As horas parecem que nunca passam, e eu acabo achando que os dias são os mesmos, já que para mim são. Já escutei várias coisas sobre meu nome, mas não ligo para o que falam. Só eu sei o que sou e por que sou assim.
— O bagulho é que eles querem subir pesadão, com a intenção de acabar com tudo mermo. Um por um. Todo mundo tá ligado que a gente morre ou é preso. — Escutei o cabeça falando com os moleques.
O morro hoje havia recebido várias ameaças dos “botas”, querendo pacificar o morro. Mas não era a primeira vez que tinha essas porras, e eles nunca conseguiram passar nem pela metade. Mas dessa vez, não. O bagulho tava mais pesado.
Estava vindo o exército junto com tanques de guerra, ROTAM e várias outras ajudas. Os que não moram no morro dão graças a Deus por isso estar acontecendo. Porque acham que assim o tráfico acaba e outras coisas, né?
Mas só quem vive aqui sabe o inferno que é. São eles entrando na casa dos moradores e quebrando tudo, humilhando todo mundo por morar na favela. Atira em inocentes que acabam ficando na rua por não chegar a tempo em casa. Só depois perguntam o nome e se a pessoa é envolvida.
Todo mundo acha que só porque tem pessoas que vivem numa favela, são envolvidas. As que são, não negam seu envolvimento. Ainda sustentam o olhar. Ainda por cima, tem trouxas que acreditam naquele ditado "bandido bom é bandido morto". Mas, na minha opinião, todos eles estão errados. E os que acreditam estão mais errados ainda. Bandido bom é aquele que vai te respeitar e que vê que é recíproco. Mas também é aquele que tu tem que tá com um olho aberto e outro fechado. Tu dá um vacilo, ele acaba contigo num piscar de olho.
Acabei saindo dos meus pensamentos com o cabeça me perguntando:
— Qual foi, parceiro? Vai falar nada não? — Eu abalo a cabeça em positivo, erguendo a mesma para cima enquanto solto a fumaça do meu cigarro. São coisas que não largo das mãos. É o meu bom cigarro e um copo de bebida.
— O negócio é cada um ficar na atividade, se protegendo e protegendo o morro. Os parceiros tão ligados que eles nunca conseguem subir o morro. Só que agora o bagulho vai tá mais pesado. — Falo sério e todos prestam atenção no que eu falo. Logo, logo as coisas que eu pedi vão estar chegando, e não vamos precisar nos preocupar muito. — Acrescento.
Eles concordam comigo, e ali ficam conversando sobre os assuntos do morro. Logo depois, eles saem da minha sala, ficando apenas eu e o cabeça.
— O que tu pretende realmente fazer? — Cabeça me pergunta, acendendo um cigarro, e depois deita no sofá que tinha ali.
Olho pra tela do notebook, confirmando umas coisas com os caras dos carregamentos. Por fim, eu falo:
— Tu já sabe os meus planos e todas as minhas jogadas. O importante é eles acharem que o morro não está sob aviso de ameaças, e todos acharem que não estamos preparando o nosso plano. E aí então, entramos em ação. — Digo sem olhar pra ele enquanto estava resolvendo altas coisas que tinha pra resolver.
Não tinha muita coisa, mas eu sempre fazia aos poucos pra nunca ficar com a mente vazia, cheia de bobeira. Porque aí que os demônios começam a agir. E uma coisa que eu aprendi durante esses anos é nunca deixar a mente vazia. Como dizem: "Mente vazia é oficina do diabo". Então prefiro passar o resto dos dias fazendo altas coisas do que ficar fazendo nada, olhando ou conversando com essas pessoas que eu sei que na primeira oportunidade que tiver, vão querer me passar a perna. E eu sempre tô ligado em tudo, cada movimento das pessoas próximas e das pessoas mais distantes. A real é que nesse mundo, não dá pra confiar em ninguém. Porque aquele que você menos espera, é o que vai te apunhalar pelas costas. Ande com poucos e não confie em ninguém.
A cada dia parece que o céu muda de cor. Parece que os dias têm as cores exatas de tudo que eu sinto. É uma coisa estranha. É um bagulho que nem eu mesmo consigo explicar ou entender.
