Capítulo 22

Cristina sentiu a noite ora passar com mansidão, ora com agitação.

...***...

Os primeiro raios de sol traspassaram a janela entreaberta da cozinha, onde, sentada à mesa, diante dos papéis que recebera do primo, com uma xícara de café ao lado e uma garrafa de café um pouco mais afastada, Cristina olhava fixamente para o clarear do dia.

Tão centrada estava em sua observação que percebeu o passar de uma abelha matutina, mas não percebeu a chegada de uma de suas funcionárias ao local.

— Bom dia, senhora!

Cristina permaneceu pensativa.

Seus olhos estavam inchados e neles as orelhas eram notáveis.

Além disso, os cabelos desarrumados e o vestido de dormir deixavam evidente a uma certa distância que ela de longe teve uma boa noite de sono.

Na verdade, Cristina nem sequer conseguiu pregar os olhos de tão absorta que passara à noite. Até o café foi ela mesma quem o preparou. Não tinha gosto bom, tinha gosto amargo, mesmo que pusesse colheradas de açúcar, não o tornaria mais saboroso, senão adocicado além do tanto de açúcar que já havia colocado. Apesar do mal preparo, o líquido escuro serviu bem para o fim desejado: permanecer acordada até que a verdade pudesse ser diluída. Mas tantas horas já haviam se passado e até então não conseguia acreditar no que leu e releu várias e várias vezes.

— Meu Deus! O que houve, senhora Cristina!?

A funcionária repetiu a indagação por mais uma, duas, três, quatro vezes, quando então Cristina moveu lentamente o olhar da janela para a mulher do lado oposto.

— Diga alguma coisa, senhora… Estou ficando assustada!

E mais assustada ficou quando Cristina balbuciou algo quase inaudível.

— Filha… sempre… mãe eu.

— O quê? — indagou a funcionária, arrepiada.

Cristina, porém, sentiu seus olhos pesarem e, contra o próprio desejo, fecharam-se, levando-a a perder a consciência.

Ela se debruçou sobre a mesa e, sem intenção, acabou derramando o líquido escuro e, por sorte, frio da xícara sobre os reveladores papéis.

...***...

No início daquela mesma manhã, Anne Lígia apressou-se para, antes de ir ao trabalho, passar pela joalheria a caminho da empresa.

Ela saiu sem provar o café preparado pela mãe fumando o primeiro cigarro do dia.

— Vai morrer desse jeito, velha.

— Cuida da sua vida, filha ingrata.

— Hrrum! Depois não me venha com queixa de dores.

— Volte aqui! Não vai tomar o seu café…

— E desde quando isso daí é café? Não, obrigada. Tou indo…

— Só volte se for com o meu milhão, se não te deixarei passar à noite no relento das ruas.

— Há! Há! Se fizer isso, eu vou pular o muro e arrancar os seus dois últimos neurônios.

— Teria essa coragem, maldita?

— Eu sou filha, ora! Ou já se esqueceu disso?

A mãe sorriu ao ouvir a porta anunciando a saída definitiva da filha. Como ela podia ser tão parecida consigo mesma? Pensou a idosa, que, da mesma forma que tratou sua mãe anos atrás, estava sendo tratada até então pela própria cria!

...***...

Anne havia chamado um transporte particular. O motorista do carro que lhe atendeu parou em frente a residência e a recebeu com muita cortesia.

— Aceita um doce, senhorita?

— O quê? Doce de um estranho? Por acaso quer me drogar?

— N-Não, de forma alguma! — gaguejou ele. — Eu só quis ser gentil…

Anne sorriu da cara de paspalho do motorista moreno, um trabalhador honesto sim, mas também um idiota que se encantou com o decote ousado do busto sob uma blusa de mangas curtas com cortes, calças até a canela e sandálias douradas dela.

— Eu só estava brincando — disse ela —, dê-me isso.

Recebeu o doce e já foi querendo provar, porém, fez que não sabia desembalar uma simples embalagem. Anta? Ela não, mas ele sim, pois fez a vontade dela. Abriu o doce e o pôs na boquinha de lábios vermelhos, que implorava pelo docinho.

— Hum!

— Gostou?

— Hum! É muito bom… Começar o dia com um doce, não há nada melhor do que isso.

Ele a levou até a joalheria. Estacionou o carro próximo ao local de venda, compra e restauração de jóias.

— Por favor, espere-me aqui.

— Claro, senhorita!

...***...

Ele sentia um enorme prazer em tê-la como passageira. Passaram o caminho todo conversando sobre como a cidade é isso e aquilo, nada de novo, sempre as mesmas coisas, mas, disse ele: “Vez que outra surge uma beldade como a senhorita”. “ Há! Há! Por acaso isso foi uma cantada?”

Sem jeito, o motorista pigarreou, mas como era um homem inclinado para a verdade, revelou o jogo de suas intenções. “Podemos sair algum dia desses, beber algo…”, “Você está doido pra me drogar mesmo, né?”

Ela sorriu, ele também, proferindo não. “Só quero te conhecer melhor e me apresentar mais do que o motorista Audo.” Anne pôs uma mecha de seus cabelos loiros por trás da orelha, respondendo: “Talvez… Talvez isso não seja uma má ideia.”

Trocaram os números de telefone.

...***...

Anne se dirigiu à joalheria, portando sua pequena bolsa de alça curta. Entrou no local requintado e, de imediato, deparou-se com o prestativo senhor atendente.

— No que posso ajudá-la?

Anne olhou de um lado a outro, a princípio, só estavam eles dois ali. E então, da pequena bolsa, retirou o colar dourado com uma letra “C” suspensa.

— Quanto? — indagou, após pôr o objeto sobre o balcão.

— Nada.

— Como assim!? Você ainda nem analisou…

— Não preciso. Dá pra ver nitidamente que esse colar é a cópia.

— Cópia? Não, o senhor deve estar enganado. Este colar não é de forma alguma falso. Disso eu tenho certeza.

— Sei que realmente dá a impressão de ser verdadeiro, mas eu trabalho já faz anos com jóias e sei reconhecer bem uma cópia, principalmente quando foi uma cópia que eu mesmo fiz.

— Não… O quê?

— Uma pessoa veio aqui recentemente e pediu que eu fizesse uma cópia do modelo original desse colar. O trabalho foi rápido, pois este cliente tinha muita pressa e dinheiro pra pagar também pelos meus honorários fora de hora. Veja — apontou o objeto —, tem até algumas pequenas falhas devido à rapidez com a qual essa cópia foi produzida…

— Diacho! — Anne chutou o balcão e, avançou contra o atendente, segurando-o pela gola da camisa social, indagou-o, seriamente: — Me diga, me diga qual o nome da maldita pessoa que fez isso? Vamos! — gritou, impaciente, em tom de ordem. — Me diga!

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