ela não me olhou nos olhos, só balançou a cabeça.
Perguntei se ela estava bem. Ela disse que sim. Dei o copo de leite para ela, e, assim que ela pegou, vi que suas mãos estavam machucadas. Ela estava tremendo muito, e eu me senti o pior dos homens.
Perguntei se podia entrar. Ela ficou um pouco assustada, mas deu espaço para eu entrar. Sentei na cama e fiz um gesto para que ela sentasse também. Em nenhum momento, ela ousou olhar para mim.
Antes que eu falasse alguma coisa, ela falou com a voz trêmula:
— Me desculpa. Sei que eu não sou nada, não sou ninguém. Estou aqui de favor por essa noite. Sei que não deveria ter entrado no seu quarto, mas eu bati duas vezes. Achei que você tivesse dormindo, por isso abri para tentar te acordar sem te assustar. Eu não imaginava que ia ver aquela cena. Não estava querendo te espionar. É que eu estava sentindo muitas dores. Minhas costas estão machucadas, e eu não conseguia passar a pomada. Então, peguei ela e fui lá para perguntar se podia usar e se podia passar um pouco, porque eu não alcançava todas elas.
Enquanto ela falava, derramava lágrimas. Peguei na sua mão e vi que estava muito quente. Toquei no seu queixo e levantei seu rosto, fazendo-a olhar para mim. Percebi que ela tinha olhos muito bonitos e uma boca linda.
Olhando dentro dos seus olhos cheios de lágrimas, perguntei:
— Você quer falar sobre isso?
Ela voltou a baixar a vista e disse que não queria me incomodar. Eu respondi:
— Não me incomoda. Havia perdido o sono, não tinha nada para fazer.
Então, ela me contou que havia perdido a mãe e o pai em um acidente e que a tia tomou conta dela, mas, infelizmente, a humilhava todos os dias, junto com a prima.
— Ela me espancou, e eu saí de casa por não suportar mais os maltratos — disse ela, com a voz embargada.
Também falou que todo o dinheiro que ganhava, a tia pegava. E que foi traída pelo namorado. Eu quase ri na hora, olhando para sua aparência e a forma como se vestia. Era natural que isso acontecesse, mas não disse nada.
Perguntei se ela ainda queria que eu passasse remédio nas suas costas. Ela arregalou os olhos, como se estivesse com medo de alguma coisa. Sorri para ela e disse:
— Calma aí, garota. Não se preocupa. Você não faz o meu tipo. Só estou falando em passar remédio nas suas costas, não que quero transar com você.
Ela balançou a cabeça que sim. Então, me levantei e fui pegar a maleta de primeiros socorros. Quando voltei, ela estava de costas para mim, com uma calça esquisita de urso, sem a blusa, e um lençol na frente dos seios.
Olhei para as suas costas e vi que estavam cheias de hematomas roxos e algumas feridas abertas, infeccionadas. Me aproximei e comecei a passar o desinfetante. Ela se encolhia, e acredito que estava doendo. Comecei a soprar para ver se aliviava as dores.
Limpei todo o ferimento e comecei a passar a pomada em suas feridas, deslizando meus dedos por cada uma suavemente. As suas costas eram macias, e o seu corpo tinha um cheiro agradável.
Enquanto deslizava os dedos sobre as suas costas, fiquei excitado na mesma hora. Como se uma corrente elétrica tivesse passado por todo o meu corpo e se alojado em meu membro. Do nada, me peguei imaginando-a de quatro.
Fechei os olhos e balancei a cabeça para afastar de mim aqueles pensamentos.
— Eu acho que estou ficando louco — pensei. — Preciso sair e me aliviar. Estou com tanta vontade que estou fantasiando com alguém que não tem nada a ver com os meus gostos.
Terminei de passar o remédio e saí às pressas para que ela não percebesse como eu estava duro como pedra. Chegando no meu quarto, liguei o chuveiro frio e fiquei mais de uma hora embaixo para tentar me acalmar.
**Cena 2: O dia seguinte**
O dia amanheceu, e eu não consegui dormir. Precisava me levantar para ir trabalhar, mas antes passei no quarto dela e falei:
— Você não precisa ir trabalhar até se recuperar.
Passei a manhã inteira fazendo entrevistas para as novas garçonetes e para gerente e subgerente. Escolhi Zoé, Celine, Flora e Ivana para uma experiência como garçonetes, Eudes para gerente e Allegra para subgerente. Sei que não fiz muitos testes com eles, porque não tenho muito tempo. Preciso viajar, e alguém tem que ficar gerenciando tudo.
Peguei as fichas dos funcionários e comecei a olhar uma por uma. Encontrei a da garota que está em casa. Seu nome é Clarice, tem 23 anos e é formada em pedagogia.
Fui para a cozinha e pedi para prepararem duas quentinhas caprichadas. Depois, fui para casa. Precisava levar almoço para a Clarice, que estava doente.
Assim que entrei em casa, senti um cheiro maravilhoso de limpeza. Entrei e vi que tudo estava limpo, com um cheiro delicioso. Fui andando e parecia até que eu tinha errado de casa. Eu sempre pagava uma faxineira duas vezes na semana para limpar a casa, mas nunca ficou tão limpa como encontrei hoje.
Caminhei em direção à cozinha, que tinha um cheiro delicioso de comida. Ela estava em pé, terminando de lavar umas louças.
— Oi — falei.
Ela se assustou e pareceu envergonhada. As suas costas estavam cobertas com apenas um pano amarrado no pescoço, cobrindo os seios, mas dava para ver partes deles.
Ela falou, um pouco envergonhada:
— Eu fiz comida. Espero que não se importe.
Falei que não e sorri para ela. Disse que havia levado o nosso almoço. Ela disse que comeríamos o almoço que eu levei e que guardaria o outro para a noite ou para o outro dia.
Perguntei o que ela havia feito. Ela disse que foi coisa simples: um arroz branco e um strogonoff de frango. O cheiro estava ótimo.
Então, eu disse:
— Não tem problema. Coloca tudo na mesa, e vamos comer de tudo um pouco.
Ajudei a pôr a mesa, e sentamos para almoçar. Eu nunca tinha comido um strogonoff tão bom. Comemos em silêncio, e me deu uma sensação estranha: uma sensação de família, coisa que eu nunca tive em minha vida.
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Atualizado até capítulo 75
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