Não é nada fácil dormir tarde estudando e acordar cedo para trabalhar, e ainda mais ter a faculdade pela frente. Quando fui dormir, já estava quase na hora de levantar, eram umas 3h da manhã, e eu tinha que estar de pé às 6h. Resumindo, eu tinha apenas 3 horas para tirar uma soneca.
Quando eu estava quase pegando no sono, ouvi o barulho de uma moto. Pela hora, dava para saber quem era, não é? O Senhor Homem Sombrio. Como eu sei? Porque esse é o melhor horário para ele sair sem ser visto. Você nunca o vê pelo morro, nem sequer uma sombra, só o seu subordinado, o Cabeça. Já conversei com ele algumas vezes, é uma pessoa muito gente boa, engraçado e bonito. Aí eu me pergunto, por qual motivo entrou nesse mundo? Não julgo, jamais irei fazer isso. Mas os caras tão novos, e entram para essa vida.
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Acordei com o despertador marcando 04:50. Levantei com muita preguiça, tomei um banho rápido, me arrumei e já podia sentir o cheiro do café. Era sempre assim, quando eu me levantava para me arrumar, minha mãe também se levantava para fazer o meu café, para que eu não saísse de casa com fome.
Já cansei de falar para ela que não precisava se levantar tão cedo, mas quem disse que ela escuta? Já até desisti de insistir nisso. Terminei de colocar a minha roupa social, peguei a mochila onde estava a minha roupa para a faculdade, peguei a minha pasta e desci. Coloquei as coisas na sala e fui para a cozinha. Vi minha mãe de costas para a porta da cozinha, cheguei por trás e a abracei, dei um beijo em suas bochechas e me sentei para tomar o meu café, que já estava na minha xícara.
— Bom dia, minha vida — falei antes de dar o primeiro gole no café.
— Bom dia, minha filha. Estou vendo que nem dormiu direito, né? Está cheia de olheiras enormes — disse ela, se sentando na minha frente enquanto colocava café em uma xícara.
— Fiquei até tarde terminando essas coisas, a apresentação é hoje, e eu queria que tudo saísse perfeito. — falei. — Eu já vou, estou atrasada. Sua benção, mãe. — falei colocando a xícara na pia, indo até ela e deixando um beijo no topo de sua cabeça.
— Que Deus te abençoe, minha filha. Vai com Deus — disse ela, beijando minha testa.
Peguei minhas coisas, minha chave e saí. Já era 06:30 e logo logo passava o meu ônibus. Desci com rapidez enquanto observava alguns comércios abrindo, pessoas indo trabalhar e os vapores trocando seus turnos. Cumprimentei algumas pessoas e logo cheguei no ponto.
Esperei alguns minutos e não demorou muito para o ônibus chegar. Entrei nele e, em questão de minutos, cheguei no escritório. Eu precisava de um carro, mas com que dinheiro eu ia comprar um? Respirei fundo com esses pensamentos e entrei, cumprimentando o porteiro, e peguei o elevador.
Fazia meia hora que eu estava na sala de reunião, tinham eu e mais 3 pessoas. Chegou a minha vez de fazer a apresentação e, por incrível que pareça, eu estava super tranquila. Diferente de quando eu saí de casa, eu estava confiante e sabia que eu iria conseguir...
— Sua vez, Hanna. — falou a moça da recepção, enquanto eu observava os outros saírem da sala. Me levantei e peguei os papéis.
— Pelo que eu estava vendo, o cliente Everson Ernandes, está sendo acusado por uma tentativa de homicídio. De acordo com o Artigo 121, Matar alguém: Pena reclusão de seis a vinte anos. § 1º Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social ou moral, ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima, o juiz pode reduzir a pena de um sexto a um terço...
Enquanto eu falava, eu via o olhar deles de admiração, e eu me sentia orgulhosa por isso. Mesmo se eu não passasse, eu sabia que tinha dado o melhor de mim. Quando eu terminei de explicar tudo, todos os advogados que estavam ali se levantaram e me aplaudiram, o que me fez ficar envergonhada, mas mantive minha postura séria.
— Você está de parabéns, nenhum advogado que ficasse meses estudando isso seria capaz de fazer uma apresentação tão bem feita igual a essa, nem um mais experiente seria capaz. E se você continuar desse jeito, você chega longe. — O advogado chamado Moreira me parabenizou.
— Tenho que concordar com o Dr. Moreira, você está de parabéns. Por mim, o caso é seu, e tenho certeza que o Dr. Moreira concorda comigo. — Disse outro, me olhando e logo olhando para o Dr., que concordou sorrindo.
E assim todos foram falando. Sério? Quase que eu chorei quando me falaram que o caso era meu. Saber que todo meu esforço valeu a pena, me deixa tão orgulhosa, cara. Eu estava toda feliz pela minha conquista, e te falar, não é nada fácil, só pela minha condição de vida, e onde eu moro. Só de falar de onde eu sou, as pessoas já me olham torto ou viram a cara para mim.
Depois que saí da sala de reunião, eu fui fazer as minhas coisas. Eu não fazia nada ali além de organizar papéis e atender ligações, entre outras coisas. Esse foi o meu primeiro caso, e eu espero que seja o primeiro de muitos.