São exatamente 03:45 da manhã, eu praticamente nem durmo e já perdi o sono. Tomei um banho demorado. Essa era minha rotina desde que entrei pra essa vida. E te falar? Prefiro assim. Assim consigo deixar minhas coisas em ordem e ficar observando o meu império.
Já tinha terminado meu banho, me arrumei e olhei no relógio. Já marcava 04:10 da manhã. Peguei as minhas coisas e a chave da moto e sai, cumprimentando os rapazes que trabalham pra mim com um aceno de cabeça e subi, saindo em alta velocidade fazendo a ronda pelo morro antes de ir pra boca.
Não sou a melhor pessoa, tô muito longe de ser. Mas enquanto eu puder proteger cada pessoa merecedora desse morro, vou fazer o possível e o impossível pra deixar cada uma delas bem e seguras.
Terminei de fazer a ronda por todo esse morro e fui pra boca. Era o melhor lugar pra se ficar o resto do dia. Odiava a luz do sol. Não suportava ver a claridade, mesmo que pra mim nada daquilo tivesse luz. É como se todos os dias tudo fosse escuro.
Entrei na minha sala, sentei na minha cadeira, liguei o notebook, peguei um copo e um dos meus melhores uísques. Assim fiz a minha primeira dose. Enquanto tomava minha bebida, eu fazia pedidos de armamentos e drogas. Essa é a minha vida. Beber praticamente o dia todo, fazer pedidos de armamentos de armas e drogas, cuidar do morro, organizar bailes, roubo de cargas e tudo que envolve a facção. Tirando isso, nada me importa.
Mulher? Não vou falar que nunca vou me envolver ou algo do tipo. Mas se aparecer aquela mina responsa, beleza. Se rolar, rolou. Se não, continuo nessa vida mesmo. Vivi esse tempo todo sozinho e não vai ser agora que vou me importar com isso, né?
Sai dos meus pensamentos com a porta sendo aberta. Já olhei pronto pra xingar, mas na hora que vi quem era, já falei logo:
— Sabe bater nesse caralho não, porra? — Eu estava bolado vendo o cabeça rindo, e se jogando de uma vez no meu sofá de couro preto que tinha ali.
— Já cedo bebendo e de mal-humor, meu amigo? — Pergunta sério me olhando.
Ele odiava a forma que eu vivia. Nunca se acostumou a me ver nessa escuridão. Vive dizendo que eu tenho que sair e conhecer pessoas. Mas aí te pergunto, bandido tem lá essas coisas?
— Começa não, comédia. Vaza daqui, vai fazer suas coisas. — Falei sem olhar pra ele, mas sabendo muito bem que ele revirou os olhos pela resposta que eu dei pra ele.
Enquanto eu fazia a contabilidade, lá escutava ele falando altas paradas. Esse corno chegava a falar mais que papagaio, mano. Tenho paciência não. Não sei como a tia aguenta esse moleque em casa. O filho da mãe não cala a boca nem por um segundo.
— Tá ligado a Dandara? Aquela dona que mora no 17? Então, tão falando por aí que a filha dela, a tal da Tigresa, tá quase se formando em direito. — Fala e eu continuei fingindo que não estava escutando.
Esse aí, é pior que essas velhas fofoqueiras que ficam no portão de casa observando e falando da vida dos outros.
— Você não tem nada pra fazer além de ficar falando da vida dos outros não, mano? — Pergunto pra ele enquanto revira os olhos.
— Véi, tu é pior que esses velhos rabugentos na moral mesmo. — Cabeça responde enquanto se levanta do sofá. Vejo ele arrumando a arma na cintura e o boné na cabeça. — Cara chato do caralho — Falou saindo da minha sala.
Já eram 8h da manhã e eu continuava ali bebendo e fazendo as minhas coisas, organizando alguns assaltos. E o sono nada. Não sei por que o espanto, ele nunca vem. E quando vem, dura apenas minutos, tô cheio de olheiras, e creio que vou ter muito mais. Nem remédio faz mais efeito.
E assim vai sendo meu dia de todos os dias...
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 36
Comments
Jessica Oliveira
quero ver como eles vão se conhecer tô amando ja
2023-02-23
38
Suellen Carolina
o dia nem clareou já tá bebendo tá foda viu
2025-01-23
0
mandinha
Pior que é desse jeito, quem vive assim não consegue dormir e isso leva tempo até se acostumar depois fudeo...
2024-09-12
1