Crescer nesse mundo sem o amor dos pais não é nada fácil. Comi o pão que o diabo amassou, passei fome, enfrentei necessidades. De tanto apanhar, tornei-me o que sou hoje: esse monstro frio, indiferente a tudo e a todos. Queria poder ter meus velhos comigo, desejava dar a eles o que eles nunca puderam me dar.
Quem pensa que esse mundo do crime é simples está completamente enganado. Não há liberdade, não há segurança, nem para dormir.
Não conseguimos nem descansar direito, sempre imaginando que, a qualquer momento, um sujeito maldito pode invadir nossa casa e nos fazer mal, ou nos levar para a prisão. Mas não sinto medo. Quando chegar a minha hora, será assim. Nada passa por mim.
Sabe quando se começa lá embaixo e lentamente se sobe? Pois é, foi assim que aconteceu. Não há sensação melhor do que deitar a cabeça no travesseiro e saber que tudo o que conquistei foi fruto do meu esforço, sem traições envolvidas. Diferente de muitos por aí que conheço, que conseguiram as coisas às custas de traições. Pessoas assim não merecem confiança, nem mesmo do próprio diabo.
Fui tirado dos meus pensamentos por alguém batendo à porta e autorizo imediatamente a entrada.
— Desculpe, patrão, mas o kL está aqui querendo falar com o senhor. — disse o vapor, visivelmente nervoso.
Sempre é assim quando falam comigo, e gosto disso. Todos sabem do que sou capaz. Com um pouco de dificuldade para encarar o rosto dele, devido à claridade do lado de fora (minha sala é completamente escura e eu a prefiro assim), fui criado na escuridão desde a morte dos meus pais, que eram a minha luz. Após perdê-los, só restou a escuridão.
— Revista esse sujeito antes de deixá-lo entrar na minha sala. — ordenei, seco e firme, referindo-me ao kL.
O kL é um rival, um indivíduo completamente desleal e em quem não se pode confiar, nem de olhos fechados. Ele teve o disparate de matar o próprio pai e irmão para assumir o controle do morro. Nunca se contenta com pouco, é extremamente ambicioso, sempre tentando invadir o meu território. Mas nunca conseguiu, e agora está aqui, me procurando. Uma audácia absurda.
Acendi um cigarro, observando os papéis espalhados sobre a minha mesa. Gosto de manter as coisas em ordem, tudo organizado. Sou muito exigente com a organização; se algo não estiver no lugar certo, tudo fica caótico.
Bateram na porta novamente e o Bada voltou acompanhado do KL. Atrás deles, vinham mais dois vapores, precaução contra qualquer ação desse sujeito.
— O que faz aqui? — perguntei, sério, encarando-o. Ele se sentou, aparentando a maior calma do mundo.
— Que isso, parceiro? Não vai me convidar para uma conversa e um cigarro? — brincou o kL, rindo. Neguei com a cabeça, sério.
— Diga logo o que quer e suma do meu morro. — falei, sério, sem expressar nenhuma emoção. — E mais uma coisa, parceiro, sou nada teu para tu ter essas intimidade comigo. — acrescentei.
— Opa… qual é? Está de mau-humor? — debochou o KL, rindo.
Desengatei a arma que segurava, deixando claro que não estava ali para brincadeiras.
— Não brinco, irmão. Mato sem hesitar, e você deveria saber disso. — respondi.
— O negócio é o seguinte: estou precisando de ajuda. Os camuflados estão tentando tomar o meu território, e meus carregamentos estão ruins. — falou, e eu revirei os olhos. — Queria saber se você pode dar uma força aí? — perguntou, sério, acendendo um cigarro e me olhando com olhos invejosos.
— Você vem até aqui me pedir isso? É muita audácia, meu camarada. Se os camuflados não pegarem o seu morro, pode ter certeza de que eu mesmo farei. Agora suma daqui, porque minha paciência para conversa fiada, já acabou. — falei, sério, chamando o vapor para retirá-lo dali.
— É uma ameaça, seu fdp? — perguntou, vindo na minha direção, enquanto o vapor apontava a arma para ele. Imediatamente, o KL parou onde estava.
— Vamos lá, venha me acertar. — falei, batendo levemente no meu rosto. — Dê um passo adiante e você estará morto na hora, meu chapa. Não venha bancar o espertinho do meu lado. Não foi uma ameaça, não vivo de ameaças, vivo de ações, mas dei um aviso. — Falei com um sorriso forçado, cheio de malícia. — Tirem-no daqui imediatamente. — ordenei. — E se ousar se aproximar do meu território de novo, sairá daqui em um caixão, e será um caixão fechado. — avisei o KL, enquanto os vapores o arrastavam para fora dali.
Crescer sem o amor e o carinho de um pai não é fácil. Minha mãe nunca me deixou passar por necessidades, sempre me deu todo o amor que podia. No entanto, mesmo assim, sinto falta do carinho e do afeto paterno. Minha mãe é meu tesouro mais valioso neste mundo; ela me deu tudo o que tenho. A educação que recebi é mérito dela, e a pessoa que me tornei é inspirada por ela, uma mulher guerreira que nunca se curvou diante de ninguém.