Estava voltando da faculdade, eram no máximo umas 21h. Eu tinha acabado de chegar na entrada do morro, estava toda ansiosa e orgulhosa para contar as novidades para a minha mãe, que iria ficar toda feliz. Fui subindo até a barreira, cumprimentei os vapores que estavam ali, e vi um velho amigo, o Cabeça. Desde quando conversamos, acabamos criando uma boa amizade.
Apesar da vida que leva, ele é uma ótima pessoa na minha opinião. Ele merece o mundo, mas nem tudo é fácil, ainda mais na situação dele. Minha mãe é outra que é doida por ele, o considera como um filho que ela nunca teve. Os dois são um grude e eu? Morro de ciúmes dela, claro.
— Fala, morena, chegou tarde hoje, hein? — o Cabeça me cumprimenta.
— Ah, meu amigo, as coisas não estão fáceis não. Era trabalho para ser apresentado, provas, e mais trabalho. — dei um sorriso cansado e ele mostrou um sorriso ladino.
— Tenho mó orgulho de você, moça. Trabalha, estuda, corre atrás do seu, sem pisar em ninguém. — falou me abraçando, me fazendo sorrir. Eu adorava ver que as pessoas admiravam cada esforço meu.
— Fazer faculdade e estudar ao mesmo tempo não é nada fácil, viu, mas no final tudo vai ser compensado. É a profissão dos meus sonhos, mas se fosse fácil não teria graça. — falei e ele concordou.
— Tá certa, parceira. Ir atrás do seu para não ficar dependendo dos outros, igual muitas minas aqui do morro, qualquer coisa que precisar pode me pedir, não tem essa de vergonha e orgulho para o meu lado, não. — falou me abraçando e beijando o topo da minha cabeça.
— Tá bom, senhor cabeça, agora deixa eu ir que estou morrendo de fome e cansada também, doida por um banho e minha cama, não dormi nada essa noite, estudei até tarde. — falei saindo do abraço e arrumando minha bolsa no ombro.
— Vai lá, eu até te levaria, mas tenho que resolver algumas coisas para o chefe, avisa a tia que qualquer hora eu apareço lá, e me deixa na ativa no bagulho da tua formatura lá — falou.
Eu concordo com a cabeça, falei mais algumas coisas com ele e voltei a subir o morro. Estava muito movimentado, crianças correndo, pessoas nos bares bebendo, escutando músicas, mulheres exibindo seus corpos esfregando nos envolvidos e outros homens que estavam ali. Tinham as velhas fofoqueiras olhando as pessoas e cochichando entre elas.
Parecia que ninguém ali se importava que era terça-feira, todos estavam curtindo como se fosse um belo final de semana. Respirei fundo, cansada, e estava quase chegando em casa quando vi o tão temido dono dessa porra toda.
Já escutei várias coisas horríveis sobre ele, mas a verdade é que eu não acredito no que os outros falam, a não ser que eu mesma vejo. As pessoas adoram inventar e julgar as pessoas por ele ser assim. Alguma coisa deve ter acontecido.
Era bem raro eu vê-lo, sabia que ele adorava andar pela madrugada quando a maioria está dormindo. De manhã, ninguém o vê, é como se ele tivesse medo da luz do dia. O que ele tem de estranho ele tem de bonito, porque vou te falar, o fdp é muito lindo.
Continuei meu caminho e em questão de segundos cheguei em casa. Abri a porta e encontrei minha rainha deitada assistindo novela. Ela olhou pra mim e soltou o melhor sorriso dela, que me fez esquecer que eu estava cansada.
— Bença, minha vida, tenho novidades — falei com um sorriso de orelha a orelha, fazendo ela me olhar com curiosidade e com um sorriso nos lábios.
— O que é, minha filha? — perguntou ela, se levantando e indo para a cozinha, e eu segui ela.
— Então, fiz a apresentação lá, né? Com muito medo e receio, mas eu consegui, mãe. O caso é meu. — falei quase gritando de felicidade e dando pulinhos. Ela me olhou toda orgulhosa, largou o prato de comida que ela estava fazendo para mim e me abraçou.
— Eu sabia que iria conseguir, minha filha. Você trabalhou tanto nisso, se esforçou, não tinha como não ser seu... parabéns, meu amor — falou toda chorosa, me fazendo soltar algumas lágrimas de felicidade.
Saber que minha mãe me apoiou e que eu estava conseguindo conquistar o meu sonho me deixava feliz. Sabendo que logo, logo eu iria poder dar uma vida um pouco melhor para minha mãe, e que ela não iria precisar se preocupar tanto.
Conversamos mais um pouco, ela terminou de colocar comida para mim, eu jantei e fui assistir novela com ela. Quando terminei, me despedi dela, dei boa noite e fui para o meu quarto tomar um banho e dormir um pouquinho, já que amanhã o dia seria longo.
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Atualizado até capítulo 36
Comments
Lena Macêdo E Silva
como é gratificante para o bom filho ver o orgulho dos pais e restituir tudo que eles fizeram e fazem enquanto viver para sua cria 🥂💐💕💞💗❤️🔑
2023-06-11
32
Cátia Cristina 😉😘
Que legal! Eu fazia isso pra meu filho também. 😍
2024-02-04
3
Zulma Oliveira
verdade
2024-11-11
0