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Clarice narrando:

Depois de um tempo abraçada com a Laís, saímos para terminar nosso expediente. Eu sabia que seria difícil chegar em casa e dar de cara com a Carla. Ela sempre me importunou e fez de tudo para me humilhar. Agora que ela tinha um motivo, eu sabia que minha vida ia ficar ainda mais difícil.

Assim que terminamos o expediente, a Laís perguntou se eu queria ir para a casa dela. Respondi que não, que estava bem. Ela se despediu de mim, e eu fiquei andando pela rua, disfarçando para não chegar em casa cedo. Sabia que minha tia ia me colocar para trabalhar mais e que seria infernizada pela minha prima.

Apesar de não amar o Mateus, eu já estava acostumada com ele. Ele era atencioso e carinhoso comigo, mas saber que tudo era uma grande mentira machucou muito.

O confronto com Carla em casa

Assim que cheguei na esquina de casa, os vi na porta. A Carla estava me esperando, como sempre, para me humilhar. Passei direto e fingi que não os vi.

Assim que passei, a Carla pegou meu braço com força e disse:

— Você está cega ou muda? Não fala mais? Será que não tá nos vendo aqui? Não pode dar nem um "boa noite"? Lembre-se que, nessa casa, você é apenas uma intrusa. Vive de favor e ainda tem a ousadia de me ignorar.

— Boa noite — falei baixinho, com a voz trêmula.

Ela olhou para mim e disse:

— Assim tá bem melhor. Agora, vai preparar um lanche para a gente comer.

Passei por ela de cabeça baixa e fui para a cozinha. Preparei um suco de laranja e peguei alguns biscoitos. Entreguei para eles com a cabeça baixa o tempo todo.

Ela riu. Tenho certeza que era de mim. Assim que colocou o suco na boca, disse que estava ruim e jogou na minha cara. Comecei a tremer de raiva e ódio. Cerrei os punhos, mas engoli meu orgulho e entrei.

Ela começou a berrar atrás de mim, me chamando de incompetente, feia, frígida, dizendo que eu não servia para nada.

— É por isso que você vai morrer sozinha! Ninguém gosta de você! Você nunca vai ter um namorado de verdade! — gritou.

Ela também disse que tinha todo o prazer do mundo de tomar tudo o que me pertencia.

Perdi a paciência e dei um tapa na cara dela. Não foi forte, mas ela se jogou no chão e começou a fazer um escândalo, dizendo que eu a havia espancado.

Minha tia veio correndo, e a Carla se jogou nos braços dela, fazendo uma cara lamentável. Minha tia ficou brava. O Mateus viu tudo, mas não contou a verdade. Ele se calou.

Minha tia me arrastou pelos cabelos, me levando para o quarto, onde fui espancada por ela. Em todo tempo, a Carla olhava para mim e ria, disfarçando. Depois, veio com a cara lisa, se fingindo de coitadinha, dizendo que me perdoava, que com certeza eu estava com raiva porque o Mateus havia escolhido ela.

Minha tia me mandou fazer uma sopa, e eu me neguei. Isso causou um ataque de fúria nela. Ela começou a gritar comigo, dizendo que eu era uma pessoa ingrata, mal-agradecida, e que eu devia muito a ela, vivendo na casa dela de favor.

Duas vezes seguidas, ouvi essa palavra, e uma revolta cresceu dentro de mim. Gritei com ela:

— Eu não vivo de favor! Eu pago a droga do quartinho onde vivo, e todo o meu dinheiro eu entrego para você! Se é para viver me humilhando, eu não vou mais viver aqui!

Ela deu uma gargalhada e disse:

— Vai morar onde? Debaixo da ponte?

Eu respondi:

— É melhor do que viver sendo espancada e humilhada por vocês, que se dizem ser da família!

Corri para o meu quarto, com raiva, e comecei a arrumar minhas coisas. Eram poucas, couberam tudo dentro de uma bolsa. Saí dali chorando, enquanto as duas continuavam gritando, dizendo que, se eu saísse, não precisava mais voltar.

Não pensei duas vezes e nem olhei para trás.

Na rua, sem rumo

Uma hora depois, eu ainda estava caminhando sem rumo, sem saber para onde ir. Meu rosto estava machucado, meus braços também, e meu orgulho estava ferido. Eu não tinha para onde ir, nem dinheiro algum, pois minha tia havia pegado todo o meu dinheiro no dia anterior.

Sentei debaixo de uma árvore na praça e comecei a chorar.

Ouvi uma voz conhecida atrás de mim:

— Clarice.

Virei-me. Era o

Mateus. Ele disse:

— Você não pode passar a noite aqui, no meio da rua. Vamos para minha casa.

Olhei para ele com ódio e respondi:

— Não, obrigada.

Ele passou a mão no meu rosto e disse:

— Não fique tão chateada comigo. Por que não deu certo entre a gente? De verdade, eu gosto de você, mas não posso ficar com você porque a sua prima está esperando um filho meu.

Aquilo foi como uma faca rasgando meu coração. O que ele pretendia? Me humilhar mais? Arregalei os olhos e não falei nada.

Ele continuou:

— Por favor, não seja tão orgulhosa. Sei que tem sido difícil para você. Também sei que a sua prima não é fácil de conviver, mas você precisa ceder às vezes. Se você não tivesse revidado, a sua tia não teria feito o que fez com você. E eu sinto muito por isso. Agora, por favor, levanta e vem comigo. Pelo menos essa noite.

Eu realmente queria ir com ele, mas meu orgulho falou mais alto. Olhei dentro dos olhos dele e disse:

— Não finja que se preocupa comigo. Todo esse tempo, você me enganou e mentiu. Não venha dar uma de bom moço para o meu lado, porque você não vai mais me enganar. Vê se me deixa em paz. E, quando eu estiver em um lugar, passa para o outro lado. Não quero olhar na sua cara nunca mais.

Ele olhou para mim mais uma vez e disse:

— Eu sei que te machuquei, que fui um idiota. É verdade que, no começo, me aproximei de você porque era um plano da sua prima. Mas acabei gostando de você. Vi que você era uma pessoa maravilhosa. Quando decidi terminar com a Carla, ela me contou que estava grávida. Eu não posso ser negligente com o meu filho. Por favor, me perdoa.

Ele continuou:

— A gravidez da Carla é complicada. Ela não pode se alterar nem ter raiva, e é por isso que, muitas vezes, eu vejo o que ela faz com você, mas não me meto. Não quero que aconteça nada com ela nem com o meu filho.

Engoli em seco e balancei a cabeça, dizendo:

— Entendo.

Peguei minha bolsa e saí, deixando ele lá parado. Observei que ele passava as mãos nos cabelos, como se estivesse nervoso.

A noite na rua

Segui em frente, sem saber para onde ir. Apesar de estar sentindo muito frio, eu não podia perder o resto da minha dignidade. Já havia sido humilhada demais por ele e por ela.

Passei a noite inteira andando, já que não tinha onde dormir ou descansar. Meus pés estavam doendo muito, e eu estava com fome e sede, pois ainda não tinha comido nada. Já eram 5h da manhã.

Então, fui para o restaurante. Sentei na calçada, me encolhi e aguardei chegar a hora de abrir.

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