Minha mãe passou por tantas adversidades para me alimentar, criar e me proporcionar o necessário. Foi expulsa de casa por engravidar cedo e recusar-se a fazer um aborto; abandonada pelo meu pai, que se recusava a assumir a responsabilidade de ser pai. Cresci ouvindo zombarias sobre mim, por não ter um pai, por ele ter me abandonado. Por isso, enfrentava brigas com todos, independentemente de serem homens ou mulheres - desde muito nova, eu era destemida. Minha mãe estava sempre presente na escola por minha causa, mas eu não aguentava, pois ouvia coisas que realmente me machucavam:
“Você é tão insignificante que seu pai nem te quis”.
“Você é tão inútil que seu pai nem te suportou”.
Eram essas e outras palavras. Lembro-me uma vez de uma professora, daquelas que flertavam com os pais dos alunos. Um dia, ela chamou minha mãe de vagabunda; perdi a cabeça, agarrei um punhado do cabelo dela e a enfrentei. Ela chamou minha mãe para conversar na escola e, antes de me repreender, sempre me perguntava o que havia acontecido. Naquele dia, quando contei, ela foi para cima da professora.
Mas, ao chegar em casa, minha mãe sempre me lembrava de que a violência não resolveria nada. Por esse motivo, fui expulsa de várias escolas. Graças a Deus, no entanto, consegui concluir meus estudos. Apesar dos meus desentendimentos, eu era uma boa aluna; minhas notas eram as melhores da turma. Enquanto minhas notas eram excelentes, eu era uma das piores em comportamento, sempre envolvida em brigas e confusões.
Aqui no morro, me chamam de Tigresa. Por quê? Bem, eu não sei. Talvez seja por ser muito destemida. Amigas? Não tenho. As garotas daqui são todas interesseiras e algumas são completamente sem escrúpulos.
Viver no morro tem suas vantagens e desvantagens. Todo mundo se conhece, apesar de se odiarem; sempre conseguimos nos dar bem nesse mundo. O complicado é arrumar emprego; muita gente é preconceituosa. No começo, quando ia a entrevistas de emprego e falava onde morava, logo davam um jeito de me dispensar. Mas depois que dei o endereço da minha tia, que mora na cidade, aí, sim, deu certo.
O pior são as invasões, pessoas inocentes morrendo e tudo mais. Mas o pior de tudo é quando a polícia sobe o morro. Casas são destruídas, pessoas morrem simplesmente por serem confundidas com bandidos ou por serem parentes deles. Pessoas são humilhadas apenas por morarem na favela. Falar sobre isso é fácil, mas sinceramente, nunca poderei me acostumar com isso. É algo terrível, que, sinceramente, não tem como se acostumar.
— Vai sair hoje, minha vida? — Minha mãe me pergunta, entrando no meu quarto enquanto eu lia alguns papéis do meu trabalho.
Faltavam apenas alguns meses para finalmente me tornar uma advogada excepcional, sempre foi meu sonho. Com muito esforço, consegui uma bolsa na faculdade, pois sabia que minha mãe jamais conseguiria pagar as mensalidades. Então, com muito empenho, consegui a bolsa e hoje estou quase terminando o curso.
— Eu não sei, mãe. Tenho alguns papéis para ler e, em seguida, tenho que fazer uma apresentação para o meu chefe. Se eu for bem, talvez eu consiga ficar com o caso. — digo, olhando para ela, que sorri com orgulho. Ela deixava claro o quanto estava orgulhosa de mim.
Tudo o que faço é para compensar tudo o que ela fez por mim. Só de ver esse sorriso já é suficiente para mim. E tenho certeza de que estou conseguindo. Se eu conseguir esse caso, será o meu primeiro julgamento. Estou terminando a faculdade com as melhores notas, e o escritório onde trabalho está me dando essa oportunidade. Estou atuando na área criminal, um campo muito difícil e arriscado. Mas o que posso fazer?
— Tenho tanto orgulho de você, minha princesa. Você é uma jovem talentosa e inteligente, tenho certeza de que conseguirá esse caso. — diz minha mãe, com os olhos brilhando e o sorriso ainda estampado em seu rosto. — Vou deixar você terminar, daqui a pouco trago um lanche para você.
Essa mulher é minha vida, e saber que estou fazendo ela se orgulhar, me deixa ainda mais feliz. Conseguirei retribuir cada esforço que ela fez por mim, cada sacrifício. Proporcionarei a ela uma vida maravilhosa, acredito nisso.
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Atualizado até capítulo 36
Comments
Adla Milena Chuema
Uma escrita simplesmente maravilhosa , é tão bom ler sem ter que imaginar o que a pessoa escreveu 😮💨
2023-01-26
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Zulma Oliveira
que estória linda parabéns autora
2024-11-11
0
mandinha
Tá aí a filha puxou a mãe, desse a lenha nessa ridícula da professora affs... zero profissional 😒
2024-09-12
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