Imergiu na água espumante.
A banheira em silêncio permaneceu, ao passo que a dona perdia gradualmente o oxigênio.
Quando suas costas tocaram o fundo da banheira, Cristina retomou a consciência e, num imediato desespero, movimentou os braços, as pernas e a cabeça para cima em busca do ar.
Alcançou, pois, a superfície e de imediato inspirou todo o ar que seus pulmões suportaram extrair do ambiente externo ao fundo d'água. Então, começou a tossir.
Tossiu até a respiração retornar a normalidade.
Por um triz, não havia apagado novamente pela falta de oxigênio ou pela enxaqueca que persistiam, porém, com menos ênfase. Saiu, em seguida, da água e pensou em deitar um pouco, mas aí bateram a porta de seu amplo quarto.
Era uma das empregadas domésticas da casa.
— Quem veio me visitar a esta hora?
— O seu primo, senhora.
— O Augusto!?
— Esse mesmo. Permito a entrada dele?
Cristina sentiu a enxaqueca falar mais alto e, somente quando a dor permitiu uma pausa, ela respondeu à funcionária:
— Sim, eu vou me vestir e já desço.
Tão rápido Cristina foi atender ao recém-chegado, para o qual provocou grande surpresa pelo rápido atendimento.
Havia dito a funcionária a ele:
— Aguarde um momento. Ela acabou de sair do banho.
Ele teria duvidado disso se não tivesse sido atendido pela prima trajando apenas uma toalha em volta do corpo semimolhado.
— É um tanto quanto agradável essa recepção, prima.
— O que mais você esperava? Estou na minha casa, não é mesmo?
— Certamente… Não se preocupe, pois, não vim tomar muito do seu tempo.
Ele, sentado numa poltrona, pôs uma perna sobre a outra e aconchegou-se melhor no assento confortável dos quatro que havia ali naquela ampla sala ornamentada com estátuas gregas e quadros romanos.
— Não seja tão diplomático. Agora que veio, o meu sono já se foi.
Sentou-se também cruzando as pernas. Apesar de involuntária, ela promovia-lhe uma cena ambígua entre a razão e a tentação.
— Eu não quis ser inconveniente a esse ponto.
— Ninguém aqui disse que você está sendo inconveniente por vir me ver a esta hora. Só é um pouco estranho o porquê dessa vez veio à noite…
— Garanto que não é tão estranho quanto pensa.
— Hum? O que deseja beber enquanto me conta o que veio fazer?
— Talvez o de sempre…
— Lamento, mas a última garrafa de uísque voou pela sacada, literalmente.
— Então, essa é a sua nova forma de dizer que algo acabou? — riu levemente.
— Não — cortou os risos dele —, mas pensando bem, talvez possa ser.
— Esqueça o uísque então. Aceito o que tiver, com exceção de café.
— Ainda com essa alergia à cafeína?
— Nem todo o dinheiro do mundo pode curar tudo.
Cristina sentiu a enxaqueca quase retomando o controle, mas resistiu. Pediu que uma bebida alcoólica fosse servida ao visitante. A funcionária trouxe a garrafa e dois copos de vidro.
— Não vai me acompanhar, prima?
— Já bebi a conta da semana toda, Augusto.
— Nossa! Esse seu jeito não muda mesmo.
— Que jeito?
— É só uma impressão minha.
— Deve saber então que não gosto de segredos — disse ela, seriamente.
A funcionária se retirou com a bandeja, levando dali a bebida da qual o visitante ingeriu apenas uma dose, assegurando ter sido o suficiente para lhe satisfazer a secura da garganta.
— Você é a típica pessoa que se embreaga em um único dia, vez que outra — comentou o primo Augusto.
— É verdade — concordou ela.
— Medo do vício?
— Um pouco. Os meus pais disseram que o meu marido não tinha controle algum sobre a bebida…
Augusto a interrompeu com o som de dois pigarros. Ele descruzou as pernas, apanhou a própria maleta ao lado da poltrona e a abriu, retirando do interior uma lista de papéis tidos até então como ocultados.
— O que é isto?
— Você mencionou o seu falecido marido, porém, isso que te entreguei é o seu verdadeiro passado.
— O meu verdadeiro passado?
— Seu passado oculto, Cristina.
— Augusto, será que dá para ser mais claro?
Ela permanecia fitando o primo com quem sempre teve uma boa relação. Gostava de recebê-lo em sua casa, mas ele nem sempre estava pela cidade.
Normalmente ele aparecia uma ou duas vezes por ano e, daquela vez, apareceu com aqueles papéis que fizeram Cristina esquecer a enxaqueca e sentir as mãos suarem de ansiedade.
— Você sabe que eu trabalho com o meio jurídico.
— É óbvio, Gutinho.
Augusto franziu o cenho em desacordo com o apelido nunca aprovado, mas que não se importava muito se fosse ela a dizê-lo.
— Eu te conheço tão bem quanto a mim mesma — acrescentou ela, sorrindo de uma sensação boa que lhe passou pelo corpo.
Era o efeito da nostalgia da época de infância de Guto e Cris.
— Pois — retomou ele a fala, seriamente —, recebi esses papéis de um dos meus funcionários mais confiáveis. Esses são arquivos que deveriam ter sido destruídos, mas por algum motivo foram bem arquivados.
— Quem? Onde? Por quê?
— Essas são informações que eu não posso te dar além das que constam nesses papéis.
Cristina começou a sentir o peito pulsar de aflição. O que havia de tão importante nos papéis que portava com tanto medo de lê-los?
— O que você quer em troca deles?
— Desde quando eu te cobrei algo?
— Mas se são informações tão importantes assim, vai deixar que eu as leia sem cobrar nada…
— Nada não, mas uma coisa sim.
— O quê?
— A sua felicidade.
— Como assim?
Augusto fechou a maleta e a pôs de lado. Então, levantou-se e, adiante, agachou-se diante de Cristina, tocou as mãos dela e o rosto também, acariciando-a com gentileza e respeito, ao passo que explicava a seriedade do que havia naqueles papéis.
— Se quiser, eu posso levá-los daqui e destruí-los para sempre, pois uma vez lidos, a sua vida não será mais a mesma.
— Augusto, você está me deixando preocupada…
— Mesmo que escolha saber a verdade — prosseguiu. — Saiba que eu sempre vou estar do seu lado, Cris.
Beijou a mão dela e levantou-se, dando sinal de que já estava de partida.
— Espera!
— Hum? Mudou de ideia?
— Não — respondeu, abraçando os papéis ainda não lidos. — Obrigada, primo!
Ele sorriu de canto de boca e, seguiu até a porta de entrada, acompanhado pela funcionária chamada por Cristina, que retornou ao próprio quarto, onde pôs os papéis sobre a cama enquanto foi vestir um pijama de dormir.
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Atualizado até capítulo 31
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