Capítulo 19

Imergiu na água espumante.

A banheira em silêncio permaneceu, ao passo que a dona perdia gradualmente o oxigênio.

Quando suas costas tocaram o fundo da banheira, Cristina retomou a consciência e, num imediato desespero, movimentou os braços, as pernas e a cabeça para cima em busca do ar.

Alcançou, pois, a superfície e de imediato inspirou todo o ar que seus pulmões suportaram extrair do ambiente externo ao fundo d'água. Então, começou a tossir.

Tossiu até a respiração retornar a normalidade.

Por um triz, não havia apagado novamente pela falta de oxigênio ou pela enxaqueca que persistiam, porém, com menos ênfase. Saiu, em seguida, da água e pensou em deitar um pouco, mas aí bateram a porta de seu amplo quarto.

Era uma das empregadas domésticas da casa.

— Quem veio me visitar a esta hora?

— O seu primo, senhora.

— O Augusto!?

— Esse mesmo. Permito a entrada dele?

Cristina sentiu a enxaqueca falar mais alto e, somente quando a dor permitiu uma pausa, ela respondeu à funcionária:

— Sim, eu vou me vestir e já desço.

Tão rápido Cristina foi atender ao recém-chegado, para o qual provocou grande surpresa pelo rápido atendimento.

Havia dito a funcionária a ele:

— Aguarde um momento. Ela acabou de sair do banho.

Ele teria duvidado disso se não tivesse sido atendido pela prima trajando apenas uma toalha em volta do corpo semimolhado.

— É um tanto quanto agradável essa recepção, prima.

— O que mais você esperava? Estou na minha casa, não é mesmo?

— Certamente… Não se preocupe, pois, não vim tomar muito do seu tempo.

Ele, sentado numa poltrona, pôs uma perna sobre a outra e aconchegou-se melhor no assento confortável dos quatro que havia ali naquela ampla sala ornamentada com estátuas gregas e quadros romanos.

— Não seja tão diplomático. Agora que veio, o meu sono já se foi.

Sentou-se também cruzando as pernas. Apesar de involuntária, ela promovia-lhe uma cena ambígua entre a razão e a tentação.

— Eu não quis ser inconveniente a esse ponto.

— Ninguém aqui disse que você está sendo inconveniente por vir me ver a esta hora. Só é um pouco estranho o porquê dessa vez veio à noite…

— Garanto que não é tão estranho quanto pensa.

— Hum? O que deseja beber enquanto me conta o que veio fazer?

— Talvez o de sempre…

— Lamento, mas a última garrafa de uísque voou pela sacada, literalmente.

— Então, essa é a sua nova forma de dizer que algo acabou? — riu levemente.

— Não — cortou os risos dele —, mas pensando bem, talvez possa ser.

— Esqueça o uísque então. Aceito o que tiver, com exceção de café.

— Ainda com essa alergia à cafeína?

— Nem todo o dinheiro do mundo pode curar tudo.

Cristina sentiu a enxaqueca quase retomando o controle, mas resistiu. Pediu que uma bebida alcoólica fosse servida ao visitante. A funcionária trouxe a garrafa e dois copos de vidro.

— Não vai me acompanhar, prima?

— Já bebi a conta da semana toda, Augusto.

— Nossa! Esse seu jeito não muda mesmo.

— Que jeito?

— É só uma impressão minha.

— Deve saber então que não gosto de segredos — disse ela, seriamente.

A funcionária se retirou com a bandeja, levando dali a bebida da qual o visitante ingeriu apenas uma dose, assegurando ter sido o suficiente para lhe satisfazer a secura da garganta.

— Você é a típica pessoa que se embreaga em um único dia, vez que outra — comentou o primo Augusto.

— É verdade — concordou ela.

— Medo do vício?

— Um pouco. Os meus pais disseram que o meu marido não tinha controle algum sobre a bebida…

Augusto a interrompeu com o som de dois pigarros. Ele descruzou as pernas, apanhou a própria maleta ao lado da poltrona e a abriu, retirando do interior uma lista de papéis tidos até então como ocultados.

— O que é isto?

— Você mencionou o seu falecido marido, porém, isso que te entreguei é o seu verdadeiro passado.

— O meu verdadeiro passado?

— Seu passado oculto, Cristina.

— Augusto, será que dá para ser mais claro?

Ela permanecia fitando o primo com quem sempre teve uma boa relação. Gostava de recebê-lo em sua casa, mas ele nem sempre estava pela cidade.

Normalmente ele aparecia uma ou duas vezes por ano e, daquela vez, apareceu com aqueles papéis que fizeram Cristina esquecer a enxaqueca e sentir as mãos suarem de ansiedade.

— Você sabe que eu trabalho com o meio jurídico.

— É óbvio, Gutinho.

Augusto franziu o cenho em desacordo com o apelido nunca aprovado, mas que não se importava muito se fosse ela a dizê-lo.

— Eu te conheço tão bem quanto a mim mesma — acrescentou ela, sorrindo de uma sensação boa que lhe passou pelo corpo.

Era o efeito da nostalgia da época de infância de Guto e Cris.

— Pois — retomou ele a fala, seriamente —, recebi esses papéis de um dos meus funcionários mais confiáveis. Esses são arquivos que deveriam ter sido destruídos, mas por algum motivo foram bem arquivados.

— Quem? Onde? Por quê?

— Essas são informações que eu não posso te dar além das que constam nesses papéis.

Cristina começou a sentir o peito pulsar de aflição. O que havia de tão importante nos papéis que portava com tanto medo de lê-los?

— O que você quer em troca deles?

— Desde quando eu te cobrei algo?

— Mas se são informações tão importantes assim, vai deixar que eu as leia sem cobrar nada…

— Nada não, mas uma coisa sim.

— O quê?

— A sua felicidade.

— Como assim?

Augusto fechou a maleta e a pôs de lado. Então, levantou-se e, adiante, agachou-se diante de Cristina, tocou as mãos dela e o rosto também, acariciando-a com gentileza e respeito, ao passo que explicava a seriedade do que havia naqueles papéis.

— Se quiser, eu posso levá-los daqui e destruí-los para sempre, pois uma vez lidos, a sua vida não será mais a mesma.

— Augusto, você está me deixando preocupada…

— Mesmo que escolha saber a verdade — prosseguiu. — Saiba que eu sempre vou estar do seu lado, Cris.

Beijou a mão dela e levantou-se, dando sinal de que já estava de partida.

— Espera!

— Hum? Mudou de ideia?

— Não — respondeu, abraçando os papéis ainda não lidos. — Obrigada, primo!

Ele sorriu de canto de boca e, seguiu até a porta de entrada, acompanhado pela funcionária chamada por Cristina, que retornou ao próprio quarto, onde pôs os papéis sobre a cama enquanto foi vestir um pijama de dormir.

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